segunda-feira, 29 de julho de 2013

29 de julho.



A manhã trouxe a claridade.
A clara idade do dia.
A caridade do tempo.
O tempo que trouxe o dia,
a idade.
A inevitável presença
da vida.

Patrícia Porto

sábado, 27 de julho de 2013

Tecidos de Memória.

© Steve McCurry, Contemplando a humanidade.

(Para Letícia Mello Leitão, uma grande memorialista)

No dia seguinte
o silêncio da tua quase entrança
me desvelou o outro nome secreto da alegria:
e ele não era menos belo que a tua face oculta.
O rosto bem não te retrata
e o sussurro de uma memória estampada
perdendo-se no eco dos esqueletos
de tua casa - já nos esquecia.
E se a morte se resumir a isto?
Ao nada? Quem nos dirá?
Quadros retirados das paredes?
Roupas que não guardarão teu corpo?
Quem então herdará a tua palavra,
os pés trocados de teu santo?
Teu relicário de recortes de jornais, tuas histórias
sedentas de ouvidos?

A visita nas horas
de tua frágil existência
me fizeram conhecer o teu altar interno de lembranças,
tuas ofertas de memórias,
um acervo tão familiar.
Eu, a clandestina do meu clã destino,
guardando o dia de tua quase não-existência,
a tua quase última entrega afagada.
Irmãs de véu, sabíamos nós
do que nos falam as ressurgências.
Vozes inaudíveis,
ressonâncias perdidas nesses corredores
da alma.

Pois sim, não deixaremos de herança.

Patrícia Porto

quinta-feira, 18 de julho de 2013

de saliva e sal.


Bruno Barbey ~ Portugal, 1993.

A vida segue.
A boca-esfinge
é seta, um templo,
um tombo d`água
movendo
o moinho
do tempo...

E seguir não sabendo
é tudo que resta;
é como o moço que veste
a capa do mundo,
protegendo a alma
da culpa
e o desejo
da carapuça.

Seque a saliva... Economize o caminho.

Assim, como sempre,
os que vieram antes de ti,
escolhendo palavras
acenando desesperos,
dizendo pregos
ao invés de amor,
e o tudo, verás: es-ca-pa!
vampiriza
por entre os teus dedos
tão sozinhos
de tanto sal...

E aqui estou à beira de tua porta...
A outra.

Patrícia Porto

segunda-feira, 15 de julho de 2013

Pede dança.




Pé de dança
e luz branca
Pé tá lá no sol
A luz chegou
(ainda bem)
pela manhã

Tão fina...

Fin(da)dor,
Tão doce o
Amor
tão Lúdico,
tontinho é.
Tão divagar...

Pé ta lá no ar!
Olha só o que eu vi?
Um astronauta,
um novo Íkaro!
E gente se abraçando na lua!
Criança vi um rosto e uma montanha,
rodas de ciranda
e joguei fora as correntes
e fiquei de pé assim de vento sem nenhuma gravidade em mim

Pé tá lá nas nuvens...

Patrícia Porto

domingo, 14 de julho de 2013

A Esperança de Banquete.

Centro de Arte Moderna de Lisboa.


Talvez a mão suave
de um futuro qualquer
em nosso ombro assente
para acalentar os abandonos
das partes arrancadas.
E nos contará de como é belo
o meio da rosa, o miolo do pão,
a melhor fatia da espécie
- a que de certo há de nos comer
o depois pelas beiradas.


Patrícia Porto

quinta-feira, 11 de julho de 2013

A Cidade Nua: Minha Primeira Playboy.

               
Cris Marker

                  Sabe aquele dia em que as coisas parecem inusitadas e que de repente uma avalanche de pensamentos inesperados se sucedem? Pois foi o que aconteceu comigo dia desses. Entrei num salão de beleza, algo que não faço mais de três ou quatro vezes ao ano e naquela indisposição de ficar horas intermináveis esperando o efeito de um produto químico devastador na minha cabeça, tive uma revista colocada em minhas mãos por uma das atendentes, uma revista que normalmente recusaria por conceito e não pré, mas que por inércia não retirei do colo. Na página deixada aberta havia uma entrevista com a escritora e apresentadora da GNT, Fernanda Young. Não consegui não ler, até porque do que eu já havia lido, visto e sabido da Young muito me agradava e “irritava” também. Sabia que a Young era de Niterói. Devo fazer um parêntese aqui para algo que dizem a respeito da cidade, pois sobre esse lugar tão aprazível falam, até mesmo os próprios niteroienses, que quase todos se conhecem ou ainda que alguém que conhece um outro alguém no final inevitavelmente vai conhecer ou esbarrar em você. Pensei se tratar de lenda urbana até me mudar há três anos para Niterói e comprovar por experiência própria que isso realmente era um fato.                                 
                      E para mim, aos poucos, Niterói foi tomando a imagem da Mãe - com toda sua bondade e controle. Lembro que depois do segundo mês morando em Niterói comecei a sentir uma certa claustrofobia, ao ar livre, ao perceber que saindo a mesma hora todos os dias conseguiria, mesmo sem desejar, encontrar com os mesmos estranhos de sempre. Lá pelo terceiro ou quarto mês algo se tornou comum. Eu me sentia na obrigação de cumprimentar aquele estranho não mais tão estranho assim e por ai vai. Mas eu sabia que Young era de Niterói porque havia conhecido duas ou três pessoas que conheciam a Fernanda e pasmem: que haviam convivido de muito perto com ela. E a literatura não tinha nada com isso!
                    No folhear das páginas da revista, interessei-me pela parte em que Fernanda dizia se identificar com a cidade de São Paulo, com aquele clima louco de frio, garoa e céu cinza... Fui invadida então por um sentimento único de nostalgia, eu que por vezes pensei em me mudar e que de certa forma quase morei em São Paulo. Eu que não conseguia me identificar com minha cidade de origem e até mesmo com Niterói e com tudo de tão agradável que ali havia e há. Falo do agradável mesmo, como suas borboletas amarelas e suas praias fantásticas. Talvez eu assim como Fernanda, ela que cresceu em Niterói, tivéssemos aquela tal aptidão para o caos. Devo confessar que fiquei um tanto feliz por Fernanda me isentar, ainda que pouco, da culpa que eu tanto sentia por não me adaptar à cidade. Ficava evidente pra mim, de tão estranha natureza, que o problema estava comigo e na minha veia anti-social, aquela dos que gostam da vadiagem reclusa do mundo interno e do anonimato da cidade. Que benefícios eu enxergava no anonimato daquela cidade caótica que tinha sido a São Paulo que eu vivi! Nasci no nordeste que desde sempre foi para mim o início, o verbo, o Pai sentado à cabeceira da mesa sempre pronto pra "ralhar". Cresci bom tempo numa área pobre da periferia do Rio. Alô alô Realengo, aquele abraço! E quando um irmão mais velho foi viver em São Paulo, nas idas e visitas a ele, me encantei pelo absurdo e pela gente e pelas avenidas da Sampa tão bem descrita e cantata por Caetano. A São Paulo que eu me identifiquei tinha fábricas e operários, sanduíches de mortadela, a massa do Bexiga, as feiras e os pastéis com calda de cana, os vermelhos da Liberdade, o Trianon e o ônibus elétrico que me levava pra Santana. São Paulo era meio pátria de todos, porto de todos, migrantes e imigrantes. E eu ia para as ruas e aconchegava meu olhar com toda aquela gente um pouco pálida e com um certo tom inesperado de pressa. Nas ruas da Sampa eu me sentia parte e todo. Foi amor a toda vista. Minha primeira noite de amor, é claro, foi em São Paulo. Até porque aquela cidade não era a cinta do pai nem os olhos astutos da mãe. Era o Homem desnudo, humano e impreciso. E não havia nada de mais transgressor e delicado que tirá-lo da trindade para deitar-se com ele. Era como uma poesia doce e ácida. Para mim - sem a fechada lealdade do clã, sem a alegria da turma do bairro, era o amplo e cinza horizonte sem margens. Poética. Garoética.
                              Tenho um amigo de poesia que me citou uma vez que não se pode escolher o lugar onde se nasce, mas talvez se possa escolher o lugar onde se possa morrer. Se eu puder escolher... Devo agradecer à Young que naquela tarde sem expectativas me revelou um negativo guardado de filme, uma parte que falava tímida dentro de mim. Soube pela entrevista que ela fará um nu para a playboy. A playboy que há tempos não desnuda um feminino que esteja para além de um corpo bonito - desculpem, de um corpão bonito. Desisti da química no cabelo e saí pelas ruas. Uma brisa quente tocou o meu rosto. Borboletas amarelas cruzavam. Uma cidade tem tantos espelhos... Quem sabe eu não me encontre num deles agora.

Patrícia Porto




quarta-feira, 3 de julho de 2013

De eclipses a improvisos.

Joan Miró, Ballerina 


Tem sempre palavras que não descansam.
Palavras de minha astuta forma de não dizer.
Travadas na fonte, mortas de sede de si mesmas,
adoecendo de minha mordaça.
Não sei dizê-las, porém, me anestesia o mutismo.
Grande calamidade viver para fora delas, silenciada.
Não sei viver. Disseram que há muita destruição no meu caminho.
Minha terra esgotou-se, os sobreviventes de minha terra estão cansados,
todos são vagos.
Ando morta-viva de palavras que não posso dizer, pois também me esgotei.
Estou tão consumida. Tão consumada.
Andei nesse tempo escuro aborrecida da existência sem escolher.
Também não sei morrer. Se olho o espelho me desgasto...
E não há improvisos nesse silêncio.

Patricia Porto 

segunda-feira, 1 de julho de 2013

A roda.

Alice Brill


O menino fora da roda.
Um vazio, um sinistro, uma moda canhota de ser...
Onde eu errei o sonho? Devo voltar para trás?
Se pudesse voltaria em câmara lenta só para te olhar de novo.
O mesmo cabelo em desalento, meu desalinho.
O sorriso dos teus olhos levando minha alma.
Nada mais que teus abraços, nada mais que viver de novo teus sentidos.
O menino fora do esquadro, fora do quadro te olhando de dentro.
Uma dose espetacular de coragem pra dizer que é amor.
Não parta, não insulte o meu amor.  Não me partas mais.
O espelho quebrado, os destroços do navio, a escotilha arrebentada de naufrágios.
Nenhuma gota de sangue no caminho.
Tudo limpo agora e já não me surpreende ficar só.
O menino fora do ritmo,
atravessando a música, correndo pela rua,
toda rua nua, toda rua é dele.
O menino e o sol. Tudo rima.    

Tudo roda.

Patrícia Porto

Nove luas de Luiza.

Luiza, minha filha.

A lua sorriu acolhimentos,
alimento de mãe que aninha o coração.
A lua e a mãe...
O som-silêncio de chuva,
toda conjugada a doar,
e esperar, e crer...
Nove luas tão cheias,
Menina-mãe dos meus olhos,
luz-farol pro vento frio da vida,
luz que acende a casa e o porto
de todos os elementos em grãos.
Nove luas de Luiza,
novecentos motivos e maneiras
pra viver de novo a embarrigada do tempo,
pra cantar o azul das águas de beber
e dividir a direção em muitas.
O Amor sorriu, calmo, beirando respostas
de mansinho, paciência...
colando estrelas num desenho de criança,
eu vi de perto nuvens, cavalinhos, arco-íris,
uma floresta de árvores de maçãs
e um sol de raios guardando todo um sonho
que eu vivo acordada, enluarada,
amada, amando em duas.

Patricia Porto