domingo, 30 de junho de 2013

A escrita e a inveja. (Homenagem a Sérgio Porto e tia Zulmira)


"(...) artísta sensível, cidadão carioca", LAN por Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) e Sérgio Porto por LAN.


A escrita e a inveja.


(Homenagem a Sérgio Porto e tia Zulmira)


Ele ligou tarde da noite.
_ Alô... Olha, meu camarada, essas coisas que você anda escrevendo no jornal ultimamente, sabe... Sou teu amigo e por isso vou te prevenir. Tô até falando baixo que tenho medo. Mas não pega bem, companheiro... O meio que a gente vive é pequeno, um ovo, cabe três e olhe lá! E todo mundo se conhece intimamente. Você, nessa vaidade, fica aí escrevendo essas provocações... Fico até sem jeito de falar... Mas tem gente importante que já comentou comigo que não gostou nada nada!
_ Pera aí, João! Até tu Brutus! Sou jornalista e tenho meu direito de expressão nesta bodega, entendeu?!
_ Mas é que você, meu querido, anda mexendo com gente grande, peixe grande, saca? Isso aí não vai dar certo, meu amigo. Depois lá na frente você se prejudica. E ainda sobra pra nós dois...
_ Olha aqui, meu caro João. Cada um na sua e a vida continua. Você cuida do seu jardim, rega as suas plantinhas que eu cuido das minhas! Vai dormir, João!

A mulher acorda.
_ Que conversa é essa, Zuzu?
_ O João Maurício! Ligou pra falar do meu artigo no jornal. Esse cretino, filho da mãe! Esqueceu tudo o que eu fiz por ele... E agora só porque se acha numa posiçãozinha melhor quer cantar de galo no terreiro alheio.
_ Mas Zuzu, meu bem, talvez ele tenha um pouquinho de razão... Você é radical às vezes, sabia? Nas suas opiniões - muito agressivo. Leva tudo muito a sério. Não aceita que o mundo seja do jeito que é. Tem mania de querer salvar o mundo escrevendo... Isso está fora de moda, esse negócio de idealismo. Já caiu em desuso, Zuzu.
_  Pera aí, Cristina! Até tu Brutus! Covardia não faz meu feitio! Não sou pessoa de ficar fazendo miséria com as palavras! Comigo é assim e pá-ponto: sem papas na língua! Tem que dizer eu digo! Tem que escrever, eu escrevo! Não gostou? Discorde e exponha as armas de seus argumentos que não tenho medo de duelo verbal!

A mulher conversa com a sogra:
_ Dona Dora, seu filho, o Zuzu, não está nada bem. Pirou, coitado... Ele agora deu de denunciar, de enfrentar até gente graúda através de denúncia, escrevendo pra jornal, revista!
_ Mas não é tudo “meta-fora”, minha filha? Pelo menos foi isso que ele disse aqui em casa pra mim mais o Antenor. Que esse negócio de “meta-fora” não pega pra ninguém, é uma linguagem da figura, do figura.  Figurão! Deve ser isso, minha filha. Tem que se preocupar não. O menino sempre foi bom de juízo.
_ Não vai adiantar eu explicar agora, dona Dora. Mas é que mesmo no sentido figurado, isso que ele escreve não é coisa boa pra quem é entendido no assunto, percebe?
_ Ah , minha filha, agora você complicou comigo. Do figurado eu não sei. Mas esse menino sabe das coisas sim, ele sempre foi bom de inventar história! Esse menino é um danadinho! Já contei pra você aquela vez que ele...

A mulher conversa com o analista:
_ Não aguento mais o meu marido, aquele traste do Zuzu. Agora ele acha que vai salvar o mundo escrevendo. Além de ganhar mal com o que faz, os poucos que leem aquele raio de coluna querem é tirar a pele dele para fritar pra aperitivo. Ele é mesmo um sem noção como diz a minha irmã! Eu deveria ter ouvido a minha mãe quando ela tanto me avisou. Mas isso também é culpa dela, ela fica dizendo por aí que eu tenho o dedo podre pra escolher homem. E agora também, além dessa mania de ser herói fora de época, coisa mais infantil e besta, também nem comparece como antes, só pensando nessa escrita... E também...
_ Acabou o seu tempo, continuamos na próxima semana.

A mulher conversa com a manicure:
_ Não aguento mais o meu marido, o Zuzu...

A mulher conversa com a empregada:
_ Não aguento mais o seu patrão!

A mulher conversa com a mãe:
_ Não aguento mais esse idiota!

A mulher conversa com uma vizinha no elevador:
_ É, tá quente, mas saiba que o pior é aguentar certas pessoas. Não aguento mais certos homens que...

A mulher conversa com o amante:
_ Ah, João Maurício, não aguento mais...
_  Mas, minha sereia, eu juro que estou fazendo o que posso... Mas ele é tão teimoso...


Patrícia Porto

terça-feira, 11 de junho de 2013

A um senhor e seu amor inacabado.



Caro senhor,

Os cabelos que hoje crescem em mim já não os conheço.
Por isso retirei a capa da chuva.

E as máscaras dos hipócritas

que lhes cabem feito luvas -
essas não nos servem de cara puça.


Beberemos assim a hipocrisia dos mortos-vivos,
dos desvalidos de coração, de paixão, de cafuné.
louvaremos aos bobos que escrevem versos,

aos esquisitos que sonham de boca aberta
e acreditam piamente na bomba de chocolate e amor.


Patrícia Porto

quinta-feira, 6 de junho de 2013

Casulo.

Arte: Ana Luisa Kaminski 

Tem gente que tem o dom de nos mostrar:
esses pássaros que esquecemos de ver do cuco,
o relógio do bruto que já parou de bater.
toc-toc, o coração de quem confunde estações -
não, não sou de voar -
e só de pensar
em passarar... conluio.

Bom te encontrar, pessoa de tão longe mar!
Gente de segredo místico:
que é véu de cachoeira, magia de prece e sereno.
Constrange até o véu da minha tristeza
e eu que me escondi de baú
dentro desse passará... Encapsulo.

Gente de boa sina,
pessoa de frescor de chuva:
tem tanto de alma das coisas amenas...
Nesses atalhos do meu escuro
até meu sorriso é escapista...
Acabou de passar um...
Viu? Passou aqui... Foi curto.

Gente desse Azul,
aceita a minha lassidão.
Acordes do meu ai ai ai...
Fiquei de tão só, talhando meus dramas,
que me deixei desde menina
parada solista na porta de casa,
brincando de pés, pedrinhas de solidão. Casulo.

Patrícia Porto

segunda-feira, 3 de junho de 2013

sonatina para sopros e cordas.


 © Arno MINKKINEN.

Sabemos que há o amor
e há a sede
e o sonho
e a noite para escurecer
seus problemas mais doentes,
suas dores mais sentidas.

E há um medo de existir,
de dormir no escuro,
de assombração que é do dia,
da imperfeição de ser,
perder pai e mãe,
de um estalar de dedos e dados
virar um atropelo sísmico.

E há o fato e o verbo.
mentiras (relativas).
verdades (relativas).
a relativa forma
de esquecê-las todas.

há um tédio,
a lua em gêmeos,
o arranha-céu
a garganta arranhada
de malabarismos
Do De Ca Fô Ni Cos

há o mistério
feito dos que sabem da morte,
a dona doida
que atravessou o Tejo
- para aportar, sem medidas, nessa Baía da Guanabara.

E há a notícia que ninguém soube
- a não identificada.
Há o colapso das estrelas.

Nas redes há teias.
Ateias logo fogo nas vestes, nas naus
para não me deixar partir
até a deixa...

Mas há o signo
e há a sinastria.
a arrogância na palavra dura,
na armadura, um frio fino na nuca...
armas de destruição em massa,
massinhas de modelar crianças...

só por hoje,
só por hoje estender os braços...

E há a permanência, a insistência
- sem anistia da espera.

Há tantos, tantas!
só por hoje...

Faz... Faz de conta,
escreve, escreve
que há tempos pra escorrer nos travesseiros.
Há um som vindo da janela,
um arranjo de flores,
de velas ao mar,
develas
revelas
desvelas
ao mar ar ar ar ar...
por hoje
só...
ou sopros ou cordas...

Patricia Porto