quinta-feira, 28 de março de 2013

Ao transcender.


Angelika Trotier.

Se houver uma síntese,
pra poesia: um haikai, um Leminski...
pra vida: sabedoria,
pra sabedoria: Santo Agostinho,
pro ser em si: conhecimento, Sócrates, Descartes...
pro amor: amar...
pra memória: que permaneça...
A síntese pra existência: toda sua plena expansão
girando numa valsa.

Patrícia Porto

segunda-feira, 18 de março de 2013

Por onde deseducam as Borboletas.


Hoje fiz poesia,
poesia de versos quebrados,
imperfeitos.

Sou tão pouco poeta do corte e do absurdo
que de meu torto verso
Poesia faz troça, traça e trançado de mim.
Troca até o meu nome,
suja minha quadra de renda,
rasga meu pedido no pano:
- Vazio, cheio, cheio, vazio...
Pouco senso.
Muito tento.

Sou poeta de palavras curtidas,
gasturas no fundo da louça,
de uma obscura delicadeza
como as das simples palavras que te digo agora:
pai, mãe, filho, chuva, sol, vida...

Feito a criada das horas,
uma criança faminta
como e oferto do fácil, do digerível – com as mãos:
um doce de ovo, o doce da língua.
Vou cortando por dentro sempre antecipada ao pão de todo dia.
Espalhando promessas em vasos partidos, multiplicados,
vou engolindo serenos e luas.
Consumida de sonhos
vou vagando no tempo,
Temporando um verso aqui,
outro ali...
Num quarto de tecido...

Definições pra quê?
Borboleta a poesia!

Patricia Porto

domingo, 17 de março de 2013

Jardim de Violetas para o novo-velho Amor.


Lee Jeffries. La tremenda humanidad.
         

            Meu nome hoje é Violeta e fiquei dias pensando sobre o que escreveria, tomada desse tão raro sentimento: o Amor. Então pensei com qual sentido poderia expressá-lo sem cair - inevitavelmente - no ridículo de todo bom estado amoroso. Acredito que, por escolha mais apropriada, de todos os sentidos tenha pensado primeiro na visão. Pensando sobre o olhar banalizado das coisas. Ver e amar - ou não olhar, esquecer-se de olhar ou ainda rejeitar olhar porque é óbvio, estamos cansados e o dia foi duro. Pela visão nos agradamos tanto, nos desagradamos tanto... E o primeiro olhar parece colher o viés da novidade, das sensações imediatas. É uma des-coberta sem igual. Mas lembro que se as aparências enganam, imaginem  por quantos enganos somos capturados pelo olhar aligeirado das coisas, pelo uso de uma só lente. É preciso então ficar com elas, as coisas, para aprender a olhar? E é preciso permanecer com elas? Encontrar nelas a pergunta primeira para as muitas respostas rasas?
             Da pergunta e da visão me veio à cabeça outro sentido que é o da memória olfativa, memória dos odores. Talvez porque eu me sinta povoada por esse tipo de memória. O cheiro das pessoas, dos bichos, dos lugares, dos objetos... O cheiro da nossa história tão impregnada de doces, azedos, cheiro de barata sem nunca ter cheirado uma de perto. O cheiro da mãe. O cheiro de sabonete de Alfazema da minha avó. O lugar mais comum e bonito: o cheiro de terra molhada, de chuva que faz a passagem; chuva boa, é claro. O cheiro de canela, de flor de laranjeira, dama da noite se espalhando pela rua...
          E tudo isso foi surgindo com esses pensamentos porque me veio à memória o cheiro do meu novo-velho amor. Sim, porque o novo quando nasce do velho é melhor que o novo original. A redescoberta já traz em si um odor único, bem peculiar de reinvenção, das coisas recém-re-descobertas, o cheiro do reinicio que pode até se estender ao fim de tudo, ao cabo de todas as emoções: o cheiro definitivo do nosso último tempo. Mas não estamos falando de partidas e sim de cheganças, reintranças, ressonâncias, "meu amor, por onde andastes"?
           O novo mundo, a terra nova, tudo tem consciência e profunda liberdade. Pois bem, o meu novo-velho  amor tem cheiro de incensos e poesia, tem cheiro de fragrâncias intensas nunca antes sentidas por mim. Tem cheiro de festa, música, suor de corpos em abraços demorados e desejados. O meu novo-velho amor têm o cheiro de mar, daquilo que chamam de primitivo e de sombra. Ecoa pra dentro. O cheiro da tempestade e da bonança, do barco que encalha e das ondas que o levam – não se sabe para onde. Não se quer saber. É pela deriva que se encontra o caminho. O meu novo-velho amor tem o cheiro quase indescritível de natureza, de sede, de mãos molhadas, de água doce correndo barrenta para um fluxo descontinuo de rio-mar. Tem cheiro de colônia e sexo. Tem cheiro de instintos, fluídos, magias.
          Sim, podemos ficar assim comovidos e exauridos de tanto que o novo-velho amor nos preenche de ansiedades e calmarias. Contraditório em si. Contraditoriamente sentimos e nos abalamos, nos movemos como inacabados ao encontro do que há de menos reflexivo e intelectual: a entrega. Somos parte então da própria intuição ou somos toda ela numa coisa bruta, num estado anterior, pré-humano de êxtase e confiança.
          Direi, por fim, que assim como é doce o cheiro da nova estação, é doce também o cheiro do meu novo-velho amor. Podemos ter a idade que for, eu o vejo sempre jovem com seus encantos e armadilhas. A nova casa, o novo lar, a nova trilha, a nova cidade, a nova saída, o novo pacto. Pra quê?
          Ah, porque o amor está mais dentro que fora e quando invade nossa rotina íntima sem solução, quer se fazer a origem de todos outros sentidos, criar sentidos. Há saudades, por certo, e estão inscritas no cheiro que retemos na memória. Respirar fundo, respirar longo, uterinamente o amor como uma pele de potência. Ele vem, atravessa o tempo e o espaço, atravessa a primeira capa do corpo para se instalar cativo dentro do coração. Mas é então possível cheirar com o coração? Sim, é possível sentir tudo com o coração, mas também é possível não sentir nada.
           Vou parar de escrever. Lá vem ele com vinho e comida. Os cheiros exalam pela casa, não se omitem mais. Talvez façamos carinhos apaixonados um no outro até o romper da noite em dia, da morte em vida, da vida em vida. Bendito seja o Amor e todo esse seu perfume de amanhã.
           Hoje me coloquei água e me chamei por Violeta.

Patrícia Porto

sexta-feira, 15 de março de 2013

A POESIA e a LEBRE

Lebre de Março, "Alice no País das Maravilhas". 


A POESIA e a  LEBRE                                          (Para a Poeta e Amiga Cristina Lebre)

A Lebre tem um marido chamado Lebrão
e muitos filhos... E todos eles sãos ligeiros,
não gostam de perder tempo com bobagens,
coisas que emperram ou maquinários que atrasam!
As lebres têm peculiaridades infindas,  
às vezes tímidas, mas gostam mais de viver em bandos.
Até podem encontrar uma justa forma de solidão,
mas trocam rápido por boa comida e amizade que seja fagueira.
As lebres amam viajar, correr o mundo,
desvelar novidades,
descobrir as sutilezas de uma Torre
ou o encanto de um Navio.
Colecionam o Uni e o Verso nas paredes imaginárias de sua casa.
Gostam de Verão, Inverno, do Outono,
mas se deleitam mesmo com a Primavera.
Ah, e as lebres apreciam muito as matas e as manhãs,
principalmente as de Março.
Conversam com os passarinhos,
dão de beber aos bichos mais necessitados
e adormecem em seus ninhos sempre compondo, toda família,
Canções e Poesias:  novos tipos de aventuras e passaportes.  

Patrícia Porto 

sábado, 9 de março de 2013

Peito Aberto.

Beatriz Martín-Vidal


Hoje na rua vi um cão perdido e solitário e não o pude levar pra casa,
não lhe dei abrigo ou sequer gesto de amparo.
Dobrei a esquina do vazio em estado de horror e aberração,
levando o cão dentro de mim ainda  mais assustado.

Patricia Porto

sexta-feira, 8 de março de 2013

Os Guardados e a Santíssima.

Amy Abshier-Reyes.


O PRIMEIRO GUARDADO


                 Aquela velhinha da rua três se chamava Dolores. Dolores vivia na janela a espreitar o mundo que passava cá fora, do lado que eu olhava pra ela.  Um dia nossos olhares mútuos foram interrompidos pela presença de uma barata imensa que passava entre nós: o lado dentro de Dolores e o meu cá fora. Eu Gritei! Mas Dolores não. Ficou lá de dentro me olhando... Perguntei então sem dúvida: _ Não grita, senhora? Não tem medo? Então a voz de dentro saiu, espanando rouca antes de se firmar:
               _Grito? Não, nunca. Falo baixo por acomodação e domicílio. Viajo raso, minha menina, bem rente ao  chão, bem rente pra não causar impactos ou estribilhos na realidade moldada pra mulher que eu fui. Mas sofro de silêncios sim, extremos e ruidosos, e dores de vazios, dores de guardados. Nunca pude ser de natureza extravagante. Então, como também não recebi a dose exata de beleza que me poupasse da ilusão do amor masculino, além da dose doce de tristezas e nuvens, compus cantigas para vidas passadas. Compus sutilezas mais que os ardis. Dizem que sou calma nervosa, que guardo segredos e segredo juramentos. Vou ampliando, amplificando assim os silêncios. Sonho? Sim. A transverso. Gritar não. Nunca.

O SEGUNDO GUARDADO

Guardei aquela chave dada por Dolores e passei anos sem passar por ali. Enfim havia crescido e mudado de cidade, indo embora do interior. Um dia, por um motivo de saúde qualquer, precisei voltar para casa de minha tia Fátima. Precisava descansar, havia cansaços em mim. E já foi quase no último desses poucos dias de convalescência que resolvi visitar a casa daquela senhorinha da infância.
Perguntava ao chão durante o caminho: para onde foram as flores e os dias de paz que deixei aqui? Passo em frente à janela de Dolores e então vejo: a casa esvazia-se, afazia-se, tranca baús, perde as chaves. Mas para onde ela foi? A janela trancada, o tempo descascando tudo. Sei que as memórias dormem. E que são mulheres, metáforas com odores de velhice, quase sempre transcritas em línguas mortas de alfazema. E todas as velhas, eu sei, somos nós. Todas. Partindo em migração.

O TERCEIRO GUARDADO

Sem sincronias para adiar, acabei seguindo um cortejo que descia pela ladeira, pois havia um cortejo durante a passagem, um funeral sem tristezas que já contornava a pequena praça rumo à capela da Santíssima. Resolvi seguir aquela dúzia de mulheres chorosas, até porque o funeral poderia ser bem o de uma senhorinha como Dolores. E até pensei por um momento, um relâmpago de ideia, que talvez mulheres espalhadas pelo mundo todo  estivessem saindo de suas casas ao mesmo tempo e que aquelas ali seguindo em ladainha, talvez fossem as semelhantes das que levavam para as ruas fotos e flores de amores velhos e novos, cantando canções,  pedindo justiça ou acalantos guardados em coro de vozes audíveis ou  inaudíveis. E diante daquela quase vertigem, peguei do meu xale português, presente de minha tia Fátima, e entrei - sem mais despedidas ou desejos no vasto espelho da memória necessária - para me fechar em copas, para aprender, quem sabe, me  encontrar com e sem Dolores.

Patrícia Porto

quinta-feira, 7 de março de 2013

Terminal.

Alex Gozblau.

Adoço meu corpo
me dando a outro
enquanto o choro
ofereço a Deus.
Beijo minha boca na tua
que não beija a minha
e no outro consolo meus lábios
da boca sem beijo.
Na cama traio sem pecar o amor
e aborreço a dor,
e adoeço o outro,
e choro de novo
com medo de Deus.

Patricia Porto




* Poema feito para uma aula de Literatura do meu amado professor e amigo Jorge de Sá em 1993.

sábado, 2 de março de 2013

A moça, a bandeira e o cão.


         
        Nem notara que passava diante de um prédio, onde uma cerimônia de hasteamento da bandeira se realizava. Para ela, não havia a calçada quando o horizonte do hino elevava-lhe o espírito. Afinal, crescera com o progresso a balançar-lhe o coração com o ar de seu próprio sangue. Calçadas para ela eram para serem estilhaçadas com pedras portuguesas, para que seus pés forrados com o melhor couro alemão fizessem dos danos de seus algozes um batuque refinado em plena orla de Copacabana.
        Enquanto no mastro a bandeira tremulava ao vento, seus cabelos soltos flutuavam luz entre fios manchados em colorido, sacudindo-lhe a imaginação. Então, entrelaçados a imaginação e os fios de algodão, o tecido leve da bandeira despejava ouro como folhas de outono numa bateia em forma de redemoinho. Girava-a ao ar, garimpando na luz uma ilusão repetitiva. Despejava-a em forma de filete na calçada quente, onde se desfazia entre pedras pretas e brancas em direção à Avenida Atlântida. O mar e o concreto e a velocidade a acolhiam como se ela fosse uma forma inserida nas pedras. Mas, satisfazer-se no recapeamento do asfalto, tornaria aquela Avenida um mero colar banhado de luzes na garganta de uma vitrine da Zona Sul.
             Na verdade, ela queria mesmo era a grandiosidade dos anos setenta, se revelando nas obras decadentes. Desejava que naquelas tolas estátuas o fomento de sua geração fizesse crescer a vida recuperada de sua jornada pela tortura esquecida dos maravilhosos anos setenta. Desejava que outras cores vivas vestissem sua bandeira imaginária, de forma que a cada batida de seu sapato de legítimo couro alemão fizesse surgir ali, ao seu lado, escombros do muro invisível que separava os anos de sua juventude dos anos de sua recente inquietude. Destroços de seu muro, pedras portuguesas, batidas absurdamente ouvidas em alto som, batidas de seus passos largos sobre o cimento da modernidade, seguindo-a, farejando-a como um pastor também estrangeiro. Poderia senti-lo roçar sua perna, roçar o seu pulso, encostando o focinho ao bracelete que carregava um farpado de espinhos, cravejado de arranha-céus. 

Patrícia Porto