quinta-feira, 28 de fevereiro de 2013

olhando azuis

Dave Cutler


Os olhos sempre enxergam mais que o limite.
São sempre audazes,
querem ver o que não é da própria conta.
Continhas de mar?  Só se for para olhos de infância.
Olhos dizem muito, tagarelam, uma tagarelice de abismo.
E perseguem horizontes
mesmo quando eles se tornam invencíveis ao tempo nu. 

Patricia Porto


amores e apegos.



Andreea Anghel

Com qual matéria fazemos o amor?
Amo-te no impartilhável e desconcertante.
Essa cafonice nossa de querer mais que o possível.
Atrasada dor fina que de tão ultrapassada
vai até ao absurdo das coisas indizíveis.
Meu amor,
sou extremamente falível,
"não sou iluminada".
Sou pessoa em viagens submarinas, esse desafino fora de moda.
E só posso te falar e sentir assim - como eterno enigma no teu corpo
e em minha vida, minha parte, metades...
Então me dispo, desnudo-me com os olhos da espera,
duas chamas.
Com qual matéria fazemos o desejo? A espera?
E o amor?

Patricia Porto

segunda-feira, 25 de fevereiro de 2013

A breve história de amor e oceano.

Daniela Kocianova by Manolo Campion for Flair Austria.

O oceano abriu-se...
Nele certa calma ria e um orgulho de fluidez.
As ondas me permitiam explorá-lo
com correntes em declive.
Os oceanos são sempre imensos
com suas velas banhadas de sal.

Temo as sensações de impenetrabilidade, temo a deriva,
pois quisesse mesmo o oceano, esconderia entre os brutos,
a força que engole a leveza e a queda.

O oceano não sabia do meu corpo em aguardo,
não sabia dos marinheiros
ou das mulheres brejeiras na beira da espera
ou da morta sereia dos desassossegos.

Pois se o oceano existia para além da existência
não saberia da minha febre humana.  
Ainda assim me aventurava de inundações,
alagando-me os inteiros, meu istmo 
- à revelia.

Universo de águas sem represas
espumavam, espumavam...
Havia espuma do úmido de mim,
por onde me perdia e prendia,
sempre abarcada ao desconhecido, salgando.
Eu que sempre gostei de brincar de não existir...

Porto Patrícia


domingo, 24 de fevereiro de 2013

sangria desatada

Zsuzsanna Mészáros


Quem dera a muda rosa falasse,
a rosa à flor e pele em casca.
E se na rua ao ser a exibida
quebrasse o esquizo de egos rotos.
E ao desenferrujar a fama gasta 
que diz ser melhor quem ganha 
do bicho preso no delicado: 
o ereto, o domador,
danasse a fúria.

Quem dera esses que se tomam semi-deuses
resgatassem suas intactas costelas,
libertando os nossos sentidos curvilíneos,
as nossas doses íntimas de anarquia
e a solidão feliz que tece a alma sem precisar murar-se.

Quem dera a rosa fosse tão livre
em vez de rosa desidratada. E o verso: solto.
Em versorragia. 

Quem dera a muda rosa falasse
pra eu também me libertar desses espinhos
que estão por aqui e ali me espinhando a língua,
coçando a última espécime frágil que só renasce do tempo ao tempo
pedra ou palavra...


Patrícia Porto



segunda-feira, 18 de fevereiro de 2013

Feito fruto e pão.

Acervo de família.


Ah, menina, por que corre?
O vento borboleta
nuvens carregadinhas de jabuticaba.
O teu balanço na árvore da vida é de giramundo.
Gotejando no telhado os buritis em sementinhas
caiem de maduros, batendo música.
Não corra tanto...
Não tenha tanta pressa de chegar à adultice.
Tem um ovo de sol nascendo
enquanto bichano se esconde entre as pernas de Dedé.
Vem devagar, passinho de tartaruga...
Olhos gigantes de infância, parede de tijolinhos,
uma corrida de bolo de laranja e água de tamarindo
pra onde a memória dorme bem aliviada,
se desmanchando toda na boca.  

Patricia Porto

sábado, 16 de fevereiro de 2013

A Mulher Hera.

Edouard  Boubat


Nasce em qualquer lugar,
espalha-se entre vãos, paredes... 
veias abertas, inapropriadamente épica. Eras... 
Eu tímica e descendente da alma velha do mundo.
Resistiu às tempestades,
ao calor em excesso, aos tempos sísmicos,
às intempéries do espaço.
Invade muros e casas, palácios de reis decapitadores.
invade até o dentro se não a podarem. E cria raízes.
A mulher Hera é tão milagre,
tão mistério, tão fases de si mesmo
que chega a ser mera,
mera atriz, mera sombra
carregada de flores e anjos na cabeça.

Patricia Porto

quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O silêncio de Electra?

Expansión, escultura de Paige Bradley.

Agora vou entrar no silêncio de Electra,
porque esse silêncio está
cheio de preces,
de segredos de família,
de telefonemas obtusos
e vozes que velam
o berro da placidez do lago.
Basta o silêncio para ouvirmos
a música que quisermos.
E talvez só queiramos ouvir o silêncio
e nele guardarmos o nosso som:
que é um pouco de choro
e um pouco de riso.
Talvez seja o som do sonho que não ousamos revelar
para não parecermos ingênuos.
A aparência é muito silenciosa...
O amor é quase silencioso.
A paixão?
A paixão não.
É filha de Lilith.
É o espelho de Vênus.
É vermelha,
Vermelho-vulcão,
Vermelho-sangue...
Pertence à outra natureza.
Violenta flor da língua,
a paixão é o grito do signo,
a última gota da sintaxe
contra o silêncio.
E no princípio era o verbo?

Patricia Porto



quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

De véspera.


Koh Ker tower tree, Cambodia. 
(Conto publicado no meu livro "Narrativas Memorialísticas..."
 e também na Geração Editorial: http://www.geracaobooks.com.br/colunistas/colunista.php?id=218)


                Eu já fui chamada de esquisita... E o meu esquisito também sempre foi para o dentro do umbigo das coisas. Embora eu sempre tenha sido – aparentemente – mais para o fora. Era a que vivia sonhando – ainda vivo, a que vivia escrevendo – meu Deus, sobre o quê? A que chorava à toa e à toa também ria do nada, a que matava aula pra fugir pro aeroporto, eu morava bem perto do aeroporto em São Luís. E ficava por lá, horas e horas perdidas a fio, vendo os aviões, as pessoas que chegavam e partiam com malas e notícias. Ficava imaginando como viviam, onde moravam, com quem. Reparava as expressões pra tentar adivinhar o que estavam sentindo: saudade por alguém que ficou, alegria por chegar, tristeza, solidão.
             Nessa época eu morava com três velhos, três irmãos: vovó, tia Marta e tio Inácio. Éramos os extremos dentro de uma casa em ruínas, cheia de esquisitices. Tia Marta passava o dia inteiro falando sobre a sua própria morte: como iria, quem a carregaria, quem choraria, como seriam as horas, as flores, o padre, as muriçocas, planejava, planejava e nunca estava doente. Não. Era viva, viva até demais, tão viva que só pensava na morte – danada, que nunca chegava, nunca acontecia até acontecer como acontece mesmo. Minha avó, sobre suas muletas, era só os silêncios e afetos pra mim, como que me compensando pelas faltas, perdas, dores – nossas, todas, da família. E suspirava... Era costume suspirar naquela casa. Os fatos suspiravam e vovó contava as histórias dos que já se tinham ido pelos anos a distanciar. E eu olhava para o umbigo das coisas, para o olho das perguntas: quando? Por quê? Como se explica o tempo desentendido a respingar a lama velha dos dias de chuva, quanta chuva, nossa senhora, credo cruz, ave maria! Era uma danação de chuva. Todos choviam naquela casa. Tio Inácio. Tio Inácio ria sem dentes, ficava o dia todo naquela lentidão de existir, como alguém que diz pra si: a vida vai diminuindo de tamanho, ficando no corpo menor, como música que termina no som diminuído. A gente decrescendo até partir. Deviríamos sumir, isso sim, espoeirar, espalhando cinzas poucas para serem varridas para os quintais, misturadas com comida de galinha, esterco, adubo de planta comum. Sem dar satisfação de deixada. Deixou-se pela manhã, ninguém viu, deixou-se na ventania que correu a plantação de mato qualquer! Tio Inácio era a poeira do tempo, aguardando não sei quem, acho Dom Sebastião, chegando pelo Porto de São Mateus. Tio Inácio era o próprio tempo deitado e assombrado na rede. O dia todo. A noite toda. Era gente? Era rede? Os dois, parte a parte, imbricado, deixado corpo diminuto.
              E eu?
            Eu amava os velhos, amava a morte, o silêncio e o tempo. Sabia ali que nunca mais seria parecida com o restante das outras meninas ou mulheres. Eu olhava para o dentro das coisas e me perdia, esquecia até de ser gente. Era meio coisa também. De mente?! Eu ficara velha antes de ser menina, mulher antes de moça, ia andar ao revés, de trás pra frente, ficando cada vez mais criança e louca. Esquisita e esquecida de ser velha, e no tempo da velhice iria espoeirar. Pensei: tomara então alguém lembrar de mim quando ninguém mais lembrar nome ou idade. Tomara que ao tomar minha mão, eu criança, desmemoriada de futuros, saiba reconhecer nele ou nela o amor que existiu em alguma vida passada ou restante.Até o fim, quando eu perder toda linguagem, voltar pro ventre de minha terra salgada de existência, liberta, deixada natureza, dando pé de raiz.

Patricia Porto

segunda-feira, 11 de fevereiro de 2013

Dedilhando partículas divinas.



Anka Zhuravleva 

quando um sonho morre,
uma pequena parte do mundo definha,
a que se chama coração.
O que a gente faz então com essa roda
de fortunas e infortúnios?
O que a gente faz pra parar de girar sem cair?
Por que a gente corre e não chega?
Por que a gente cresce e não aprende?
E por que a gente ama e sofre,
sofre e não merece?

E a gente morde, assopra,
morde de novo; é mordido.
A gente trabalha e não ganha.
Cultua o corpo
e quer ser aceito por toda gente.
E não descansa.
A gente bebe coca, come alface,
e dorme com gente estranha
só pra se divertir.
A gente cheira e fede,
e bebe pra pensar que é gente,
pra fazer amigo,
pra encher o copo de cólera
alívio e tempestade.
A gente vive, vive, vive...
E não se cansa de se cansar
e vive se cansando de viver
com vontade de viver sem se cansar.

E quando um sonho morre
a gente nem o prepara...
E quando anunciam:
“esse foi, descansou...”,
o que a gente faz?

A gente senta e chora.
A gente chora e só.

Mas sem jeito de parar de sonhar
a gente volta pra roda
e feito o menino da pipa
faz do riso um novo invento.

E sonha ao som de um trem,
um sino,
um latido: um espetáculo...

Patricia Porto

sábado, 9 de fevereiro de 2013

Errata.

Oriol Jolonch


Favor verificar a frase abaixo:
Avidaébreve.
Consertá-la se possível
Talvez alargando os espaços
Entre a vida e o breve
Ou invertendo a ordem
Se breve é tudo que vive.

Favor corrigir os erros da vida
Onde São Francisco não pôde chegar,
Onde o rancor e as nuvens de fantasmas
Assombram a porta de todo amor.

Favor consertar a tristeza e a hipocrisia,
Fixar os afetos no dentro mais íntimo
Pra que eles não se desesperem tanto.

Unir as partes despedaças do coração,
Curar a escuridão do medo de ficar só,
Colar os espelhos quebrados de azar,
Consertar a pouca aventura, limpar os excessos,
Abrir olhos cerrados de culpa,
Alimentar os passarinhos que morrem,
Molhar as plantas sem água,
Inventar uma Nova Poesia,
Costurar o botão que faltou
Brotar
Brotar
Brotar

Patricia Porto

terça-feira, 5 de fevereiro de 2013

Sobre Pétalas e Preces.




Antes do fim
cadeados nas frestas,
nas paredes da casa
e no coração: a nova linguagem da pedra.

Meu homem esqueceu que a liberdade
é um tempo depois ou antes do beijo
e do afago,
que a liberdade é antes do agir, uma vontade,
uma potência!
- está entre os nós, sobre pétalas e preces.

Não, não se apresse tanto a fechar
com tantas grades sua distinta solidão.
Os pássaros têm tempos maiores
para além da idiossincrasia.

Se cantos são mudos
e o ventou soprou panos
sem noticias...
Balançou varais e se foi.
Mas cá deixou em mim a bastante poesia.

Patrícia Porto


domingo, 3 de fevereiro de 2013

Relicários.


Marina Marcolin

Levo meus olhos acesos
- sentinelas da minha memória,
pois já não teço tapetes.
Sequer reparo os retratos –
o relógio e os pratos de porcelana.
Tenho onze anos...
Preciso correr pra sentir o vento:
minha avó tão bonita com seu traje fino,
a figura altiva de meu avô
numa foto de casamento.
A família reunida
e a oração de São Francisco –
todos gravados na parede principal –
no mesmo altar.


Dizem que as histórias não morrem.
São pequenas e delicadas agulhas
- vão juntando os fios da vida
e as sobras da saudade.
Depois ficam espetadas para o sempre
nas almofadinhas da caixa de costura e se- gre - dos...


Patrícia Porto



sexta-feira, 1 de fevereiro de 2013

árvore degenerativa



Edouard Boubat

Tenho lágrimas
nos olhos e por dentro entre eles,
eu tenho como a morte de tudo que já viveu
a sombra de tudo que foi se amofinando,
aniquilando,
quebrantos de agonias tão nossas,
do meu amor... dos nossos dias de futuros...
Não deixaremos frutos.

Patricia Porto