quinta-feira, 31 de janeiro de 2013

E não sabia.



Ansel Adams

O espelho não tem matriz.
Minha noite foi cigana
na fonte.

Por um triz.
Por um fio
eu fui feliz...

..............

Patricia Porto

quarta-feira, 30 de janeiro de 2013

porque seremos as mariposas nunca seremos anjos...



Sally Mann

Se a janela estivesse aberta
um anjo entraria?
Sempre tive medo de anjos,
impossíveis de alcançar,
de desejar...
Anjos só me lembram
coisas tristes como fantasmas de asas
varrendo os cantos da vida,
soprando vestes brancas
atrás do pó dos esquecimentos.

Minha tia Marta me ensinou a não gostar de anjos.
Sempre dizia que o anjo tinha vindo buscar
a finada fulana, o finado sicrano.
Ou que um anjo tinha feito a virgem engravidar.
E ainda que nós, crianças, éramos puros, anjos.
Ah, se tia Marta soubesse quanta malvadeza
que se fazia...
Se velho morria, era anjo,
Se novo morria, anjo.
E pendurava anjinhos de papel na parede
pra afastar os demônios que nos perseguiam de noite.

Um dia ela fez eu me vestir de anjo pra procissão,
eu lá querendo comer bolo da casa de Seu Bernardo,
asas penduradas como um Ícaro e vela na mão
queimando os dedos: "mãezinha eu quero te ver lá no céu..."

O céu era o bolo de Sebastiana.
Vi logo que pra anjo eu não tinha vocação.
Tia Marta chorando: anjo mais lindo nunca fiz,
se eu morresse agora, feliz ficava.

Não era a hora dela.
A boca espocando de bolo da velha Sebastiana.
A lama de chuva levando as asas de tia Marta.
Nem liguei.

Patricia Porto

segunda-feira, 28 de janeiro de 2013

A História da Veia...(o Maranhão e seus saberes em extinção)



Araquém Alcântara, Revista Trip


Eu me casei com uma veia
Pra livrar da fiarada
A veia disimbestada pariu dez
De uma ninhada
Passei mão num cacete
Dei uma polada e matei
Depois da veia morta
Ainda pariu dezesseis

Essa veia num era grande
Era uma veia meon
Dava vinte e cinco parmos
Da pá pra junta da mão

O dentinho dessa veia
Derradeiro do queixá
Dezesseis junta de boi
Num arrancava do lugar

A canela dessa veia
Três coisas se inventou
A canela deu uma barca,
Uma prancha e um vapor

A veia deu uma mijada
Na mata da Ribeira
Derrubou sessenta paus
E vinte e cinco parmeiras
Home, ainda disseram
Que não foi mijada inteira

A veia tava mijando às seis hora da manhã
Quando o menino gritou :_ Vovó quero passar!
“Espera meu netinho, que inda quero mijar"

Mijou o dia inteiro.
Quando feiz às seis da tarde
O menino tornou a gritar: -Vovó, quero passar!
“Passa meu netinho, que inda quero mijar"

O menino foi passando
Até dá água pra nadá.
Morreu no mijo da veia,
Coitadinho, ficou lá...


sexta-feira, 25 de janeiro de 2013

Intensamente.

© Igor Kraguljac 


Porque preciso mudar,
ser outro... mergulhar no outro...
Ser do outro um mundo avulso,
desertos à mão...

Para aceitar,
cruzar o peito e a estrada
com garras afiadas de combate,
e me combater,
porque sempre posso ser uma besta no fim de tudo,
do túnel entre faros e feras!

Talvez se deixar de cair atirando...
Talvez sepulte a velha pele gasta, curtida,
o tempo tolo, do curtume! 
Porque há o tempo dos tolos e o tempo que tornamos tolo!

Usar o instinto de proteção sobrevivendo.
Ser sobrevivendo sobrevivente.
Pegar o caminho, descaminho de ida sem voltas, 
o do rasgo do amor extremo,
o sem desvios fáceis,
o das horas quietas 
sem cabanas de salvação.

Ouvir o lobo aguçadamente, ouvir o
que vive dentro do novo, sentir seus pelos, nascendo junto,
correndo no chão de todas as formas de temporais...
O lobo que grita do espelho
em desesperos de tão lúcido afeto, quase um cão.

E ao correr, velho, contra a fuga,
rompendo antigos costumes, lembrando feiticiarias,
enterrar com as próprias patas
velhas cicatrizes da floresta - as do predador,  
as sem foco de direção.

Preciso atender o lobo,
esquecer a pluma da boa vertigem,  
e a rejeição que há no medo
de apanhar do meu senhor.

Acreditar que a coragem é um ciclo, 
é a transgressão da visão que se amplia
para a glória dos seres lobos, marginais!

Onde o transe é o encontro com as chagas
de todo corpo - sem custos de presa e saliva,
sem pesos de culpa e profecia,
remanso.

Encontrar o lobo...
Dizem que ele é o uivo da noite,
o suspiro da morte abraçada,
o intenso da terra, entre trevas, florestas e rituais,
ouvindo folhas cair das noites seculares!

Preciso Ser do lobo a face mais limpa,
e a mais sangrenta!
A mais próxima da fonte, a mais selvagem!
Ser o rio, os ossos lavados, o vale, os sentidos,
os dentes, o risco, o sopro – e por fim -

O nada! Ser nada e ainda assim Ser parte de tudo...


Patrícia Porto

domingo, 20 de janeiro de 2013

Teus beijos, meus assombros.


© THOMAS LONGO


Se fosse cada pétala
tirada aos gomos
do teu corpo de entregas
- anunciarias em ampulhetas
sem mais areia -
que teus beijos são fantasmas
que me assombram
docemente o por-vir. 

Patricia Porto


sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

David Taggart

Eu precisava comprar pilhas, mas havia muita pressa nas ruas... E o asfalto queimava a minha sola de pé.
Muita pressa nos olhos, e nenhuma lágrima indiscreta. Muita pressa no sangue, escaldando no
solo de asfalto, um sangue pardo... Corpos empilhados na horizontal e minhas pilhas do outro lado da rua
no meu consumo diário de energia. Muita pressa nos autos, nos baixos, nos sinais eletrizados,
muita pressa de sentir, muita pressa de matar a hora matinal... a hora marginal. Na margem do asfalto fervendo o solo para bailarinos loucos que vivem de lentidão como as frágeis margaridas, o incunábulo.  
Os viadutos com pressa, a vida chapada, o teto escuro com pressa... Pressa de dizer que o melhor é partir,
pressa de escrever nomes novos nos corpos e trocar os nomes e os corpos por outros corpos e nomes. Pressa de comer. Tudo so fast. Pressa de festa, festa de viver no instantâneo, no miojo da vida o calabouço, a cloaca, o colapso, o conluio, a cocaína, a trapaça, a cidadela desconstruída... A traça, o troço, a masturbação, o ego, o universo, o rádio, um rádio de pilha sem pilhas porque agora jazz é morto, jazz está estirado no asfalto queimando em ondas de ferver meus pés.

Patrícia Porto
    

quarta-feira, 16 de janeiro de 2013

As asas de Adão.


Dennis Duijnhouwer
           
                Ele vinha todas as noites e se deitava em minha cama. Era um homem forte, rude até, mas  andava tão perdido naquela cidade grande... E olhava pra mim quase que desaprovando meus caminhos. Vai pra onde, mulher? Ou ainda: Por que não sai um pouco?
               Passaram-se tantos anos até que ele se acostumasse a nossa presença, mas também tantas eram as ausências que ele fazia de mim, que eu me sentia parte concreta do mobiliado, esquecida entre o espaço do relógio e a cortina de tecido grosso. O tempo era amigo do relógio, imprimia nele sua potente velocidade. De fato foram tantos giros dos ponteiros e  tanta a distância que se abriu sob nossos pés que até a minha velha roupa de solidão encurtou. Depois logo veio o tempo em que ele me solicitava viagens, viagens longas, cada vez mais demoradas. Assim me queria no tempo da saudade extinta ou se bem quisesse ou não conforme seu desejo morno. Quis tentar ajudar, pois ele vinha perdendo a voz dia a dia. Fazia então uns sons diferentes, afiados. Até que num certo domingo ele acordou aprendendo a falar uma  língua estrangeira, mas uma língua tão difícil que eu não conseguia escutar com meus recentes ouvidos humanos. Não era língua de gente ou sábio. Parecia mais um assobio bem surdo...
            Tempos depois ele passou a se debater por demais durante a noite, sentia uma falta imensa de ar... Então subia até o telhado para olhar as outras casas por cima, às vezes entrando em algumas sem ser  percebido. Mas pela manhã voltava a dormir de gesto inexplicável, mas gentil, ao meu lado.
              Um dia de folhas secas decidi: pra que ter má sorte? Abri a porta para que ele saísse, meu homem de tão pouca vontade. Mas ele apenas acocorou-se no sofá numa posição de bicho. Pra que isso? Perguntei. Que te deu, homem?!
            Então vi – de repente – duas asas abertas sobre seus ombros, duas asas enormes. Aproximei minhas mãos, cuidadosamente, sobre seu novo dorso, tocando as penugens finas com tato. Eram avisos de partida, dores de certeza. Fechei a porta do quarto. Abri as janelas todas pro vento do norte. Disse: Vá embora! Mas demore não.
                Deitei na cama com ele, talvez pela última vez. E só então pude também lhe revelar:
                Olha, Adão, eu também sempre tive asas.

Patricia Porto

terça-feira, 15 de janeiro de 2013

Somos do mesmo tamanho.

                      Como boa leonina que sou gosto de zelar pelo território, por isso minha casa, essa transitória, por pequena que seja, modesta que seja, entulhada que seja - ou de livros  ou de lembranças de todos os lugares por onde andei a fazer amigos, é o meu reino. E só um felino muito indistinto sabe o valor que isso tem na hierarquia dos desejos. Por isso cuido do meu canto, gotejo nas plantas minha sorte, arrumo gavetas de esquecimentos, brinco de abrir e fechar janelas e solto meu pensamento, flutuante, misturado ao odor de café, cheiro de minha natureza sempre mais para o dentro que para fora. Não reclamo, embora reclamem bastante de mim. Gosto da minha natureza reservada, do meu canto de leitura e meditação, de construções enigmáticas de poemas que ainda vão surgir daqui a dias, meses ou que simplesmente vão desaparecer esfregando e soltando letras sem sentido algum que dê sentido a eles. Gosto da solidão moderada, gosto de estar comigo e conversar comigo mesma. Isso talvez me torne uma pessoa muito estranha. Difícil não explicar a liberdade que mora na minha necessidade de solidão. Gosto de escolher tecidos e pendurar roupas, mas não me sinto oprimida por isso. Quando ando borboletando pela minha sala, pouso na estante e sempre arranco sorrisos dos livros: pedaços, corpos inteiros, novos romances pra ler... Espero que ninguém, nenhuma fada madrinha tente algum dia me salvar ou me anular da minha tão íntima rotina. Por isso meus companheiros são meus filhos e um cachorro. O meu cachorro até senta para tomar café comigo, olha a lua da varanda e me ajuda a criar loucas elucubrações com latidos e afagos arabescos. Nesse instante somos os dois a própria falta de eternidade, aquele instante breve de ser nada. Adultos humanos são os mais difíceis de lidar, querem sempre explicar ou exigem explicação para tudo, para a mais mísera das bobagens. Não se conformam com "não sei", "esqueci" e "não me interessa".  Minta, meu filho, é o que costumo dizer. Humanos adultos preferem mentirosos a autênticos, porque abandonam suas infâncias na primeira esquina de arrogância ou soberba. 
               Então não me explico e falo cada vez menos. Tem um vizinho que sempre me pergunta: por que seu cachorro late tão pouco? Eu minto: "ele é tímido".


Patrícia Porto
                  

segunda-feira, 14 de janeiro de 2013

Amar te sem ruídos.



Edouard  Boubat

Meu amor,
só conheço o amor pelas encostas,
e só aprendi do amor o verso, o pêndulo, o sótão...
Mas minhas risadas mais sonoras foram tuas, sem estreitos...
Minha voz te sussurrou na beira da Lagoa nomes secretos de mar
e somente tua lembrança, algum dia, poderá dizer que ouviu sob o pano:
o meu velho sentimento rugir.
E eu bordarei minhas melhores palavras até que minha velhice
se alinhe em teus braços invisíveis aos tricôs comprados, aos tecidos de brechó.
Por onde mora, porventura, o cessar de espantos ao teu lado?
Pois serei tua amiga nas coisas velhas: livros, vinho, música terrena...
E talvez, meus vazios cheios de mimesma
farão do meu corpo tua rede de velar marinheiro.
Tua existência me anima na vontade afetiva de ânima.
Eu pressinto bonanças, novos ajustes de passos aos dançarinos.
Do binóculo vejo um abraço depois dos incertos dias de nossas distâncias,
um sorriso depois de tanto tempo, margens, desassossegos,
um beijo sóbrio...
Andei tantas voltas e retornos a tua procura.
Atravessei a vida duas vezes, dei tantos soluços aos retratos!
E tu, por onde andaste? Foste para tuas regiões próprias?
De certo, que posso ouvir tua voz ao dentro, pernoitando.
É doce depois de tanta solidão dos barcos,
depois dos tapetes que só desteci confusa entre fantasmas
com falta honesta de habilidades.
Mas hoje quando eu abri meus olhos pela manhã chuvosa,
sabia que estarias aqui, dentro, no meu perto.
Olhei para o tempo e entendi o que é sorrir de aguardo.
Observo-te e danço melindrada para chuva:
ah, quer me deixar molhar.

Patricia Porto

quinta-feira, 10 de janeiro de 2013

O Arco por onde se dignificam os Bobos.


Diego Rivera.


O Arco por onde se dignificam os Bobos.

Não sei se atravesso.
Não saberemos – tu e eu,
minha alma velha.
Ninguém veio para contar,
ninguém narrou a vossa notícia.
Ficamos – tu e eu,
na espera a reescrever
flácidas memórias no travesseiro,
como truques de antecipações
pelas nossas retinas mutiladas.
Um herói soluça contra o enigma.
Destino?
Não. Dissidência.
Ao vencedor o ouro e as batatas.
Ao vencedor o direito de hastear bandeiras
e palavras.
Ao herói o fruto de sua honrada alienação.
Ao vencedor o sucesso pendular.
Ao herói o verso ritmado,
a história em punho.

Não fui herói nem vencedor.
Fui pessoa de pouca aventura,
poucos feitos de espetáculo.
Por isso trago por candura o temporário,
o imperfeito e o que se demora.
Minha palavra é água e está a amolecer meu bruto
na têmpora marcada por antolhos.
Não distingo os homens pela bravura
ou bravata,
mas pelos elementos de natureza
que eles carregam de mão.

Patricia Porto


quarta-feira, 9 de janeiro de 2013

Maria, onde você andou?

Ana Madureira

O riacho me cantou
_Maria, onde você andou?
Maria, o que você encontrou?
O riacho me encantou
_Foi sereia ou foi vampiro?
Foi vampiro ou foi sereia?
Maria, onde você andou?
O riacho me lavou
_Foi de dia ou foi de noite?
Foi de noite ou foi de dia?
Maria, onde você andou?
O riacho me levou
_Era virgem ou era pecado?
Era pecado ou ilusão?
Maria, onde você andou?
O riacho me cantou
O riacho me lavou
O riacho me encantou
Onde tudo terminou
Era sereia e vampiro
Era de noite e de dia
Era pecado e ilusão
Era virgem e pouco siso
Era viagem e era luz
Era riso e era tristonho
Era fumo e era mata
Era tudinho e era nada
O riacho me cantou
O riacho me encantou

Patricia Porto



segunda-feira, 7 de janeiro de 2013

Para todos os seus dias de glória.

Gerard Dubois


Se levantar a cabeça rápido demais
quem poderá cair?
Se esgotar suas escolhas, que porta estreita,
que parte estranha vai deixar emergir?

Se ouvir tudo o que dizem a seu respeito,
onde vai se esconder do caminho
quando ele resolver fazer dos seus pés pegadas?
E suas coleções, nome e sobrenome, a terra com gosto de infância...
Em que esconderijo secreto guardará seus brinquedos?

Se a noite apagar antes de um pálido amanhecer,
onde descansará o seu corpo com seus espinhos afiados
- sempre prontos a ferir?
Se a nota for mais aguda e o ritmo descompassar
quem chamará para sua cantiga de ninar espírito insano?

Onde passará os últimos dias de sua jornada pelo mundo?
Quem escolherá para estender a mão quando seus anéis caírem dos dedos?
A quem pedirá conselhos quando for o último deles? 
Quando as fotografias não fizerem mais nenhuma companhia,
quantos rostos fincaram notícias na sua memória?

Se abrir a janela, quem enxugará as lágrimas do seu rosto?
Se fechar, quem pegará o cobertor para o longo inverno?
Ao abrir seu peito, que pássaro surgirá dele?
Ao se despedir da juventude, quem vestirá seu velho jeans?

Onde foi morar aquela moça? Aquele rapaz?
As ruas demolidas, o asfalto quente derretendo toda vista do caos,
quem lhe alcançará na corrida? Por que correu tanto se podia caminhar?

Se torcer muito o nó, ele enforca a corda. Se afrouxar os seus pés, quem sabe..
Desligar o medo do outro, antecipar ao vento o rosto...
Sentir seus sentidos, dissolver a couraça da exagerada arrogância,
destruir suas façanhas, aprender uma nova língua...

Se encontrar mais estranhos dentro que fora,
e abandonar aquela velha teoria sobre os homens,
mergulhar no traçado da alma,
que desenho, lápis, risco
escolherá para inventar sua história?

Se ao passar sob o arco
nada, nada mais levar nos bolsos...
E se passará sozinho,
abrindo a passagem com a cabeça,
o que perderá desse momento?

Patricia Porto


domingo, 6 de janeiro de 2013

Sonata para coração desesperado.

 © Sebastian Liste.
      
    Tem dias que me desespero ainda, mas meu desespero mudou de ordem e aviso; então me desespero - e muito - quando vejo meninos e meninas trabalhando ainda tão cedo quando deveriam estar brincando, estudando, tendo um lar decente. Lar decente eu achava que era uma metáfora inventada pela minha avó. Ela dizia que o bom era ser decente. Comida decente, vida decente, casa decente, amordecente, amardecente... Decente que é “digno, honesto, honrado”.  Decente-metáfora era ainda mais amplo de significados, porque era o justo, o suficiente, o ético, o confiável. Lardecente. Largo na dignidade de existir. Desespero era outra coisa, coisa feia - dizia minha avó, coisa dos infernos, casa amarela ovo, dor de dente, aguardente... Des-espero para mim era o contrário do eu-espero, era o lado fingido da esperança. Porque eu tinha pressa e não queria mais esperar, desesperava, desespero. Desespero ver crianças sem escola decente, sem futuro decente. Tenho pressa, minha esperança tem pressa e me consome. Quem sabe você aí não me empresta uma sonata hoje? Preciso tanto apaziguar, pousar na sombra de uma árvore vizinha da casa da minha recente infância, a casa do teu sorriso, o meu amor... Pausar no sopro dessa história terrena e injusta a minha inquietude ferrenha sem juízo, o meu desesperado sentir com o coração, pensar com o coração na mão...Deixa minha desesperança pousar na palma do teu olhar? Então, não feche os olhos... Os meus ainda estão abertos: sem controle, sem fugas nem subterfúgios. Desesperando retinas. 

Patricia Porto

quinta-feira, 3 de janeiro de 2013

Femina e o corpo de baile.


© René Groebli


ressaca nos engoliu as flores

amor que é tudo que gera medo e sonho,
amor e sobras de beleza nas calçadas
juntando nossas sobras do jantar.

meus e-mails no lixo do mundo
apagados entre tantos...
a noite busca sem sentido
a lógica dos encarnados.

a fome de teus beijos é insone.
a noite estrelada sem tua língua,
um mergulho sem rede.

minhas vestes se queimam
sozinhas, sem atravessar oceanos,
sem terra que seja firme.

teu corpo é o espaço da manhã anunciada
e nós, afogadas, caberemos nele...
Gozemos todas!


Patricia Porto