terça-feira, 31 de dezembro de 2013

Pequenos Rituais

Shaun Tan


pequenas gotas, gotículas
pequenas aparências
pequeno o verniz
lamento pequeno
pequenos hábitos, gestos
pequeno dia, pequena a agonia
que termina 
em pequeno ponteiro no Grande:
tudo se inicia?

Patrícia Porto

Feliz Ano Novo!



Com as mãos...
As mãos que tiraram você do ventre pra vida;
as que lavaram seu corpo quando suas mãos ainda eram muito pequenas ou quando em tarde idade se tornaram frágeis demais;
a que abre uma porta quando as suas estão pesadas ou cansadas ou fecha uma janela quando pressente um  inverno longo a chegar.
A que lavou seus cabelos.
A que segura a sua para atravessar a estrada mesmo quando não há perigo algum.
A da benzedeira de quem tiver tido a beleza de ter tido uma na vida. Eu tive.
Galhos de arruda, água doce benzida de amor, sorte e cuidado.
E as mãos do trabalho de alguém que gentilmente resolveu fazer um belíssimo arranjo de flores mesmo quando você insistia dizer que não era para presente. “É pra mim.” Então é presente!”
A que fez aquele chá ou café cheiroso e levou pra lhe ofertar.
A de um estranho que segurou a sua mão uma única vez: diante de um tombo inevitável ou para que você entrasse num ônibus...
A que nos amparou quando outras se esquivaram.
E a que nos lançou o mais triste adeus.
Aquela que ficou para rezar e abençoar a nossa história. A da porta da saudade.

Beijos...
O beijo de boa noite que você não lembra porque estava dormindo;
o que lançaram no ar para que você o devolvesse sorrindo.
O que sua avó lhe deu na testa diante da despedida inevitável.
O primeiro, aquele torto, tonto, mesmo treinando dias com a laranja.
O beijo do filho, da filha, do neto, da neta, das crias todas. O beijo molhado do Rex. E o beijo de nariz de esquimó. 
O beijo suave do último amor, único talvez, breve talvez, longo talvez. O melhor beijo do mundo até que venha o depois. Não se sabe mais.
O beijo que nos prepara pro mundo, pra vida liberta de freios seguros.

Pés...
Pés com meias que se encostam aos seus de levinho, de brincadeira... pé de primo, de prima... que riem...
os que acompanham o crescimento dos seus, andando juntos.
Pés que se enroscam aos seus quando faz frio por fora ou por dentro. Lembrando que o frio pode ser maior por dentro.
os da Avenida, os que dançam, os que pulam, os que se unem para um jogo. Pés que se divertem e depois descasam no pé da grama.
Meias para os pés que se juntam pra dormir na solidão compartilhada.

Olhos...
O olhar de quem vislumbrou antes de todos a sua chegada ao mundo quando você ainda era uma ervilha com coração pulsante.
Os que viram os seus com lágrimas de todos os tipos, tamanhos e qualidades.
Os de quem se espantou com o seu crescimento, com o seu amadurecimento e com o seu envelhecimento.
Os que sorriem quando você chega e que se entristecem sempre um pouco quando você parte, some, foge, finge que não vê, olha pro outro lado, deixa de olhar ou se cega de propósito.
Os que se orgulham das suas conquistas, que marejam com palavras bonitas, que adormecem tranquilos quando são informados que você está bem.
Os  que atravessarão os seus e descobrirão a profundidade da sua alma e a beleza da sua humanidade.
Os sensíveis e permissivos da amizade.

O toque...
sobre o toque, os daqui do teclado que nos faz chegar tão longe e tão perto.
O toque no ombro pra dizer que “vai melhorar”, “vai com calma”, “é isso aí”...
Tocar é bom. Estão excluídos os desagradáveis, é claro.
Quase indescritível em palavras o toque na pele, o suave, na chuva, é flor.
Melhor assim.

A prece...
A prece começa assim:
Eu peço e desejo para você, que me ofertou carinhos assim, quase imperceptíveis nessa corrida cotidiana, que a sua trajetória para um novo ano seja a dos horizontes: plena de belas manhãs, farta de coragem e com muito mais sonhos, mais doçura e mais percepção.

Há braços também...
Abraços,

Patrícia Porto

quarta-feira, 25 de dezembro de 2013

amor de mais mistérios...

Martin Stranka


o Misterioso do amar que leva esse poema é para intentos.
As náuseas da mulher que chora o intenso desse parto,
eu as partilho, porque partilho do tempo a necessidade de escorrer!
Dê-me ampulhetas, mãos pra segurar areia...
Entre meus dedos finos, meu caminho de estrelas diz:
Eu te quero o muito desse verso...
Em dias de saudades
eu sonho é contigo uma nova linguagem.
Que sonho é esse, meu amigo?
Divide o pão e o sol comigo.
O misterioso da paixão que queira
me sopra o ouvido... Um sopro bom do teu sensível.
Desfaz esse teu medo de abismo.
Tem tanta brisa e tanto espaço aqui nesse quarto de hora,
descansa no meu tempo escorrido o Amor e seus mistérios tantos. 

Patrícia Porto

Or fel

Or
Fel


A verdade se vem é nua
Estou
No ar
Noir
Se a verdade
existe
É uma e meia
Crua, fel iz
In

Dói
Sóis
Ardendo
Queimando a pele
A derme
Adorna o dia
Morrendo
a Oeste
West
Du elo
Dor elo
Novelho
Nó velho
Velhas
as Escrituras
Duras sempre as palavras
Nuas, sem Entrega ou beijo: atesta 
a mão de ferro de um tabelião.

Patrícia
Porto
& Sally Mann

domingo, 22 de dezembro de 2013

Toda maçã será comida.

Vadim Stein



A mulher que sou é um bicho tolo,
ama sem vícios,
sem recompensas,
sem garantias
ou avisos prévios.
A mulher, que eu sou - é um bicho tonto,
é um bicho doido.
Perdoai.


Patrícia Porto

quinta-feira, 19 de dezembro de 2013

Pela manhã.

Alain-Laboile. Arte en familia.


me agasalhei
com o que havia restado
depois da tempestade.

minhas partes lesadas
se encheram de vida.

Ouvi alguém chamar meu nome
com voz de criança.

Não sei quem era,
nunca saberei ao certo quem fui,
quem poderia ter sido
aquela menina
que agora,
pela manhã,
me abraça
o quem sou.

Patrícia Porto

sexta-feira, 13 de dezembro de 2013

Um Prefácio


Tudo que escrevo é autobiográfico e é autorretrato de uma artista nua,
Nua em carne, pele,  sexo, origem, latência...
A escrita são os meus ossos do ofício, os meus pulmões para os berros,
Minha linguagem secreta com a Arte, meus artifícios e queixumes,
Até porque sempre busco desabitar as coisas que me habitam,
As tralhas da minha casa interna.  Trago isso primeiro do inconsciente,
E trato de entornar tudo até poder tomar o que foi escrito como as consciências do dito,
Mas nas consciências já sou a outra, a que corrige, corta, aponta a coesão e faz coação com requintes de carrasca... Já não gosto tanto desta e prefiro sempre a primeira, a que se joga no abismo por desequilíbrio, a bamba da corda ou a tonta.  
Penso que não há qualquer segurança para quem escreve.  A escrita é muito mais ruidosa e arriscada que os temas da vaidade.  Eu, particularmente, gosto do defeituoso e quanto mais defeituoso for o trajeto melhor será o meu encontro com o que eu leio do escrito.  O sublime está neste fraturar do tecido, no rude dos pontos, assim como o seu grotesco pode ser o belo do versar. Um grito é um defeito? Um choro, um defeito? As fragilidades do humano? As fraquezas são defeitos. E que sejam, porque nos tornam menos fantasmas do que já foi vivido.  As memórias do imperfeito dão convicção ao movimento.
Eu habito essa casa-escrita, mas sempre de malas prontas para partir para outra habitação, e assim vou construindo novas arquiteturas e me desvencilhando dos casulos, sempre tão confortáveis. Não me ofereço para ser o fantasma dos meus próprios poemas; dos quais me despeço com certa parcimônia, com uma boa dose de constrangimento, a necessária do Advir. A mobilidade é que sempre me chama para o salto seguinte e se a reminiscência me provoca, eu a levo junto para um novo experimento de salto.
Não me preocupo em ser uma pessoa que escreve com reconhecimento em círculos literários, porque os círculos que me fascinam são outros: bacias, mandalas, todas as formas redondas e a circularidade das palavras, essa tarefa de ser mãe das próprias ideias. E parir indiscriminadamente sem permitir que me rotulem em algum ponto periférico-circular entre os que muito falam.
A escrita, se me defino nela, é Maior que o cálculo de viver. Os planos? Os projetos? A escrita é o antes do plano ou do projeto, porque antecede  o pronto da tipografia com seus consertos finais, é antes o porém, o entre, mais conectiva que substantiva a princípio. É o nada que nos liga, como o cordão que nos liga ao primeiro mundo. Depois vem o outro novo mundo e a certidão de nascimento. O substantivo. O verbo. O sujeito. O verbo.
Escrevo para que os outros leiam. Se a Vida nos bastasse, lembrando Fernando Pessoa, por que faríamos Arte? Fazemos Arte porque somos crianças ávidas pelo Amor. E nossa expressão requer a mesma paciência que as crianças exigem para as suas garatujas.  Tenham paciência com a leitura de toda escrita. Todas merecem respeito e afago. Aos que trabalham com margem de lucro, sim, a esses podem pedir explicações.
Escrevo enfim para não morrer de inanição ou não enlouquecer o outro que me vê ainda alguma qualidade. Não herdei nada, talvez nem genes; mas deixarei esses escritos como um legado de alguém que amou fazer parte desse mundo através da escrita. 

Patrícia Porto

quinta-feira, 12 de dezembro de 2013

Bicho do Mato

Patricia Porto

Vó me chama, eu ouço...
Quero voltar pra esse dentro,
quero voltar pro teu mundo,
quero meu, teu colo sereno.
O mundo é tão feio daqui, é o demo!,
o mundo da cidade grande é grande no apedreja.
Eu com essa cara de fraca, com esse jeito de chute,
com essa roupa de chita, esses pés de chão sem sossego,
minha alma é tão a nordeste de tudo.
Eu que só fiz chorar desde que me vi sentada nessa fabricação de gente,
já inundei dois sertões, dois rios, dois lagos e um caminho.
E até aprendi essa língua, encolhi  meu sotaque,
vesti fantasia de minha mais alta miséria!
Mas não sou ninguém desses,  deles sou o só do invisível,
o pó da mesa,  o pó do miolo que cai, o que se varre.
Sem luz nem vela,  agarrei-me ao pé de minha santa,
pedi tanto a São Benedito, fiz tanta prece,
tanta promessa de juntar meu pé de meia.
Mas a cidade grande te sacode até moer,
enfraquece os ossos, te bate na cara e violenta: “Cai, peste!”
É um sem saída, é um sei, não sei, não vejo por onde se abre mais a porta, portinhola,
alçapões, e os desvios.
Parece até que perdi a hora de voltar, minha mãe.
Já nem sei mais se de onde sou sei onde fico. 
Sou Bicho do Mato. Do Mato! O mato que me come e dorme.
Eu assobio de medo, mas vocifero tinhosa, esse brocado é de destino.

Patrícia Porto

terça-feira, 10 de dezembro de 2013

A cidade do sol.



(Para Niterói)

Quero lhe falar hoje,
_ Veste-me. Sim, veste-me...
Estou aqui neste estado de crer e ver.
Veste-me então de cravos e borboletas amarelas,
cobre o meu corpo de faltas em excesso...

Por isso preciso ouvir
linguagens que antes nunca me foi dita.
Por isso, rompi silêncios e desertos humanos
para estar nesta cidade onde todos encontram todos
e apagam luzes
sem soturnos.

Veste em mim a fina seda,
o frio metal de existência
e o vasto da alma coletiva.
Podes me cobrir?

Pois sim. Quero lhe falar de hoje
para amanhecer em mim a plena,
vasta, crédula,
cheia de sol
para nesses tempos
seguir a conversar contigo
a vida adentro
falando sobre a passagem...
Só nesse Porto azul assim, algo íntimo entre nós.

Patrícia Porto

quinta-feira, 5 de dezembro de 2013

Pra ontem!


           
           Mal atravesso a rua e vejo na esquina uma mãe falando aos berros com uma criança, um menino de cinco anos talvez. ”Disse pra você que tinha que fazer o dever de casa, não disse! Agora sua professora fala pra você que era pra ontem?!”  O que poderia existir de estranho numa mãe dando bronca em seu filho por não fazer o dever de casa? A meu ver, poderíamos começar questionando o papel do “dever de casa” para uma criança tão pequena.  Por isso vou pedir que rebobinem a fita. Claro, não temos mais fitas pra rebobinar. E a pergunta então coça: por que tanta pressa? Por que no final de período letivo encontramos uma criança pequena apavorada, uma mãe estressada e uma professora... Bem, a professora é “pra ontem”! Como a nossa educação brasileira que vem sendo fomentada ou para ontem ou para um amanhã que nunca chega de fato. Penso que o  pobre do futuro deva estar até corcunda de tanto peso que jogam pra ele.  
          Não consigo entender e muito menos aceitar esse tipo de método  que inclui e impõe responsabilidades extremas às crianças, e para crianças ainda tão pequenas.  Por que tão cedo? Ah, sim, é o “pra ontem”! Se ao cinco está assim, aos dez certamente estará tomando ansiolíticos com o consentimento e aplauso de toda gente. Aos treze será diagnosticado como bipolar por um sujeito que teoriza sobre o assunto, tomará antidepressivos, consumirá todos os outros tipos de drogas até chegar aos dezoito quando decidirá participar de um reality show de reabilitados para enfim se reintegrar à sociedade.  Tudo isso assim, num estalo de dedos: pra ontem!
               Vivemos no mundo das megacorporações, dos executivos de ponta, do empreendedorismo, do mercado competitivo e agressivo, do CEO’s. Disso sabemos. Mas pergunto de novo: quem ocupará esses lugares na grande cadeia alimentar da monstrópolis? Os nossos filhos e netos? Ou os meninos que estudaram desde a pré-escola nas escolas bilíngues, falam mandarim, fizeram MBA nas melhores universidades do ranking mundial?  Que ilusão é essa sorrateira, perversa, que faz pais zelosos jogarem seus filhos tão cedo e tão logo ao refugo dos seres que rastejam por sucesso? Não entendo e não aceito.
           Vejo meninos e meninas com dez, onze anos com agendas abarrotadas de afazeres. Estão deixando de viver suas infâncias e mal sabem o que é brincar pra valer.  Os pais exigentes pressionam seus filhos para os resultados, para a competição – quase sempre desigual.  Colocam na cabeça das crianças que elas precisam se tornar “sociáveis, vencedoras, pessoas bem sucedidas”.  O fracasso é a desordem do século XXI. Ser tímido já em si ser fracassado. Ser mediano nas notas significa um fracasso. Ser diferente é um caos completo.  Queremos uma juventude alta, atlética, bonita e bem sucedida.  E tudo o que não couber nesse pacote deverá ser descartado.  O padrão estético é uma das exigências dessa nova mentalidade.  É a ontogênese de plástico.  Os corpos devem ser esculpidos, feitos em blocos de produção de massinhas nas academias que se proliferam numa proporção diametralmente oposta ao número de bibliotecas, livrarias e espaços culturais. Uma monstrópolis mesmo, uma multidão sem cabeça.
              E aí chegamos a um paradoxo inevitável: como a multidão sem cabeça conseguirá gerar maior equilíbrio num mundo cada vez mais desequilibrado? E desequilibrado emocionalmente, apesar do abuso dos psicotrópicos. Em países mais desenvolvidos o número de suicídios cresce de forma alarmante entre os jovens.  A depressão será a grande doença vilã do fim de século. Mas será que paramos para imaginar como será a velhice dos centenários depressivos do século XXI? O homem viverá mais. Que homem? Pra quê? Como a ciência que aumenta anos de vida poderá sanar a ansiedade, o mal estar contemporâneo, o aumento da psicopatia, das insanidades cometidas por desvios emocionais mal resolvidos?
         Para pensar o ser humano na sua inteireza, holisticamente,  não poderemos ao mesmo tempo projetar essas cobaias de futuros promissores, de vencedores em tudo.  Não é apenas contraditório, é doente. É um sinal de doença dessa sociedade, de doença também de uma classe média achatada entre ser e ter, conseguir e não conseguir...  E ambicionar ser o melhor sem o meio termo, sem a média, não é em si uma garantia de topo.  Nem para quem está no topo da cadeia há garantia de topo.  Menos ainda para a classe média. Então... Por que tanta pressa? Por que formar para deformar?
         Outro dia vi uma cena que me chamou atenção. Uma mesa repleta de adolescentes numa lanchonete de shopping com seus smartphones. Ninguém conversava com ninguém, mas todos falavam coisas aleatórias, monossilábicas, de quando em quando, sem desgrudar os olhos de seus brinquedinhos. Disse isso, porque essa é uma cena que não chama mais a atenção de ninguém, ela se tornou lugar  tão comum que chega a ser boring. Não que os que os adultos também não façam a mesma coisa. Mas a questão que urge é que, bem sucedidos ou não, esses adolescentes serão os adultos da minha velhice.  Vai me dizer que você não se preocupa com a sua velhice? Eu me pré-ocupo com os adolescentes e me preocupo comigo, com o futuro que deles é meu, é nosso.
            Não sei aonde e como chegará essa nova modalidade de ser humano.  E entendo que saberemos dele cada vez menos ao pensar que sabemos cada vez mais. Quanto mais o dominarmos mais ele se esquivará para dentro de seu abismo particular, quanto mais o doutrinarmos para o sucesso mais ele se sentirá rejeitado, mal amado, mal integrado... Claro, estamos fazendo tudo que rege o método dos apressadinhos, menos o que rege a nossa intuição: amá-los, ficar mais com eles e ouvi-los. É porque amar não vem em bula, não é mesmo? Não há receita. E, por incrível que pareça, ainda não inventaram um método mais bem sucedido de chegar à felicidade.  
           A melhor pedagogia passa por aí e não me interessa conhecer os números, as estatísticas dos que se julgam donos da expertise pedagógica da vez.  Os números podem sempre ser torturados. Mas as crianças deveriam ser poupadas disso. Deveriam lhes devolver suas infâncias roubadas com horas e mais horas livres para não fazerem absolutamente nada. Porque o nada  é o gênesis, é onde a ideia germina, a ciência acontece, a poesia se mostra, a história se cria. O nada é muito.
              E “pra ontem”, professora, só o passado sem volta. E a vontade do hoje.



Patrícia Porto

Descanso

Henri-Cartier-Bresson


Não tenho mais tempo
para brincar de esconde e esconde.
Minhas pernas pedem cadeira
e desejo de carinho com pés no balanço.
Amor de nó e remanso. 
Quem não for ficar já se foi.
Uma lua azul com essa dama da noite...
Nem sinto passar... Só jazz.

Ah, e faz um tempo incrível lá fora!

Patrícia Porto

quarta-feira, 4 de dezembro de 2013

Coisas

©Alejandro Arce ©Laura Trovò Carteleria y Fotos La suerte. 


Coisas
eu gosto das coisas assim como Manoel,
gosto de palavras e larvas,  
tenho dons de exatidão reversa,
me apaixono por pessoas e bichos, os de fora e dentro da casca,
mas as coisas que me fazem feliz são mínimas:
poemas, luzes de Natal, livros, santos,  amuletos,  pedrinhas coloridas,
sacolas de feira...
Que ideia é essa de mandar na sorte alheia?
Esses verbos imperativos da língua mãe que metem medo. 
Deixa o outro quieto no seu canto curando suas coisas, curtindo o tecido da linguagem,
deixa que ele escolha o tempo de se desvencilhar das coisas.
Deixa a inutilidade das coisas se formigarem até desmerecer saliva.
E quem quiser que vá consultar seu próprio umbigo na terra dos "indivíduos",
eu não monossílabo, eu me divido é com as coisas em muitas partes.

Patrícia Porto


A metacrônica.



Fui convidada, insistentemente, a ler uma crônica de uma moça que está sendo muito badalada na mídia. Como a apresentação e o enaltecimento eram grandes e chatos, fiz questão de fazer o jogo dos sete erros. Até porque quando se tem muitos fogos, sempre pode ser droga. E foi o que vi e li, uma droga. Uma droga de texto. Excessivo nas considerações, politicamente correto até dar náuseas. Mas a foto ao lado do texto nos embromava e quem muito vê cara não lê texto, pelo menos foi o que me pareceu, pelos comentários super-mega- hiper piegas que foram sendo deixados como procissão; inclusive li poucos, porque minha curiosidade por bizarrices tem limite. E li a tal crônica porque me indicaram muito, vou deixar aqui até no sujeito indeterminado, do tipo: “quebraram a janela”, “roubaram a fazenda” para não trollar a amizade.
O bom é que pude analisar alguns aspectos importantes da xaropada contemporânea que se derrama aos nossos sentidos. Não vou dar créditos, mas o texto era muito curto pra ser chamado sequer de crônica. Eu chamaria de “post” e já estaria muito bom! Ele passou longe, muitas léguas do que entendemos ser uma crônica  pela perspectiva do que é um texto com lógica, coesão, coerência, blá blá blá... Mas é que futebol, religião, educação, sexo e agora – texto,  depois do advento das redes sociais,  leva pitaco ou cutucada de todo mundo.   Acho que a ordem é essa mesma.  Futebol, religião, educação e sexo. Por aí... Talvez política entre uma coisa e outra.  Podemos até perguntar pra FIFA ou pra Fernanda Fifa ou Lima, coitada, envolvida num desses esculachos do ano. Estou fazendo minha lista dos dez maiores esculachos do ano, seguindo a tradição de Sérgio Porto. Mas dez é pouco, eu sei.
Vamos de deixar a prolixidade de lado e voltar ao “post” da moça. A moça muito bonita, já disse. Foto quase do tamanho do texto que o site importante chamava de crônica  ressaltando a inteligência do escrito. No meu jogo dos sete erros fui numa busca googlemaníaca atrás do nome com sobrenome da mocinha boa da história. Então encontrei o alto grau de seriedade de suas palavras, não seria pra menos. Claro que um sobrenome não deveria dizer tanta coisa, mas ainda estamos aqui, neste lugar paradisíaco, miscigenado, mixado onde tudo a partir de outubro é Carnaval. Estou até feliz porque 2014 vai ser só Carnaval com alguns feriados prolongados.  Nem vai ser preciso gastar dinheiro com roupa, é uma fantasia só para o ano todo. Vai até inflacionar o mercado de abadás.
Então.... Vestida já com o meu abadá... A moça e o texto. A moça com sobrenome pomposo. A moça e a foto. O texto é um “post”.  O texto é chamado pelo site “importante” de crônica.  Vamos fechando aqui os pontinhos. Infelizmente o que vai aparecer ao final de figura é um vaso de barro. Sempre podemos colocar flores e rezar pelo defunto. Nada impede.
E o fato deste meu desafeto todo é que fiquei bastante incomodada. Coisas da minha avó. Como aquela propaganda que me dá vontade de entrar na tela, como no filme neorrealista de Maurizio Nichetti e meter spray de pimenta na protagonista. Como alguém consegue fazer aquela expressão com uma toalhinha dentro das calcinhas, minha filha? Mas a moça da vitrine e a da propaganda são juntas a mesma moça da crônica que não é crônica. Inclusive as três vão dar notas no Lulu para os amigos e ex-namorados achando que estão realmente fazendo a grande revolução feminista contra as humilhações seculares que passam e vivem as  mulheres. Até suponho  que essas moças “não envelheçam”.  Pera aí. Para onde as foram as violetas que estavam aqui há pouco?
Eu nem deveria mostrar este texto pra ninguém, afinal foi escrito na hora de uma raiva súbita. Recalque, alguns vão chamar. “Ela está com inveja da moça.” Por sinal, tudo aqui se resume a inveja: ciúme, perda de parente, desemprego, fome... “Vai fazer terapia e tratar da sua inveja pra parar de ser chutado!” Minha tia falava que raiva passa pra comida. Todo mundo tem uma tia pra falar essas coisas e a minha tia Marta dizia que não se podia oferecer ao outro uma comida cheia de raiva. Fiquem à vontade para abandonar o texto a qualquer momento, porque a raiva ainda prossegue com requinte de exibicionismo público.
Por final, falaremos do conteúdo do texto da moça. Dissertava sobre o quê? Sobre nada, porque se dissesse alguma coisa eu me lembraria de algo, não? Ah, sim, falava sobre liberdade de expressão em três pequenos parágrafos, mas assim pequenos... Ah, tem sempre a turma que vai falar que tamanho não é documento. Tudo bem, na certidão de nascimento deveria vir somente escrito: “nasceu”.
 Liberdade de expressão é uma coisa difícil aqui em casa com bebê, adolescente e cachorro. Eu até entendo o complexo. Mas a liberdade de expressão referida no texto era ainda um rescaldo do tema “biografia” que foi pra batedeira midiática. O interessante foi que na conclusão da “crônica” ou do crônico, ela usou a expressão “feissibuque” para dizer que não admitiria mais comentários maldosos sobre seus próprios textos. Você não entendeu? Eu também não. Vamos tentar juntos.
É engraçada essa mania de se achar e se escrever superior da elite de uma determinada casta tupiniquim. É estranho também. Lembro-me de uma pessoa assim dessas  que chamava os empregados com sinos e dizia com orgulho nunca ter visto uma televisão na vida. “Nunca tivemos televisão em casa! Papai e mamãe queriam a melhor educação pros seus filhos! ” Oh, sorte do papi e da mami que não ficaram pra assistir ao vivo o estrago de pessoa que deixaram no mundo. Mas esses metidos a sabichões gostavam dessa armadilha de dizer que não viam televisão. Santa idiotice, Batman! Também nunca tinham lido um livro na vida.  A proporção era a mesma.
Agora são novos os tempos, mas as bestas quadradas continuam.  Dizer que não tem facebook hoje correspondente analogicamente a dizer que não tinha televisão há décadas atrás. Nem tantas décadas assim já que o mundo do pós é volátil. E aí eu empaquei feito uma mula teimosa na tal frase da moça.  O fato de ter ou não ter facebook não diz nada sobre nada. Não é isso? Respondam os que sabem tudo.  Está aberta a temporada de caça ao pato. O “feissibuque” seria uma pequena manchinha no tapete persa chinês produzido por mãos infantis e mão de obra barata?
Em tempos de Lulu e Tubby, penso que qualquer bravata de arrogância é pequena na pequeneza humana mesmo, no detalhe sórdido sobre nós dois e a humanidade. Melhor seria usar a energia da juventude para compreender essas reversões, inversões que levam a mais e mais crueldade contra os outros, os diferentes – do que ficar assistindo a grande tela sistina achando que está pintando o novo dedo de Adão.  Não digo nem o que fazer com o dedo.  Deixem o Adão em paz!
Somos todos imitadores, grandes ou pequenos. O eu é uma janela por onde o outro me diz quem eu sou. A porta é pesada demais, é o próprio Pai encarnado.  O facebook é uma televisão com interações indiscretas e o que está por vir chego a ter medo. E só posso prometer a mim mesma não me esconder atrás de nenhuma cortina. E cada um que cuide de si, porque  ao cuidar de si se cuida do outro. Lembrando que cuidar vem de “cogitare”, mas aí já é outro texto.  Pra se pensar com alegria.

Patricia Porto

terça-feira, 3 de dezembro de 2013

Devora-se

Eva Besnyö


o amor que eu não te dei
é santo!
e o amor que nunca disseste
foi tanto
tanto não!

mas hoje eu vou comer
a tua rejeição
eu vou comer
partir com as mãos
teu corpo feito pão

e no altar
teu nome derramado
meu sangue 
é vão

O desaparecimento de Patrícia Porto.

Mario Giacomelli


Perdoe, mas hoje não quero ser outra para fora de minhas regiões internas.  
Guardei devidamente os dotes em minhas gavetas bem arrumadas.
Perdoe a solidão de minhas viagens marinhas.
Perdoe a minha mania de contemplar o que é de beleza estranha, distância insana.
Sinto muito pela falta de comunicação quando tudo se comunica com tudo
e ninguém sabe de ninguém a dor e o coração.
Minhas cartas, estas estão aqui na mesa, escritas,  seladas,
mal posso esperar para enviá-las ao sem destino.
Da janela renasço mariposa, a irmã feia da borboleta.
Todos a querem matar pela má semelhança.
Podem pensar: “pobre é o destino  das mariposas...”   
Mas talvez ali no obscuro do quarto lhe salve a liberdade,
a fuga suprema do envidraçamento.
Ser mariposa não é de todo mal assim.
Por isso peço perdão por não colocar minhas “às favas” em dia,
por não ter uma alegria a ser exposta a cada dezena de horas,
por escrever coisas para poucos lerem,
por ter deixado de pertencer aos humildes e humilhados
e então deixar de ouvir que posso entrar no reino dos céus.
Peço perdão por reagir aos saqueadores de almas,
aos que vendem promessas e recolhem da terra nossos ossos em vão.
Sim, peço perdão por hoje,
perdoem o meu desejo de ficar só quando tudo mais o que se espera
do mundo, do desejo, da utopia, é a fantasia do baile: a máscara.
Preciso pedir perdão por não ficar chapada diante do mundo que consome,
por ter uma melancolia suburbana quando marcas de roupa dizem
que há mais bonecos de vitrine do que gente de carne e sangue desfilando nas ruas.
Perdoem, por hoje, que seja... Perdoem aqueles que preferem ainda sentir e viver realidades,
os que se deixam ser varridos por medos, dúvidas, delírios selvagens.
Perdoem  aqueles que têm preferência por nuvens, dias chuvosos e noites longas.
Eles sabem.  Eles não sabem. Eles sonham com o que podem saber.
Por ser uma louca como todos esses -  é que preciso sentir que sou a outra
 – a que me salva –
 a todo instante!
Não, não quero me curar!
Sou louca! Sim, sou louca de pedras, de pedras e rio, de rio ao mar, e ventanias.
E minha loucura talvez fique sem perdão.
Às vezes ela se apresenta antes de mim, de chofre.
Outras, depois, no fluir do tempo, o interminável.
“Coitada da louca.”  Há murmúrios sobre mim...
Ouço e sinto muito por ela e por todos os coerentes com tudo.
Mas preciso ser a louca, não posso sequer pensar em ser a sã.
Porque tenho rostos demais de outras em minhas internalidades
e por hábito habito sozinha conversas comigo e costumo cochichar com plantas, bichos e crianças coisas afins.
Porque gosto da lentidão da lagarta.  
Sinto... E peço perdão por gostar mais do meu silêncio que do barulho da festa,
por preferir a solidão da escrita ao declínio dos atualizados, os novos bárbaros.
Por mergulhar em livros na hora exata em que a noite ferve.
Sinto não ter hoje uma felicidade qualquer de ocasião,
por não querer fazer sexo de brinde ou ter um orgasmo de bolso.
Sim, sou louca e não me vejo nem um pouco forçada a ser
 na amplitude do que é fluxo, vasto e infindo
- a mulher vestida de foto,
- o retrato estático da capa.
 Porque desapareci há séculos e o meu desaparecimento é mero.
Podem mirar!
Semblantes das que foram demolidas e mortas são aqui abastadas,
as desaparecidas dentro de mim.
  
Patrícia Porto

segunda-feira, 2 de dezembro de 2013

Transparências.

Karen Offutt


O véu que adorna o rosto, o adorno.
O mosquiteiro sobre a cama, o mosquito.
O mundo bem podia ser feito de filó e sofia, 
de sua transparência outra, o outro.

Os chambres de dormir, o diáfano.
As cortinas de banheiro, um som experimental.
O fino algodão que encobre os corpos
para serem levados ao Ganges.

Algo dão,
Algo dão doce, engorda a cheia.

A água de rio corrente... desacorrenta almas e tecidos?

Tãolúcidos nos tornamos. Desejo.
Translúdicos como crianças que acabaram de nascer. Espera.
Transparentes da mesma família humana. Um mito.
Fosso e poço com a sede das águas dos rios,
profundos indo, profanos sendo.

A poesia é uma transaparência do ser
que se desnuda, a derme exposta.

O poeta é um sonhador que transparece feliz.
O fundo é o barrento da alma que se transforma
e transcende o que superficia.

Patrícia Porto

sexta-feira, 29 de novembro de 2013

Meu avô.


         
                Meu avô, Mário Porto, tinha um armazém ou quitanda, comércio comum entre imigrantes e migrantes que se firmavam nessa terra, pelos interiores... O armazém e a casa pegavam uma pequena área de quadra da rua, mas me pareciam bem maiores na minha lembrança crianceira. Pareciam o mundo! Um mundo bricolado de coisas e mais coisas a descobrir, coisas de brincar. Na parte da frente do armazém ficavam as sacas de farinha, feijão de corda, arroz e camarão seco, os cheiros da minha infância. No teto peças de salame e queijos pendurados. Uma mistura inusitada de brasis. Como se eu fosse assim muito pequena, ainda mais do que eu era, e como se pudesse enfim me quebrar ou partir, ele me colocava delicadamente sobre o balcão, onde havia um baleiro. Ele me dava balas num escondido de vovó. Então, se encostava bem perto e cantava uma linda música em meu ouvido, como um cochicho da alma. Meu avô tinha essa alma delicada de doer. E esse quadro de memória minha avó me deu de presente.

"A Deusa da minha rua
Tem os olhos onde a lua
Costuma se embriagar
Nos seus olhos eu suponho
Que o sol num dourado sonho
Vai claridade buscar
Minha rua é sem graça
Mas quando por ela passa
Seu vulto que me seduz
A ruazinha modesta
É uma paisagem de festa
É uma cascata de luz
Na rua uma poça d’água
Espelho da minha mágoa
Transporta o céu para o chão
Tal qual o chão da minha vida
A minh’alma comovida
O meu pobre coração
Infeliz da minha mágoa
Meus olhos são poças d’água
Sonhando com seu olhar
Ela é tão rica e eu tão pobre
Eu sou plebeu e ela é nobre
Não vale a pena sonhar."

Poetisas.

.A aranha, meu quarto e a parede.


Todo poema um agudo dentro,
um  fosso,
a ferida aberta trágica,
uma flor arrancada dos espinhos.
A face de um Cristo emoldurada,
um desejo de fé,
uma saudade dobrada,
uma teia suspensa com uma aranha,
uma aranha pendurada, perdurada
a aranha a espera de ser alvejada
por mãos imensas.
Não mate a aranha, requer a escrita.
Não desvulcanize a aranha em seu devagar
exercício de existência.
Onde a morte a liberta do tapa da vida,
ela constrói uma nova gravidade.
E cai, teia, feia, forte, elástica, corcunda.
E é poema, um grave som de felicidade.
Feito.

Patrícia Porto

  

A prenda.

Du Xiaodong

Hoje chegou minha prenda.
Chegou vinda do mar.
Veio de corais, a estrangeira,
pescoço nu.
Tocou-me o vento com as mãos,
fez disparada.
E eu entregue ao seu traço de encanto,
deitei-me confortável na sombra de seus cabelos.
E quase morri, quase, quase,
- por ser eu ela mesma.

Patrícia Porto

quinta-feira, 28 de novembro de 2013

Para sempre.

Vlad Dumitrescu




E faço tantas confidências aos travesseiros.
Vou alisando o tempo das cabeceiras, discreta...
Onde dormem meus livros dormem meus afetos,
e meus dedos dedilham uma modinha.  

E esse sentir, que é musica,
entranha a abastecer
o que é invento
e nunca se basta. É atonal.
Precisa dar cuidados: algodão,
fronhas, franjas, leito de rio.
Umas desSincronias. 
Precisa dizer que te ama -
que ama esse imponderável,
esse abraço de canduras
sem acentos de rodapé.

Minhas mãos, nossas mãos
vão acariciando essas notas.
E diminuindo o som
apreciamos as pausas...
Eu pedindo ao espelho: me ecoa
nesse respiro diminuto.
Até o dia em que
confundidos de solidão,
a saudade apreciada,
atravessada de imprecisos
nos seja sempre
assim os namorados...
Distraídos.

Patrícia Porto

segunda-feira, 25 de novembro de 2013

Poema para a hora que não passa, mas passa.

René le Bègue, Méditation, 1900.


Eu te digo: reza
Reza, que passa

Eu te digo: peça
Peça, que passa.

Eu te digo: entorna o vinho.
Entorna, que passa.

O certo é que passa:
o errado, o vesgo, o refugo,
o corcunda, o esquerdo da tralha
das arquiteturas que gemem humana
e proliferam a faca e o corte do quarto escuro.

O frágil de tudo isso,
o que me quebra por dentro,
a finitude do beijo na morta, o sangue gelado.
O Beijo na morte.

Minha fé, minha menina, minha mãe, mãe de mim,
procissão de angústias entre esses braços que me atrapalham
e sustentam...
   Esse peito negado, arrancando o amor à fórceps.

Passa, passa, passarada voa...

Patrícia Porto

sábado, 23 de novembro de 2013

O delicado.

Frank Eugene, Adam & Eve, 1910.


O corpo me indica um sol
e se o tempo  é de norte, então seja.
Meu corpo pra lá me leva
e a água nos lava a roupa
que os corpos vestem.

Eu não nasci ontem, homem.
Eu tenho essa velha que eu carrego
debruçada em meu corpo.
Ela me faz essa prece.
Ela me faz essa dança de corda.

E vou por onde pauso esse corpo de silêncios
de linhagens tantas...
Que seja em tua cama, que seja doce o teu eixo.
Minha alma, a lavadeira
que se beira nesse Rio ela se banha,
se espanta, canta e quer se deitar.

Então se é para deixar que corra,
que seja em tua cama, homem.
Pra eu te ouvir esse velho, o tempo,
pra que esse corpo de almas velhas minhas
te seja a casa, a terra e finda.   


Patrícia Porto

Por onde velas.

Frank Eugene- The Graduating Class, 1913


Nada será como antes, amor.
Nem mesmo o depois:
esses ossos
desses pós
nossos esqueletos de ranhuras
amarguras no armário
no sudário da dor.

e onde era sorriso
agora espantalho.

Patrícia Porto

sexta-feira, 22 de novembro de 2013

Atropos

Karen Offut


Amo ter que amar o ser amado.
Assim como quase toda criança e poeta
amo a vontade de amar  todo o princípio que germina.
E amo de forma intensa, não correspondida, não investigável.
Amo pela beleza, belo grotesco, pelo encontro entre ambos no corredor
das minhas aparências. Por isso quebro espelhos e fico com as mãos.
Sedenta, abro e escancaro a janela onde foi trancada a tal porta.
Viro de lua, escrevo poemas incontáveis, indisciplinados, bruscos.
Porque o intenso é de brusco.  É um revoar de abraços, cantigas,
noites sempre acesas e boas de festa.
Ah, tudo que é intenso é tão cedo, é tão perto e longe,
tão passarinho de interior,
que eu me pego enrolando o misterioso
só pra ficar mais de dois minutos totalmente sentida.    

Patrícia Porto

quinta-feira, 21 de novembro de 2013

Porque depois de ti, queimarei todas as naus.




Mar aberto e o pescador lança sua rede para
Atirar ao tempo a chance de encontrar sua
Resposta, pois no cais onde não se sabe se alma parte ou chega,
Correntes o antecipam com promessas de alimento à morte.
E restam tão pequenas gotas, um sal de lágrima, suponho, um soro de
Lágrimas indefinidas em suas represas, um medo abissal de tempestades e...
O pescador faz Deus existir para poder se atirar ao mar. E faz o mar existir onde não existe mar.
...................................... E ele é todo o mar, ele é o céu, ele é o próprio mergulho.


Patrícia Porto

quarta-feira, 20 de novembro de 2013

28 de Novembro. (Para meu filho Pedro)




Para atravessar pontes, Pedro,
é preciso pousar o coração com cuidado,
pois do outro lado há sempre vida a ser preservada 
e aquela rua, a outra e mais a outra lá, todas elas
guardam tantas histórias e amores inacabados...
E as cidades, os rios, os mares, acredite!, eles têm alma!

E para atravessar pontes, meu filho,
as pontes de concreto e chão,
é preciso erguer-se com os braços
sempre trazendo-os para o centro-dentro.
E como numa canção de aconchego
abraçar a si mesmo quando estiver sozinho e confuso.
Eu sempre fui sozinha e confusa, mas não menos feliz.

As certezas vão ficando menores
e menores vão ficando melhores.
Quase incertezas...
Não há mais bicho papão
e se pode dormir seguro no fundo escuro do medo.

Sabe, Pedro, poderemos atravessar pontes
sem temer cair no abismo
dos passados ou dos futuros,
pois para atravessar pontes
- é preciso conhecer o sensível de si,
o simples, o pequeno do homem, o minúsculo, até se compreender como criança:
antes de saber da razão de tudo sempre perguntar o "porquê". É que o conhecimento
mora mais na dúvida e vive de aluguel na casa de uma moça chamada Desrazão.

Por isso digo a você que para atravessar pontes
volto para casa como voltava o meu avô,
- esse pão de cada dia,
a santinha na carteira,
seu retrato de menino,
uma qualquer verdade no olhar
e esse punhado de crença na areia
- para fartar nossa mesa de sonho
e amor.

_ Oxalá, meu filho,
nunca nos falte esse amor.
Pois para atravessar pontes
atravessar mundos, Pedro!


Patrícia Porto

segunda-feira, 18 de novembro de 2013

Serás eternamente livre.



Antonello Silverini


E ele constrói a casa, eles desabam.
E desabafa o desafaço,
esse engasgo todo,
dos pés à semente, e se pergunta;
de que me servirá pensar o desafeto
de minha classe tão distinta?
Melhor seria o desencanto, o desvalido
verso que não fiz por preguiça nascente,
porque nasci com canseiras de antes passados.
Vai, e espera no seu lugar, pois perseveram intrigas,
desalinha a metáfora do Equador numa nação de anões.
Ah, meu pequeno país, meu pequeno grande país de pequenos grandes Napoleões...
Nem a Rosa ficou. Desintegrada, desrespeitada, descamisada, abusada de tudo...
Mudou de identidade. Dizem que mora em outro planeta mais sutil
onde os heróis usam pijamas de dormir e bem bocejam.
A Rosa agora talvez use algum nome como baobá ou macieira...
E faz visagem de sensível onde tudo
que era Arte se doeu de vez.
Ele, o homem da criação, se perdeu pelo meio da história...
Vive cabisbaixo, andando pela ruelas e goelas, catando coquinhos.


Patrícia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos
Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Sobre Pétalas e Preces
Livro: Sobre Pétalas e Preces

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.
Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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