quarta-feira, 28 de novembro de 2012

“Quem tem poder, que faça bom uso.”

Imagem: Alice Liddell por Lewis Carroll.



            “Até um vira-lata é obedecido quando ocupa um cargo.” Frase célebre de Shakespeare em Rei Lear. Há uma outra não tão célebre, mas não menos polêmica:  “Gosto de crianças (exceto meninos)”, esta de outro escritor inglês muito reconhecido: Charles Lutwidge Dodgson ou simplesmente Lewis Carroll, autor do clássico “Alice no país das maravilhas”. Carroll já adulto não só tinha como melhores amigas “menininhas”, mas também as fotografava com permissão e apoio da própria mãe. Eram tempos vitorianos... Outro tempo, outra moral. Não tenho tanta certeza, mas talvez não tivéssemos hoje por Dodgson ou Caroll a mesma complacência, isso levando em conta a nossa atual visão de mundo. Sem respostas absolutas que não acabem sucumbindo ao fosso da temporalidade, o que importa me parece ilustrar aquilo que do passado vingou: que Caroll foi indiscutivelmente um grande escritor que tratou de nos deixar de legado  seus incômodos narrativos de imagens perturbadoras e visões pra lá de ambíguas que jogam com nossos próprios e indiscretos espelhos. O cenário de sua escrita? Uma terra e uma época profundamente marcadas pela opressão do puritanismo. Caberia então perguntar o que a repressão e a tirania podem fazer de mesquinho com os homens. Frear, coibir ou iluminar sua loucura? Coroar ou cortar suas cabeças?
           Num tempo não tão distante, muitas rainhas e rainhas-mães se revelaram tão insanas e perversas, tão tiranas e sanguinárias quanto os seus próprios reis-pais, acabando com a esperança de que mulheres no poder sempre nos salvariam de guerras atrozes, perseguições vingativas e derramamentos de sangue. Novamente Shakespeare nos aponta a montanha que há por trás do iceberg ou por trás de um desejo oculto e freado. Lady Macbeth, de Shakespeare, tem a força e a gula dos grandes tiranos. Em toda minha incursão literária nunca li tanta crueldade, tanto ímpeto feroz, marcado pelo orgulho do ódio e o delírio da ambição:
“Vinde, espíritos sinistros
Que servis aos desígnios assassinos!
Dessexuai-me, enchei-me, da cabeça
Aos pés, da mais horrível crueldade!”
            Dessexuai-me... Ninguém melhor que Shakespare para traduzir a vontade do poder, ninguém melhor que Freud para interpretá-lo. O desejo cruel de Lady Macbeth, a inveja de Iago, a persuasão de Cássio, a dominação de Petrucchio, o fantasma de um pai, a manipulação da mãe, Hamlet  e a tirania se contrastando com a palidez e a fragilidade de Ofélia, a ninfa no lago. Que morra, por certo.
           Poderíamos nas aulas de literatura falar de muitos “complexidades” do humano e também das nossas tantas fraquezas de caráter, das nossas absurdas pequenezas... Mas quem quer ouvir isso em sã e feliz alienação afortunada? Fiquemos por ora na superfície, na superfície porque não causaremos mal estar. Enfiar o espinho na ferida é para os loucos, os sem juízo, os vadios, os amorais. Não funciona, eu sei. Continuaremos sempre a desejar a morta do lago, a quietude do poço, como o "silêncio dos inocentes".
            Fiquemos na sustentável ignorância do ser e não nA insustentável leveza do ser, belo filme de Philip Kaufman. Como protagonistas, vemos os engajados Juliette Binoche e Daniel Day-Lewis, personificando o casal Tomas e Tereza numa Praga invadida pelos Russos, naquele tal ano de 1968, o ano que não terminou segundo Zuenir Ventura. Baseado na obra de Milan Kundera, o final do filme destroça nossas esperanças de ver aquele final bacaninha, com o casal apaixonado vivendo numa cabana da montanha. E destampa o vulcão para causar fraturas. Tão difícil assumir a ferida narcísica exposta do nosso lado sombrio...    Revelar o asqueroso, o feio,  o estranho, o desumano, o esquizoide – e o finito. Como nos discos vinis, muitos tentam tocar apenas o lado A, aquele com as melhores paradas de sucesso. O lado B, no obscuro permanece, reprimido numa cortina de fumaça como se seguisse a Lei de Murphy, na consequência inevitável  da opressão: caindo para baixo, no baixo, nas baixezas do grotesco, escondido embaixo do tapete da terra, como As Aventuras de Alice Embaixo da Terra, primeiro nome dado ao livro de Carroll.
            E pensando melhor, afinal, não importa tanto distinguir o lado A do B, porque no fundo ou raso, eles estão mesmo misturados, e se o homem não descobre sua dimensão humana e finita, ainda mais sofrimento deixará de herança aos outros do advir, porque deixará de apostar na dimensão misturada de sua natureza primária. Quando olho para a nossa História recente fico pessimista e isso não tem vínculo com a minha visão política de mundo, mas sim com a minha visão humana de mundo. “Para onde caminha a humanidade” depois do Tibete, da faixa de Gaza, depois do Iraque, das ogivas, das sanções, dos milhões que morrem de AIDS num continente imenso esquecido? Não sei. Fico com medo de me tornar um daqueles anões da Branca de Neve, o Zangado, e virar alvo da globalização da informação. Ranzinza, com idiossincrasias irrecuperáveis: toc, síndrome do pânico, TPM, manias de grandeza, rabugenta e boca porca. Se eu me pergunto para onde caminha a minha humanidade?  Pergunto. E não tenho resposta que não seja ficar com a   minha fiel perplexidade.
           No nosso reino da felicidade de araque e de gente tão cordial e conservadora,  se a ficha  da hipocrisia não cair, que tal ficarmos com aquele velho adágio: "Quem tem poder, que faça bom uso"? Esse pode servir...
        No “The End” talvez encontremos a frase de efeito para a contemporaneidade, como Boris Yellnikoff, personagem neurótico e pessimista do filme de Woody Allen. Sim, é possível, “Tudo Pode Dar Certo”.


Patricia Porto

segunda-feira, 26 de novembro de 2012

Prece para o dia em que te conheço e me perco em teus achados.





porque nunca sairei a mesma.
poesia,

que amanhã não se sofra tanto,
que o dia seja tão claro como escuro
e que se perceba dele os contraditórios,
os freios, os enigmas dos afogados.
A natividade explicita de uma tola esperança.
Que o golpe, enfim, sendo de sorte ou azar,
nunca antecipe desfechos. Deixe em aberto...
Aqui se constrói uma casa de versos, se desmorona
a notícia que outrora dizia no rádio. Mas já não há mais rádio.
E nem ouvidos para ouvir.
E que a água, limpa ou suja, seja o tanto faz: bem dizer, mal dizer, escárnio,
que o humano é um som em marcha que escuto do outro lado, o meu lado, o lado de mim
no outro quarto, na voz da sentença do meu exercício do feio.
Já que te ouço em mares de fluidez e me sinto um ser abjeto exijo perdão.
E que o tempo, sim, seja de farto e corte. E que não sobre. O tempo foi feito para o desgaste,
que se gaste o tempo então vivendo de tudo no esparramado, de todos, nos obscenos da alma caleidoscópica.

Proteja então as estrelas que nos protegem da escuridão
e que a cigarra cante, que a cigana dance,
e que o mensageiro se engane
e só leve da vida a solidão que não nos serve nos bolsos pra carregar como armadilhas,
como armas de grossos calibres da pretensa unção da verdade.

Que o velho seja realmente sábio
e o menino o velho mais sábio ainda.
E que caia do céu a chuva, a têmpora feliz dos renascimentos,
como as chuvas de tarde em minha terra de águas.
Terra aos montes pras meninas correrem, deitarem na lama
como nos bons dias da minha infância.
Ah, e que nunca nos falte o alimento do sonho, a larva da palavra,
o susto da arte: o riso, a risada, a vida solta, correndo, atravessando oceanos
a gargalhada. Sonora.

Amém


Patrícia Porto

Do charco.

Imagem© J. Guall
Meu amor disse:
“do charco nasce a flor”.
Charco, meu amor,
chagas do meu corpo doce,
flor violeta do meu sexo bruto,
como da brutalidade nasce o mel
e das violentas sedes da minha alma
nasce o escuro, em poças,
assim como do fim nasce o início,
como das bocas nascem e caem os dentes,
como da vida nasce a mente, a morte
e do tempo nasce o futuro que nos corta
ao meio
a nossa flor idade.

Patricia Porto

segunda-feira, 19 de novembro de 2012

PEQUENO CONTO EM TRÊS ATOS ou poema transverso.


© Urszula Kozak

ATO I - OBSERVAÇÃO

Lançar cinzas no Everest é um antigo hábito hindu, que não prejudica em nada a coloração da neve que lhe cobre de branco.

ATO II – A FEBRE

Houve um dia em que a palavra se desprendeu dela como suor de uma noite ardente de febre. A temperatura represada numa altura digital. Sensação estranha e perversa de perda. Na pele as dores de um delírio escorriam no vidro embaçado de um edifício que mal conhecia. As letras em vermelho-neon se espatifavam na calçada, denunciando os atrasos que ela nunca cometeu, mas bem tentou. Sim, os vidros estavam todos atravessados em suas mãos e por não conseguir mais desangrar as digitais: guardou tudo no útero.

ATO III – A GENEROSIDADE

A manhã de sexta chegou trazendo o vazio na claridade. Sentia o vento das altas cordilheiras e achava que cada esquina era um Everest a impor inúmeros limites. Então o sol veio como um ponto desbotado. Subiu ao topo do prédio e de lá lançou todas as cordas de alpinismo. Imaginava o dia em que ergueria esse monumento chamado liberdade. Vôo... Atravessaria a baía em forma de ponte, emergindo de um encontro de águas para desfazer-se em pequenas ondas provocadas pelas barcas. Escoraria-se em estacas e nos rangidos da atracação dos terminais. Um barulho, proporcionado pelo metal e madeira num encontro determinaria a sua partida e a sua chegada.

Precisava ser livre – não para prender, mas para se libertar de seu instinto caçador. Mas sem seu instinto o que faria da vida? Seria uma fera totalmente racional?

Foi assim que ela lançou-se aos mergulhos abissais - sem cordas ou artifícios, pois já não tinha medo de nada: nem do tempo-deus, nem da metafísica, nem de seus próprios genes. Não queria mais viver de palavras emboloradas e de ambições tão alheias a si. Por isso, num gesto exagerado, lançou-se a descobrir o que há de silêncio em lançar cinzas do Everest.

Lançar cinzas no Everest, um antigo hábito hindu, que não prejudica em nada a coloração da neve que lhe cobre de branco.

Patricia Porto

sábado, 17 de novembro de 2012

A mulher na bolha.


Imagem© House of Art, "Nua na Rua", Alessandra Cestac.

A mulher na bolha

           Havia uma bolha criada especialmente para ela. Nesta bolha ela podia acordar, comer, beber, dormir, fazer os serviços da bolha: limpar a bolha, decorar a bolha, receber os amigos, navegar na internet...
              Ela era quase feliz em sua bolha se não fosse o fato de ter que deixar a bolha para se relacionar com outros que tinham em mente projetos muito audaciosos, planos que mal cabiam na sua esfera reduzida de ter uma bolha plástica somente pra si. O que não administrava bem devido às tantas demandas do mercado. Ah, nada como manter uma bolha bem preservada de insetos e de suas imprevistas morfoses! Os anos se passaram sem corte e navalha: a mulher acordando, bebendo, dormindo, recebendo os amigos, navegando na internet... 
               Mas como nenhuma bolha é perfeita, a mulher dessa curta história às vezes se sentia mal e mal se entendia consigo mesma e se entediava. Então resolveu expandir sua bolha para aliviar seus dias de tédio. Era obviamente uma proposta de bolha expandida . Assim, cansada de certa solidão, entrou num site de encontros às cegas e resolveu trazer para dentro de sua bolha um legítimo tratador de bolhas esvaziadas. Era fácil, pois existiam muitos tratadores que viviam em bolhas reluzentes de brilho penetrante. Escolheu e encolheu para que pudesse caber em dois na nova bolha compacta e conjugada. A mulher na bolha seria então quase completamente feliz se a bolha não tivesse apresentado um terrível defeito de reinvenção: o de permitir a entrada de toda espécie danosa de seres que deterioravam bolhas conjugadas.
           A mulher desesperou-se e pediu ajuda aos psico-trópicos e também passou a consumir diariamente uma espécie de bolhatóxico sem receita. O tratador de bolhas já de olhos novamente reluzentes e sangue nos dentes buscava outras bolhas esvaziadas. Antecipada ao desfecho, nada ilusório, a mulher da bolha saiu borrifando o novo vazio a fim de voltar de vez a sua velha rotina: acordar, beber, dormir, receber os amigos, navegar na internet...
            Houve um grande progresso, a mulher, novamente sozinha, limpava e decorava a bolha a seu gosto e desgosto e era agora quase inteiramente sozinha no seu quarto de ser feliz - se não fosse a vida querendo hora ou outra tentar estourar a bolha criada especialmente pra ela.

Patrícia Porto

Imagem© São Paulo Mon Amour, Alessandra Cestac. 
O quarto - uma performance solitária horas a fio.

sexta-feira, 16 de novembro de 2012

Terra de águas, casa de areia, amores de mina.


Imagem: Pierre Verger, São Luís do Maranhão, 1948.



Minha terra é que me sangra,
é que me acolhe, me faz a cabeça.
A terra me engravida de mil potes de água
e circula neles a narrativa que batiza meninos.
Minha terra é que me sangra e fala,
e na sua vasta voz,
ouço a voz do exílio dos povos,
ouço linguagens de tambor ao coração
a bater e chamar...
Ouço o pedido
dos cravos, das carrancas dos rios
e crenças que renascem
sem risco de resistência.
De oferenda às raízes
encontro dos frutos vindouros,
os que vingaram o destino,
os que se fizeram opostos.
Dela sou
um ser miúdo,
um ser pequeno,
misturado de origem
a todas as crendices do areal.
Um ser terreno na poeira dos sujos,
no barrento da magia dos cantos.
E nas desordens das cheias
um ser de marés,
que por estar vivo,
consegue abrir a porta,
e mesmo vazio de enigmas e absurdamente egoísta,
pode sentir os pés que dançam.
A dança é que amacia a vida dos esquecidos de outros.
E ainda me sangra.

Patricia Porto

quarta-feira, 14 de novembro de 2012

Transitoriedade: para além das trincheiras.




Quando olho no espelho
o olho que me olha de volta
é um tonto, um olho de pirata,
um olho de molho nas barbas de Deus.
Eu hoje sonhei que era feliz
e acreditei em mim.
Mas amanhã, quem saberá¿
O trânsito é de fronteira,
minhas margens obscenas
não dão conta de contar ou
abrir todas as janelas.
Sei que minhas asas são de borboleta.
Mas por vias transitórias da dúvida
mantenho firme o casulo por perto.

Patricia Porto 

A Ostra e o Umbigo.

Vó Mundica.

Minha mãe, o umbigo do tempo:
Um bosque de árvores úmidas e longínquas,
como velhas histórias míticas, 
entre precipícios, âncoras cordas e assobios.

Cordão ancorado em sonhos e nebulosas.
Nuvens e luas de não-dormir
de descansar na fresta do tempo: uma porta.

Vai cansar a espera
Umbilicalmente
- Preso
- Solto:
O Umbiliverso,
Ao Ver só
Do filho
                       O único
                                      tem po tem po,
                                               o tem po da ostra:
                                                     é mãe-tempo

......................................................
Patricia Porto

terça-feira, 13 de novembro de 2012

A escrita e a inveja.


"artísta sensível, cidadão carioca", LAN por Sérgio Porto (Stanislaw Ponte Preta) e Sérgio Porto por LAN.


A escrita e a inveja.


(Homenagem a Sérgio Porto e tia Zulmira)


Ele ligou tarde da noite.
_ Alô... Olha, meu camarada, essas coisas que você anda escrevendo no jornal ultimamente, sabe... Sou teu amigo e por isso vou te prevenir. Tô até falando baixo que tenho medo. Mas não pega bem, companheiro... O meio que a gente vive é pequeno, um ovo, cabe três e olhe lá! E todo mundo se conhece intimamente. Você, nessa vaidade, fica aí escrevendo essas provocações... Fico até sem jeito de falar... Mas tem gente importante que já comentou comigo que não gostou nada nada!
_ Pera aí, João! Até tu Brutus! Sou jornalista e tenho meu direito de expressão nesta bodega, entendeu?!
_ Mas é que você, meu querido, anda mexendo com gente grande, peixe grande, saca? Isso aí não vai dar certo, meu amigo. Depois lá na frente você se prejudica. E ainda sobra pra nós dois...
_ Olha aqui, meu caro João. Cada um na sua e a vida continua. Você cuida do seu jardim, rega as suas plantinhas que eu cuido das minhas! Vai dormir, João!

A mulher acorda.
_ Que conversa é essa, Zuzu?
_ O João Maurício! Ligou pra falar do meu artigo no jornal. Esse cretino, filho da mãe! Esqueceu tudo o que eu fiz por ele... E agora só porque se acha numa posiçãozinha melhor quer cantar de galo no terreiro alheio.
_ Mas Zuzu, meu bem, talvez ele tenha um pouquinho de razão... Você é radical às vezes, sabia? Nas suas opiniões - muito agressivo. Leva tudo muito a sério. Não aceita que o mundo seja do jeito que é. Tem mania de querer salvar o mundo escrevendo... Isso está fora de moda, esse negócio de idealismo. Já caiu em desuso, Zuzu.
_  Pera aí, Cristina! Até tu Brutus! Covardia não faz meu feitio! Não sou pessoa de ficar fazendo miséria com as palavras! Comigo é assim e pá-ponto: sem papas na língua! Tem que dizer eu digo! Tem que escrever, eu escrevo! Não gostou? Discorde e exponha as armas de seus argumentos que não tenho medo de duelo verbal!

A mulher conversa com a sogra:
_ Dona Dora, seu filho, o Zuzu, não está nada bem. Pirou, coitado... Ele agora deu de denunciar, de enfrentar até gente graúda através de denúncia, escrevendo pra jornal, revista!
_ Mas não é tudo “meta-fora”, minha filha? Pelo menos foi isso que ele disse aqui em casa pra mim mais o Antenor. Que esse negócio de “meta-fora” não pega pra ninguém, é uma linguagem da figura, do figura.  Figurão! Deve ser isso, minha filha. Tem que se preocupar não. O menino sempre foi bom de juízo.
_ Não vai adiantar eu explicar agora, dona Dora. Mas é que mesmo no sentido figurado, isso que ele escreve não é coisa boa pra quem é entendido no assunto, percebe?
_ Ah , minha filha, agora você complicou comigo. Do figurado eu não sei. Mas esse menino sabe das coisas sim, ele sempre foi bom de inventar história! Esse menino é um danadinho! Já contei pra você aquela vez que ele...

A mulher conversa com o analista:
_ Não aguento mais o meu marido, aquele traste do Zuzu. Agora ele acha que vai salvar o mundo escrevendo. Além de ganhar mal com o que faz, os poucos que leem aquele raio de coluna querem é tirar a pele dele para fritar pra aperitivo. Ele é mesmo um sem noção como diz a minha irmã! Eu deveria ter ouvido a minha mãe quando ela tanto me avisou. Mas isso também é culpa dela, ela fica dizendo por aí que eu tenho o dedo podre pra escolher homem. E agora também, além dessa mania de ser herói fora de época, coisa mais infantil e besta, também nem comparece como antes, só pensando nessa escrita... E também...
_ Acabou o seu tempo, continuamos na próxima semana.

A mulher conversa com a manicure:
_ Não aguento mais o meu marido, o Zuzu...

A mulher conversa com a empregada:
_ Não aguento mais o seu patrão!

A mulher conversa com a mãe:
_ Não aguento mais esse idiota!

A mulher conversa com uma vizinha no elevador:
_ É, tá quente, mas saiba que o pior é aguentar certas pessoas. Não aguento mais certos homens que...

A mulher conversa com o amante:
_ Ah, João Maurício, não aguento mais...
_  Mas, minha sereia, eu juro que estou fazendo o que posso... Mas ele é tão teimoso...


Patrícia Porto

sábado, 10 de novembro de 2012

Meus tios e o Riba Mar.

Imagem© Araquém Alcântara, A geografia das águas.


(para meus dois tios de nome "José (de) Ribamar",
filhos de Dona Mundica, meus primeiros poetas e amigos)   

O Vento me soprou!

E eu ouvi:
eram nos aguapés
passarinhos cantadores,
contadores dos tempos de Príamo.

Por isso meus tios são de Riba Mar,
porque engoliram o Mar e a sereia
para que no encantado da ilha -
a fé sempre viesse de frente.

O barqueiro disse:
O mundo é o tempo! É Gira!
Mas o tempo pode ser verso ou serpente.
Pode levar na rede peixe, homem, sermão
- a Jaçanã
- moeda infinita, aranha de tecido,
fio onde tudo que desvira é
Sonho, poesia, assombração...

Patricia Porto

quinta-feira, 8 de novembro de 2012

Gota Serena.


Imagem© E.E. McCollum. 


Aquele amor secou minha água,
secou minhas horas vazias de sussurros -
Soluços no espelho... um Eco.
O amor secou a terra que eu havia molhado
e o plantio estampou a escassez de minhas recentes palavras -
silêncios de uma cidade em fantasma...
O amor secou meu tempo feito a flor arrancada,
desagasalhada de pé, lançada ao esmagamento feroz
de uma carta...
O amor secou meu copo cheio de tempestade,
secou-me o hálito, os lábios, uma gastura...
E tantas, tantas foram as saudades de mim...
Já nem sei de quando.

Patrícia Porto



quarta-feira, 7 de novembro de 2012

Tua pele na minha.

Imagem© Hanson Kim
 L'avenir nous tourmente et le passè nous retient.
 Voilà pourquoi le present nous èchappe. 
Flaubert
Tua mão na minha palma
na tua alma abraçada cigana.
Tua pele é o fogo-deus,

abastecido de gente.
Meu oceano na tua fronha:
uma frota de manás. 
Com os meus dedos de dentro
cruzo dentro, por dentro dos teus dias.
Vou te correndo, te descobrindo
por meios afins e fins ilegítimos.
L'avenir nous tourmente...
Porque a via na tua reta é curva,
é láctea,  deixa minha noite adulta:
segura para fazer chá de hortelã
e beber soro de blues.
Minha fonte está no tato,
tua sede acabada
desnuda os meus seios de ontem.
Le passè nous retient...
Minha língua?
É que me veste
de coberta o escarlate.
Minha cobertura é de lua,
mas tua pele na minha transa
deixa minha cuca em sana.
Toda noite na tua febre,
todo dia vou vadia,
toda vida na tua arde,
toda minha sorte é sim,
é dorso, alimento de bico,
toda bossa é nossa prosa
e se minha nuca pela
- tua pele nua mina. brota.
Voilà pourquoi le present nous èchappe. 


Patricia Porto

segunda-feira, 5 de novembro de 2012

Móbiles.

Imagem© Mario Sanchez Nevado


Todo movimento
sem movimento
Não-movimento?
Inércia?

Toda música
sem som
Nenhuma música?
Silêncio?

Todo corpo

Muitos mistérios?
Enigma?

Toda alma
em-si
Eterna
nua
no Es pa ço
Existe?

e nessinstante 
 há tempo?

Patrícia Porto

domingo, 4 de novembro de 2012

infâncias em terras de açúcar e sal...

Imagem© Sally Mann.

Quando eu era criança havia uma chuva fina
que gotejava no meu quarto de dormir.
Pingava translúcidos sobre minha rede
que também era cabana e esconderijo.
Lá eu me vestia de chambre de passarinho,
brincava de gotejar com a chuva as mãos.
Porque nessa infância a gente brincava de ser ilha e natureza.
Vó sabia o tempo certo de cada coisa. Vô, se perdia todo no tempo escorrido.
Vó caçava tarefa. Vô fazia brinquedo de galhos.
Vó era a força. Vô, a expansão.
Vó, sabedoria. Vô, a pa-ciência...
Vó então ralhava: _tem que arrumar a telha, Mário!
Vô fingia de bobo: _amanhã já vejo!
Depois piscava de um olho pra mim e me dava um pedaço de pão ou maçã.
Crianças são sempre passarinhos.
Eu era um daqueles de asa quebrada
e boca e olhos grandes abertos pro mundo. Sempre com fome de tudo.
Mas vô e vó cuidavam de mim
com a delicadeza e a doçura dos que se encontram perto
demais de atravessar um jardim, um bosque, uma floresta inteira.
Não havia nada mais saboroso que aquela velhice de criança.
Vô e vó eram meninos que voltavam pra casa
cheios de infâncias,
com sorrisos largos e histórias de lugares estrangeiros.
Por isso nunca sarei do mal da asa quebrada
e quando sinto a chuva me ponho aninhada a gotejar saudades.

Patrícia Porto