sábado, 29 de setembro de 2012

paradoxais


Imagem@ Rafa Angulo

Nenhum pêndulo seria capaz
de me levar de um lado ao outro
sem os teus olhos a me seguir.
O Translado disso: mudar de mapa;
O medo, a revolução;
A terra, rota;
O curso, rumo;
O porto, pacífico;
A casa, estado...
I am the poet of the Body and I am the poet of the Soul...
Trans ferir do peito a cruz  
para atravessar o mar a nado.
A tristeza colocar num susto violeta cor.
E mudar, mudar a grama paradoxal
a nascer sem permissão, 
a morrer sob teus pés,
crescendo salgada, invadindo o campo minado
que inventei sozinho, em vigília,
entre objetos de sopro e tranca, 
suspeitando apenas de mim entre todos nós. 
I am the poet of the Soul and I am the poet of the Body...

Patricia Porto

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Novos Castelos de Kafka.


Imagem@Ricardo Venturini. 
    
          Algumas pessoas já me disseram que sentem uma enorme ou certa claustrofobia na leitura de um Kafka. Sabemos que isso não se dá à toa. Pois se quisermos manter qualquer pequeno diálogo com as obras kafkianas devemos estar pré-dispostos a tentar compreender “que não conseguiremos olhar a alma de um homem através de uma lente”. Precisaremos entrar no obscuro, no mistério, nas sombras, que podem, por fim, revelar o óbvio: não sabemos tanto... E muito do nosso conhecimento pode não passar de uma ilusão arrogante, uma ilusão grávida da nossa medonha ambição que deseja ter e ter mais. Ah, os cenários de Kafka são tão externos quanto internos. E as externalidades revelam do quarto, da casa ou de um castelo, os barulhos de dentro e esses podem ser bem mais altos e bem mais assustadores que os barulhos conhecidos de fora.
                 Ao sairmos à rua, levamos em nossos corpos e bolsas e carros os símbolos da nova e tardia modernidade. Mas bem ali, no cruzamento entre o moderno e a charrete, está aquela senhora elegante, agora mesmo sentada naquele café, o Para-dor, com seu xale fino comprado em Milão. A família costuma ir à Europa, precisamente Paris, uma vez por ano. Ela olha de forma displicente o entorno como fosse uma passageira num trem. O vidro a separa do menino que bate com uma caixa de doces contra. Contra ela? Não, contra o vidro! O vidro é um bom veda-dor de ruídos. Ela se volta discreta e elegante para o seu capuchino. No entanto, seus olhos ao se esquecerem dela, vagam involuntariamente, lançando rabos de olhos para o vidro que, desgraçadamente, lhe estragara um momento raro de dispersão solitária. O menino percebendo o instante da fraqueza da “freguesa” fala sem som: “compra um pra ajudar, tia”. Ela lê seus lábios e finge que nenhum deles, nem ela e nem o menino existem. E pensa relativizando em atos falhos: “nada mais irritante que a pobreza neste país. E o pior é que não podemos fazer nada”. E assim sem olhar para trás, porque para trás ficara o menino, termina seu café vespertino. Mas antes de sair, lê mais uma passagem do livro “O Castelo” de Kafka:
                 “— Mas é justamente isso — disse Frieda. — É disso que estou falando, é o que me faz infeliz, que me afasta de você, ao passo que não conheço felicidade maior do que estar com você sempre, sem interrupção, sem fim; embora nem em meus sonhos eu imagine que exista na Terra um lugar calmo para o nosso amor, seja na aldeia ou em qualquer outra parte, e por isso imagino um túmulo profundo e apertado onde fiquemos abraçados como se fosse com tenazes, onde eu esconda meu rosto em você e você o seu em mim e ninguém nunca mais nos veja.”
                  Kafka nos coloca em suspense, em suspenso, como se o ar que lançassemos para fora na sua curta expressão e comunicabilidade nos ventilasse tanto o corpo causando náuseas. Aquela senhora elegante, chefe de uma renomada instituição pública, no seu salto e posto altos precisou no mesmo dia lidar com dois dissabores: Kafka e o menino do vidro. Ficou mais tempo no café que de costume para ver se aquele menino desaparecia, abduzido por uma miséria maior que a dela própria. Teve sentimentos confusos sobre o amigo que lhe presenteara com aquela aberração literária que em nada lhe ajudara a refletir sobre sua atual posição. Como chefe de um importante setor público via seus subalternos se degladiarem, às vezes aos berros e pequenos empurrões, até mesmo por insignificantes pequenezas. “Não se fazem mais homens públicos como antigamente.” Pensou. “Meu pai sim foi uma grande figura pública. Hoje só vejo ratos e ratoeiras cada vez mais apertadas.” “Que leitura inútil!” E ali determinou que nunca mais voltaria a perder seu tempo precioso com um presente daquela natureza. “Espero que ninguém nunca mais nos ache.”
            Resolveu entrar no Shopping para refletir sobre as novas demandas da América Latina. Na mesa do café o livro de capa à sombra sofria o revés do abandono, mas não mais o pesadelo da incomunicabilidade. Havia tanto humor melancólico na descrição daquela indiferença humana.
           Abraçou-se ao xale naquele fim de tarde fria. Não olhou para trás. Mas do outro lado da rua, uma mão abria com rapidez a porta do café, o vento desfolhara o livro marcado na última leitura daquela distinta senhora. A mão o segurou, abraçando-o contra o peito. Era o menino do vidro correndo pela rua afora. “Pra onde ela foi?"


Patrícia Porto

quarta-feira, 26 de setembro de 2012

Mister Bussinger.

Matheus Lopes

Eu até sabia quem andava comigo.
Um dia de golpe de chuva
deserdou minha risada vazia. Brava gente!
Meus dias de pintar o muro e a cara.
Money for nothin' and chicks for free...
Meus oitenta eram cheios de dentes, plásticos
e eu nem era mais burra.
Minha cabeça tava oca numa oca, mas era una a oca.
Malabarismo de dorso: a haste e a bandeira
- em punho - o punho a frente, um dedo pro céu de sentença,
meu vinil do pink criando veias, o mundo no girassol...
Minhas fagulhas de amor por ele, eternas,
minhas verrugas de ideias.
E tudo fluído, absurdamente leve.

Patricia Porto

sábado, 22 de setembro de 2012

Livre?


O espantalho

a solidão
feito velho catavento
catando a precisão do acerto,
mordendo os anos da espera pelo capim. Vivo?
Despedindo-se também lentamente
como quisesse guardar os últimos sons:
batidas do coração: num outro;
olhares de espelho...

Entrou na rua profunda. Espanto?
  Notou no núcleo interno a imensidão do guindaste. Morto?
A nudez os aguardava, a ele e a todos - do outro lado -
o outro lado que é o mesmo lado moendo.
Passarinhos nos ombros.
Atirou-se do perfeito ao infinito: Livre?


Patrícia Porto

Christian Boltanski, "Personnes".
Installation view at 'Monumenta 2010.

quinta-feira, 20 de setembro de 2012

Do tempo à flor.

 Imagem@ Silvia Machado, Dança contemporânea: "corpo erótico", criação de Carmen Gomide. 

                                                                                                                              
                                                                                                                    a gente sempre acha...

É lá onde me perco
- entre fugas e pés.
E no corpo
do rio, no-além-grão,
vão compondo-minhas mar-gens.

Lá onde a vida curva,
movi-menta a mente,
me cura-o-ventre
da morte: a lúcida?

A lucidez da louca
é que me escapa ao vento
- me enche de agonia tola,
me castra a fala.

Vou pisando...
E lá onde suas águas sujam,
líquida do corpo em espaço
deixo minhas mãos e pés no tempo,
aguando, sujando os dedos,
desfolhada a alma...

Perdoando os crimes
que não cometi...

Só planejei.

Patricia Porto

terça-feira, 11 de setembro de 2012

segunda-feira, 10 de setembro de 2012

O trem das coisas.

Imagem@ Horst P. Horst.



A gente perde o ônibus,
os óculos,
o trem das coisas.
Não o amor.
O amor se vai,
se es vai,
des via,
       desfia a teia...

O coração é que abisma.

Patricia Porto

sexta-feira, 7 de setembro de 2012

A vida é flor.


Imagem@ JucaFii ( http://www.flickr.com/people/jucafii/)

Meu pai me disse:
_Vai, pega o prumo da vida!
...Minha mãe me disse:
_ Vai, a vida é dura!
Meu amor me disse:
_ Vai, cria suas condições!
Ninguém me disse pra ser gauche na vida.
Ninguém me disse: _ leve, vai leve, Patrícia,
pisa devagar que a vida é flor.
Vai, flor, Patrícia, que a vida é sorte.
Vai e sente a vida, que o tempo é bom.
Vai e mergulha, que as raízes são doces.
Vai e escuta os sons, os sonoros da alma,
que o agora é o pleno e a paz te sorri.
Ninguém me disse, mas eu ouvi sussurros assim:
... há tempos há tempo...
Ouçam... minhas crianças,
meus filhinhos...
A vida é flor,
é flor!

Patricia Porto

segunda-feira, 3 de setembro de 2012

Película.


Imagem@ Sally Mann, Ponder Heart.


foi só de mergulhos
dos pés às pontas
nesse corpo de beb-er er-ros,
de mergulhar pedaços do mundo insano
na carne in-sana.

os mamilos afogados
estão para germinar
num gole de espera:
a extre mar o amor.

pra molhar extrema-idades
maculadas, loucas, eu deito fora
o medo
e aninho dentro
a vontade de súbitos
abs-mares.

luvas de pelica cobrem mãos que
tateiam e bebem esse golpe em duplo cálice.
orgia entre palavras que só dizem sempre
- “não”?!
“Não?" Não!
Seja minha prenda,
minha segunda pele,
meu último en-canto,
meu quintal,
minha queima,
e me a-prenda...

por que preciso me armar-de-ilhas?

para tocá-lo o nu
entre meus seios
guardados só para intentos
e fins tão mal ditos
eu te preciso como nunca!

mas eis que o Tempo,
o tempo que é Corpo
é corte,
é gula, cega,
engole a vida de Cronos,
- engole adornos de comunhão:
minha pele nua em riste
é frágil, tão frágil,
do frágil
é onde amornando vou
o céu e a boca,
da boca
seguem livres
entre mãos, minhas mãos
de papel, entre o sal da rotina,
o suor de sua marcha!

molhando a trilha
na rua que segue em riscos
a calcinha
molha as horas,

meus dedos
de pelica
- de sentir
piedade -
tecem solidão
e o íntimo
na super face
trans-borda
trans-forma
a superfície

da pele,
a película
na ponta da Língua...

Patrícia Porto