terça-feira, 28 de agosto de 2012

na Flor sagrada.




Os meus pés se confortam com os úmidos da floresta...
Não meço com métricas minhas verdades meias,
nem mesmo de minhas mentiras tiro metades medidas.
Prefiro alcançar pelo abismo o amor: o único,
vestido de natureza indistinta, pasmado de aconchegos.
Atravesso pontes sobre os rios e não dou conta ou destino dos desvios,
meus pés se acalantam nas sombras, nas folhas desarrumadas da família,
fazendo desalinho e poema.
São duas flores brotadas na terra, aquecidas no barulho do tempo,
levando, distraídas, o fruto mesquinho ao chão.
Vão ao encontro do mundo, da morte, da força que nasce serpente.
Assim atravessam o pântano, a crise, o medo do sozinho:
renascida das flores, entre o beijo da manhã e o encurtamento das horas,
não ouso andar ou nadar contra o passado, e me abasteço de cuidados outros.
Na frente da casa, porta aberta, figos na tigela alva, noite morna chega e vai:
outro dia, outra chance, outra vida, outra fresta. Viver.

Patrícia Porto

domingo, 26 de agosto de 2012

Um poema síntese.

Imagem@ Sarolta Ban.

Um poema assim:
paródico, póstumo,
na pista para negócio.
Passado de mão em mão,
instantâneo como sopa de saquinho:
abre, ferve, não geme e finda.

Patrícia Porto

sexta-feira, 24 de agosto de 2012

Pulsos e Bacias.


Imagens@Sally Mann.


Precisava hoje de mãos
para amansar a loucura
e amassar o pão
do mesmo fel do joio

de Mãos para romper
em dia as noites que fiz
com doses de beber ventos

para aquietar o inferno
de memórias quentes
de um volumoso mergulho nos rios
mudados de curso

Mãos lavadas
para tocar o corpo inerte
quase entregue ao prazer
antes de sua morte triste

para louvar todos os deuses femininos
que inventei

para exumar
desencarnar
o ódio
e o riso
E todos os ofícios
da violência
E todos os ossos do limbo
mastigados sobre a mesa

Mãos
para estancar
de dentro o mar
de sangue
a porra toda
a vida doce
a sanha o teto
as carnes

Entre dentes
o fervor vaginal
estupor, o tumor
de intentos e os insetos
os cães famigerando
esfomeando,
farejando: a menina
as laranjas cortadas em quatro,
as flores e os bagaços,
os anjos pendurados
para não sentir dor
para não sofrer dor

nossa senhora,
mãe de todas as rezas matinais
"me livre desse mal"
Do teu manto
desesperanço:
a santa é surda

Mãos de dentro
dentro
onde tudo dói
dói o mais

Crucifica
existir fora

Insistir, pai
dói demais
te parir, pai,
puta merda,
mulher de mim
todos os dias
sem nenhum pau
advento ou luz
só com meus pulsos
tua rinha
teus galos
e as galinhas
que tia Marta mata
tranquila
nas bacias

Doeu tanto existir, pai

Patricia Porto

sábado, 18 de agosto de 2012

Palhaços no meu jardim

Imagem@Rafal Milach_Disappearing Circus.


Para os que tão pouco souberam amar,
ou não souberam amar,
os frios, calafrios, os finos da loucura,
os fracos de coração e juízo,
os que morreram de amor e camélias,
os que escolheram caminhos tortos a seguir,
os que sucumbiram à dor e disseram basta,
os que tiveram todas as horas estúpidas pra contar e perder
- e perderam...
                          às Todas dobras possíveis de tempo sem direção -
os cantos, os becos, o imponderável dos vazios, as memórias fabricadas,
a imensidão da lógica, o amor, os dia de calor e cálculo,
os Vazios do quadro, os vazios do pensamento
-  e os plenos de possibilidades e desejos...

Aos sem paradeiro, os de famílias desorganizadas, 
os que fracassam por tentativa extrema:
pouso de pausa, encontro, o silêncio da solidão acolhida,
um sopro que atravessa a arte -  bissexta.
Aos contraditórios, sujos, desequilibrados,
os retirantes, vagabundos, vadios, confusos, 
os que viveram sem o cunho da elevada moral,
os sem ambição, sem pedigree,
os vira-latas, os  indecentes, os sem berço e nem cuia,
os transeuntes de sorte madrasta,
os tontos em exercício e os excêntricos de profissão,
os grotescos, os apaixonados:

os Vazios do sentimento a preencher,
a Beleza de face adversa,
o tombo da água
no parto do mundo
O outro a espera sedento
e o grito do Novo
numa entrega sem fim

Patricia Porto    
  

sábado, 11 de agosto de 2012

o Perfumado

Imagem@ Henri Cartier-Bresson

porque trans borda

Deixa ir...
o passado
o fantasma em declínio
as vozes desse hospício
onde enjaularam a tua mente
suave até o permitido - sutil
no permeado de afagos urgentes
na penumbra, na turva lente -
por onde mal viste do pendurado a forca...
Deixa ir...
é tarde o fruto é podre o miolo do pão
é frágil a casca da espera
é tonto o carrasco que te apedrejou a testa
e é fútil tua fuga em demora...
Deixa ir...
as fotos do antigo, os objetos de prata
as ofensas de má dicção
os dentes de leite
o leite da mãe
o ninho doente da mãe...
Deixa ir...
o veto do pai
o cuspe do pai
no prato que o filho comeu
e esbanjou...
Deixa ir...
os móveis de ocasião
os cristais estilhaçados
a ruína, os arruinados
que te espelham e abraçam...
Deixa ir...
o anel que te sobra do dedo
o gatilho que te cobre de medo
a imprevisível armadilha do mundo
que te chama amor...
Deixa ir...
abre espaços no estreito trajeto
compassando a dor de outro plano
compensando de amplidão o teu passo
e o que foi te tirado de feio e belo...
Deixa vir...
de tão tempo doido, doido tempo o perfumado

Patricia Porto