segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Por que não te direi palavras hoje?

Imagem: Win Wenders.

porque não te direi palavras hoje
devo agora planejar:
um plano de fuga, escape,
uma saída para o espelho.

o espelho que me deste era de vidro
e me quebrou...

talvez nos reencontremos
se for pelo bem da memória -
essa passagem escancarada pro todo.
mas saiba que eu não te direi palavras,
recuso-me mesmo a sussurrar
minhas dores de extinção.

deixarei gravado o vazio da travessia,
o oculto da travessura
que guardei entre.
Basta quebrar a janela: dentro, e revelar,
porque não te direi palavras nem silêncios lúgubres
- hoje e sempre
não te direi sequer o nada que escapa ao erro. Erro.

Patricia Porto

sexta-feira, 11 de novembro de 2011

Subterrâneos

Imagem: Cameron Gray



A recordação tem frente e fundos,
                É tal e qual uma casa;
                Ela tem também um sótão
               Para o refugo e o rato.

(Uma centena de poemas. Emily Dickinson.)


atravesso a ponte para buscar um rosto
coloquei  minha voz para quarar no anil
onde as rosas da mente não as podem podar
planto a cada dia uma outra chance de janela
e não me canso tolo de sofrer reveses
sou subterrâneo  de minhas superfícies
deixo  a água sempre limpa para que os cães bebam
e vou lá fora anônimo com capa de chuva
recolher os meus pedaços no jardim

Patricia Porto

domingo, 6 de novembro de 2011

O cronista em cena: eis a questão.

(O cronista em cena: eis a questão.)

Essa mania de dividir, classificar, rotular as pessoas, as coisas todas... É um novo toc coletivo. Um vício de linguagem, da linguagem que oprime e segrega. Disse o filósofo, “temo que não nos desvencilharemos de Deus, porque ainda acreditamos na gramática”. Temo que jamais nos desvencilharemos de uma gramática que mata de fome um sujeito sobre quem se fala alguma coisa e que vai guardando seus ossos de relíquia no exagero do esquecimento. Temo que, por desgraça e rigidez, essa armadura inviabilize o êxodo desse  tipo de domínio, de um discurso que entende que você e eu somos sujeitos e que, inevitavelmente, morreremos sujeitos no imobilismo dessa distinção do ser, julgados e separados sem ambivalência.
Vou dar um exemplo. Você entra no elevador e lá está escrito “A senhora Maria da Silva Pereira não é mais funcionária do prédio.”  Duas questões graves. A primeira questão é a falta de privacidade que nos torna todos vitrines de vidro extremamente desinteressantes. Uma mania  de limitar o ser quando dito por outro.   A segunda questão fica por conta do uso e do abuso de dizer que Maria está expressamente demitida numa vitrine de vidro.  Maria, Maria da Silva Pereira está demitida. Maria não é mais funcionária do prédio. Maria não pertence mais ao quadro de funcionários. Maria está no olho da rua. E ponto. Quem é o sujeito? Ora, o sujeito é a truculência, a brutalidade do cuspe. A boca que classificou o sujeito dessa frase cospe em nossas caras com escárnio. E ainda coloca Maria na condição nominal da fila do auxílio desemprego.  Maria não é mais. É menos. E é mais uma. 
Hoje pela manhã eis que um cronista, que anda sempre desavisado, se deparou com um papel de carta no prédio em que mora, um papel que anunciava que Maria não estava mais lá.  No elevador “social”... Será o outro anti-social? Mas lá no elevador social tem uma espécie de mural de avisos de vidro onde um homem baixo e de bigodes que se assina “sindico” coloca mensagens, informações e bizarrices.  Na coisa envidraçada até mesmo um aviso de dedetização espanta com seus ratos baratas e cupins, todos escritos com caneta vermelha: "faça agora!" Quem inventou esse pombal chamado prédio, edifício, condomínio, de certo não poderia imaginar a solidão que essa gaiola causaria à humanidade. Uma grande jaula humana boiando na cidade vertical. O cronista sente-se mesmo como se morasse numa espécie de ensaio sobre novas cegueiras: a senhora do quarto andar, a menina dark do quinto, a outra menina, a vizinha, o médico do sexto e a mulher do médico...
Mas ali, em pé, diante do evento escrito no elevador, o cronista não sabia, ao certo, se ria ou chorava. O aviso apenas dizia que Maria "não era mais". E  por, quem sabe, ocasional e mera bobagem, trazia no mesmo papel de aviso a imagem singela de um beija-flor azul. A contemporânea invisibilidade de Maria fez o cronista amar loucamente o beija-flor azul: tão preso, livre, solto, subindo e descendo de elevador, numa espécie não tão rara nem tão extinta de angústia, enfeitando a despedida de Maria, numa transgressão estranhamente ilógica. O cronista, num gesto totalmente súbito, rasgou o papel e roubou o beija-flor para si.    Quem era a Maria? Fez então seu jogo de quebra-cabeça. Maria era a pessoa de sorriso largo, essa coisa rara e em extinção. Maria tem Ana de filha e dois netos que moram com ela. Criou e cuidou de três irmãos no interior de Minas, e fez tudo isso sozinha, porque "mãe e pai morreram cedo e não deixaram tostão". Maria que namora o Geraldo e que vai pra seresta cantar "música de qualidade". Maria, aquela que não leva desaforo pra casa, que não tem papas na língua. O cronista pôde assim sorrir de lembrança ingênua.
Sobre Maria, o síndico disse ao cronista: "ela não é mais funcionária do prédio" nem no nome nem no pronome. E disse mais: "ela não sabe o lugar dela."  O lugar dela. O lugar do sujeito dela.
 E o cronista coçou o queixo, como se fosse muito inteligente, e perguntou ao vazio: e se o sujeito sempre tão determinado quiser um dia cobrar as favas contadas de seu ressentimento? Em tempos de guerra todo sujeito é inimigo de todo sujeito?  Em tempos de guerra, nosso sujeito desconfiado voltará correndo para trancar portas, guardar seus pertences nos cofres e armários? E a vida prosseguirá como sempre? Miserável, bruta e curta? Miserável, bruta e longa? Sim, talvez, como bruto, miserável e rude é o verbo que separa o sujeito em duas espécies de homens: os que são e os que não são.  Sim, Leviatã sempre poderá vir nos assombrar com seus sujeitos sujeitados. E se crescer assim, de repente, comendo, mastigando nossas carnes, se refestelando com as gorduras do nosso ódio, da indiferença, a mesma que nos faz prosseguir mesquinhos ou tolerantes, tolerando os outros em soberba e superioridade, comeremos Leviatã no espetinho.  Humanos e desumanos. Vizinhos sem nome, morando no mesmo prédio-Terra onde Maria hoje é o sujeito que não é. Mas se as margens seguem violentas aprisionando o beija-flor no papel...

Patrícia Porto

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Todos.

mar de recifes,
destino seco.

e aquela linguagem de louças e letras,
protegida pelas mãos da babá francesa,
toma seu banho abissal
de boas paragens...

poesia, arte do povo.

o povo, vestido de fábula,
vestido de dom sebastião,
vestido de corpo nu
não sabe da poesia
o indelével dos que preenchem prateleiras
mascando chicletes de menta em seus gabinetes,
vestidos de farda,
vestidos de ouro,
de cetim do oficio.

o poeta do povo mal sabe,
mascando famintos de duras paisagens.
empalita os dentes, escreve durezas e doidices 
de rapadura pagã 
e come e soberba a carne do mundo
até o gargalo.

o gargalo é o sem corpo.

e o poeta do povo é um habitante só
que migra.


Patrícia Porto   

sexta-feira, 28 de outubro de 2011

terra partida


Amo-te
mesmo quando há mor te
do tempo em nós
e o frágil mundo da poesia
ao amor se oferece idealizado.
Imagem: Antonio Brasiliano, Território Poético.

Amo-te onde o sereno é o mar,
mar de revoltas e revoltos ventos,
feito voltas que dou em volta do meu medo
em silêncio e espanto.
Feito um cão mendigando achar-se.
Amo-te nos desafios da certeza
- a que faltou existir, a quimera.
Sou incompleto, incoerente, inseguro...
Estou sempre no mergulho do que é transe,
buscando nos vazios de teus vagos
amar-te a negação, desterrado, 
no desterro da nau que sem pátria
ateia-se fogo e se exila.
Minha terra em partida,
minhas faces perdidas.

 Patricia Porto 

segunda-feira, 5 de setembro de 2011

Sobre os Amantes.

Imagem: Sally Mann

na fase aguda da palavra

agudos acordam
os acordes da voz
- e revelam vestígios esquecidos
de sonoros mundos -
e de dentro, da dor,
se ouve o desejo
que amplia todo duplo que há em si.

na trama, a roca fia a lira
e toca as perdas do advir
feito faca cortante
um tanto cega de corte,
que corta a vida em partes
sem definhar o amor.

dores doentias fitam-lhe
cara a cara, salto a queda,
pétalas caiem sobre
o corpo doce
da palavra po-ética.
agora pele, desnudada,
vive de espanto e existir:
a espantada.

e os dois agora, mergulhados,
vão ancorados um no corpo do outro:
poeta e palavra
- abrigam o dia da mesma criação...
e toda voz suspira: sou frágil...

de longe se pode ouvir
da palavra: viagem ou miragem,
o abandono de toda forma de estrutura.

transbordados sobre a cheia
que limpa e batiza a balada lírica
dos andantes sobre a terra,
dois andantes sobre a água,
cúmplices professam: sim, loucos!
Pois. Deságuas em mim.


Patrícia Porto

sexta-feira, 2 de setembro de 2011

Bicho Cabra.

Imagem: Pierre Verger
.


O bicho cabra tem nome.
É forte como quem tem no coração o sentido, o tino e o fazer doer,
faz chover suór, queimando de sal as lágrimas do chão.
É brasa, é brisa, é prumo perdido,
perdido o sereno no sumo do tempo,
batido no vasto ventre da barriga de todas as mães.
É cobra, veneno de terra correndo vento,
abrindo o bucho da vida a foice sem castigo.
O bicho cabra tem nome,
tem fama de maldição,
tem pressa, tem fumo e reza de parteira benzedeira,
tem morte a espreita de um corte que lhe apeteça,
corte que abra em rios os rachados da mão,
os calos da mão, os calados da mão.
Tem nome de demo, de dente afiado, de peste na brasa da escuridão,
na vasta lombriga de menino que é anjo antes de homem,
que é bruxo antes de santo,
que é visagem, bestagem, tudo mais.
Tem nome nos obscuros, na prosa escondida, na seca da língua,
sem fé, faminto destino tem nó na vingança,
tem estrada fechada de abismos,
tem troça de gente que ri da desdentada sanha de seu povo,
tem troço esquisito, tem um tambor que toca o silêncio,
no vasto e infinito da queda de um só: o peito batendo.
E batendo vai.  Espreguiça, envergonha, entristece
e se mete a fazer paisagem de sonho,
na rede, na trama, no barco, no berço da nossa cidade,
o cabra tem nome de gente e de guerra,
o cabra é o verbo f:aminto
Nascendo da pedra, duro de tanto nascer de novo.
E a terra é sempre o seu mesmo desterro,
seu tempo de cuia, seu fim e começo.

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Meu Brasil entre tons e dissonâncias.

Darcy Ribeiro, 1948, Mato Grosso.


                            Tenho andado numa ressonância frasista esta semana. Acho de uma inteligência "chic" esse poder de síntese, eu não sei dizer nem o óbvio em cinco palavras. Que me perdoem os meus colegas, poetas contemporâneos com suas tesouras antenadas, eu me esparramo pelo chão. Por isso estou sempre ou com uma trilha sonora na cabeça, minha paixão explicita pela música; ou com frases de outros a rondar meu pequeno mundo. E aí tem dias em que acordo tendo como lema a conhecida frase do Tom Jobim, o nosso tom: "Viver no exterior é bom, mas é uma merda. Viver no Brasil é uma merda, mas é bom”. 
                            Acredito que cada um de nós à sua própria medida ou desmedida passe duas ou três vezes por semana por esse sentimento que diz e clama lá do fundinho mesmo: “o que eu estou fazendo aqui, neste lugar?!” Que país é este, afinal? Rico e miserável em contradições. Acho que Belíndia já caducou.
                         Estatísticas não mentem, são como cartas de tarô.  Descartes não tinha ideia da persona que criou. E olha a rima! Olha a rima que dá!  É claro que avançamos muito, companheiros, e os números estão aí, de fato, comprovando que a pobreza vem diminuindo, basta olhar os números do ilustre economista Marcelo Neri e dos Institutos que são realmente sérios. Não estou sendo irônica. É fato! Estamos saindo da imensa pobreza e é pra valer. Que nos confirme o Fuleco!
                      Agora, da miséria ou do nosso velho miserê devo confessar que tenho cá minhas dúvidas - e dívidas à balde pra desmentir. E o que sei (nada sei, perdoem) é que desse imbróglio todo, uma pergunta teimosa resiste e não quer, mas por nadinha, calar: "se avançamos tanto por que os tantos retrocessos e a tanta desigualdade?" E o desconcertante retrocesso ético? Como fica nessa lista? Como lidar com esse “pepino” interno? Ah, no meu não, camarada!
                  É paradoxal mesmo. Lembra um pouco aquele jogo de corrida de casas que a tua tia te dava de presente de natal, quando não era meia: vai, meu filho, avance! Ah, agora retroceda não, volte duas, três casas. Quer saber? Volte ao início e comece tudo de novo que é melhor negócio... ou deixe-o, saia do jogo!
                  Não sei vocês, mas eu já pensei algumas boas vezes em arrumar minhas malinhas e ir pra um lugar distante, pra um desses países gelados que prometem oportunidades e são campeões em qualidade de vida. Depois pensei na frase do Tom e na minha bronquite, e desisti. Penso dois segundos por mil vezes. E fico no assobio do samba do avião, resignada... Tá legal, eu aceito o argumento.
                O que eu iria fazer com a minha língua que é pra mim saída e entrave. E o Brasil é bom, vai...  Olha as nossas praias, o futebol... Não temos guerras, homens-bomba, vulcões, tsunamis... E aí vai ficando quase impossível não esparramar pra tal piadinha batida da criação do mundo. E o todo poder dizendo: “Você vai ver quem eu vou colocar lá.” A lista da ficha suja é realmente longa e histórica, vários congressos, organizações, departamentos cabem dentro dela.
                 Sobre não ter guerras ainda duvido.  A nossa usual estatística de homicídios entre jovens que morrem antes dos vinte e tal – sempre teima em pregar peças. Mas segundo os novos índices, diminui pela metade de 2000 para 2010. Sei não... Devem estar torturando uns números. "Cala boca aí seu cálculo de merda!" E tome tapa na cara de mão aberta.
                E quem é Collor? Maluf? Zé Dirceu? Não seriam também homens-bomba? Outro dia ouvi um repórter falar que estava acontecendo um “verdadeiro terremoto político” em Brasília. Talvez a nossa natureza seja realmente outra já que estamos extinguindo aquele povo que era do verde, usava cocar e era real, e isso juntamente com os caras pálidas que a protegem, farinhas do mesmo saco das coisas que permanecem no reino da impunidade. Ah, mas tudo bem, eu também me ufano do meu país! Afinal, como esquecer gente bonita brasileira, de pele bronzeada caminhando rumo ao mar? Também disse o Tom sem perder o tom.
              Parafraseando meu poeta conterrâneo:  "minha terra ainda tem palmeiras, basta ouvir o sabiá". E se sabiá de lá não gorjeia como cá é porque virou raposa.  Mas nem por isso podemos esquecer a cidade maravilhosa com sua geografia encantadora. Dá para sublimar qualquer paranoia - com certeza. Basta não pegar ônibus, nem trem, nem metrô, nem táxi. OCa  
             E se for de carro, a pé ou bicicleta basta torcer bastante pra que não chova, ainda mais se estiver na Praça da Bandeira, perto do Maracanã. Basta torcer pra que não role um feriado prolongado quando você estiver sem grana pra fugir e torcer de pé junto pra que – nem com a vaca tossindo - se precise contar com algum serviço prioritário, tipo esses dos hospitais, dos bombeiros ou da polícia, todo esse povo deixado à míngua por esse Estado de coisas. Ah, vai, dá para sublimar sim e se rolar uma grana talvez se consiga até uma boa solução miliciana que resolva qualquer caso.

O que seria então “o melhor e o pior do Brasil”? Lanço esta pergunta como desafio de resposta aos leitores dessa crônica. Será que daria para pegar um gancho na Carta de Caminha? Falar de índios, queimadas, destruição se hoje somos a sétima economia do mundo e temos o oitavo milionário da Forbes? Não sei não, de tanto a gente ficar em cima do muro, ele já está maior que a muralha da China. E pra não dizer que eu não falei das flores... E a juventude, as crianças com tanta sede, fome de aprendizagens, de perspectivas de futuro? Sem dúvida, o melhor do Brasil. O pior é certamente a educação que eles continuam não recebendo como um direito legítimo, como fatia principal de dignidade pra se viver em cidadania.

Pressinto que ainda vou continuar por um bom tempo a ser perseguida pela frase do Tom. Brigo na padaria porque o pão veio queimado e o troco errado. Brigo com a caixa do mercado que me cobra a mais na conta e ainda me olha de cara feia. Brigo com o banco que cobrou tarifas indevidas. Brigo com o técnico que veio consertar minha máquina de lavar e me esfolou o bolso pra pagar a rebimboca da parafuseta. Brigo com o vizinho que colocou o carro da sogra na minha vaga de garagem. Brigo com o sujeito que por pouco não me atropela em cima da faixa de pedestre, estando o sinal fechado pra ele. Brigo com o atendente da minha operadora de telefone – e “xingo” e grito! Brigo com o cachorro que não pára de latir no meu ouvido e nem é meu. Brigo, brigo, brigo... Uma merda!

O Brasil tem tantos tons, camaradas... Agora deu até vontade de assobiar uma marchinha. Pena que seja a fúnebre a apropriada. Mas vai... Cada música, cada tempo, cada dia segue com a sua dissonância... É bom.



Patrícia Porto

domingo, 22 de maio de 2011

Nove luas de Luiza.

Vários, Gustav Klimt.

O amor sorriu acolhimentos,
alimento de mãe que aninha o coração.
O som-silêncio de chuva,
toda conjugada a doar,
e esperar, e crer...
Nove luas tão cheias,
Menina-mãe dos meus olhos,
luz-farol pro vento frio da vida,
luz que acende a casa e o porto
de todos os elementos em grãos.
Nove luas de Luiza,
novecentos motivos e maneiras
pra viver de novo a embarrigada do tempo,
pra cantar o azul das águas de beber
e dividir a direção em muitas.
O Amor sorriu, calmo, beirando respostas
de mansinho, paciência...
colando estrelas num desenho de criança,
eu vi de perto nuvens, cavalinhos, arco-íris,
uma floresta de árvores de maçãs
e um sol de raios guardando todo um sonho
que eu vivo acordada, enluarada,
amada, amando em duas.

Patricia Porto

quarta-feira, 4 de maio de 2011

AniversáRIOS.


Imagem: Henri Cartier Bresson, Armenie, 1972.



Um ano se iniciou.
Para quê?
Só tu bem sabes - e tua casa, tua varanda aberta
para a janela do mundo e do assombro!
Assombra-te então!
Lança-te a desconhecer de tudo
sem poupar nenhuma pele,
sem ornamentos ou prisões.
Gasta horas, dias a descobrir de todos - como o riso -
feito criança a compreender essa gente que se encanta do fácil.
Lá na chegada do tempo da reinvenção,
se pode avistar uma mão acenando
para o teu regresso e ida ao encontro de:
novos (velhos) sabores,
novos (velhos) desejos,
novos (velhos) sentidos,
novas (velhas) partilhas -
de ti (surpreso) no mundo imerso
- teu corpo inteiro,
- tua alma imensa.
Teu corpo humano é de rosas e pomares,
doçuras de uma nova estação de promessas.
Abraça! Celebra! Mergulha!
Peca de esperança a festa dos teus sonhos!
E diz pra aquele menino lá atrás, te acenando de voltas:
as palavras secretas que te fazem nascer de novo.

Patricia Porto

segunda-feira, 14 de março de 2011

O Tempo fora da caixa.

                    
                                 
                      O Tempo fora da caixa.

                      Vinte anos. Ela e o sinal de trânsito frente a frente, as luzes mudando de cor em segundos contados num letreiro: menos 30, menos 29, menos 28... mais 28, mais 29... Alguém a olhava. Sensação de perturbação. Sensação de perseguição. A terapia, depois de anos, poderia ter ajudado e agora pensava: talvez não tenha sido suficiente, precisava demais. Sensação de vigília e olhares de busca. As mulheres sofrem mais de síndrome do pânico, leu numa revista feminina. Mas, calma, disse pra si: a mulher não há de ser para sempre a culpada por ter criado o homem a sua imagem e semelhança. Ela não é Deus, se ele é masculino. Em segundos o sinal a abriria. Não, não olharia, essas sensações não passavam de tolos pressentimentos, que segundo o analista, só geravam mais ressentimentos e isso já nem contava mais. Só olharia em espelhos de autoconfiança. Uma ciência descoberta: a mulher que se aceita é a mulher que se ama e é preciso amar a si mesma antes de amar os outros. Sim, ele estava do outro lado, mas ele era o outro, o inferno como se sabe. Em tom cada vez menos grave não ouviria ou haveria mais na concha os vestígios dos anos que quase a consumiram com pílulas e receitas de felicidade. As mulheres tomam mais antidepressivos, isso lido numa revista de consultório, pode até parecer trágico. Não é. Calma, o demônio também está no masculino. Muito compreensível. E se a vida vem em câmera lenta, basta canalizar sua energia para o alto. E assim criar a sua própria subjetividade, identidade, singularidade, pense: circularidade. A respiração, quando aprendida pode-se ouvir, não importa que o ar esteja contaminado, que o vidro esteja fechado e que se tenha rugas de expressão para tirar. E se ouvir a respiração dele, machuca, bem perto da nuca, como uma arma pronta a disparar: não pare. Pode ser sempre um assalto. Não olhe para trás!
                    Mas, quem disse, se não resistiu e olhou?! Era o passado com as chaves na mão! E ali mesmo, na gangorra da vida, começou a sentir seus pés virando sal. Tão bem vestido o passado com seus olhos de sempre, talvez um pouco mais calvo, mais velho. Um demônio masculino. Sim. O tempo havia passado para todos, havia passado para ela. No rosto dele cicatrizes desconhecidas, sombras em luzes nunca antes vistas. Ele sorria. Para quem? Será que pôde reconhecê-la? Será que devia? Sentiu o cheiro do sal, a maresia subindo as pernas, a praia que nunca puderam ir, as mãos dele, os dedos longos... As mãos de Deus sobre o volante. Lembre-se: as mãos sobre o leme. O Leme. Lembrou do mirante. Os fogos. O Rio lindo. Aquelas férias incríveis. A brisa quente. O tempo morto. Não lembre! Uma bossa tocando. Era Tom Jobim... A música dentro de um presente abafado onde uma bailarina dança. Cuidado, há perigos na esquina...
                 27, 26... Vinte anos. Mas ela estava tão bem com seu namorado mais jovem, seus filhos numa universidade estrangeira, as amigas e as tardes de sexta para rir e conversar sobre notícias, fotos e pessoas instantâneas. A cidade quente e os meninos malabaristas na linha do asfalto. O menino e o nada a fazer. “Esse menino tem cara de fome”. Pensou: se fosse mais altruísta, poderia construir sua própria solidariedade. Sentiu o desejo imenso de romper os vidros de ambos os carros e perguntar: “por onde você andou? Fale dos anos que não vivemos. Sua mulher, os filhos: como estão? Sua vida, por onde foi?” O passado e o sal. E o sol da tarde se esvaindo. E a fumaça, e o calor, e o menino e os malabaris: bolinhas de areia. Mas ela estava protegida da cidade. Protegida contra o tempo e sua voracidade, e sua feracidade e sua fugacidade. Ela protegeu-se bem, acumulando defesas. E voltaria logo para casa para se trancar em seu quarto com cremes e revistas de decoração. Assim se distrairia de qualquer pequena e sempre triste profundidade. O tempo cairia em fatias sobre seu travesseiro de penas de ganso e ela esqueceria, compondo sua própria positividade. Havia desenvolvido uma arte para o esquecimento. Ou seria uma técnica?
               Vermelho. 3,2... O menino no sinal. O menino e um grito. Seu. Para dentro? Não conseguiu abrir a janela, embora moedas brilhassem perto da marcha. “O menino deve se virar com aquela cara de fome”. Olhou mais uma vez. Alguém buzinava atrás. Precisava ir. Não. Não abriu o vidro, não viu o homem, não viu o menino, não fez nada. Eles haviam sumido. Ambos: o passado e o futuro. Deus e o Demônio. O tempo e suas molas voláteis abrindo-se feito uma caixa de Pandora. Meninos malabaristas poderiam ousar sair de dentro dela. Mas agora estava protegida, mãos enormes a fechavam de novo. Mãos de um clown.
                Um sinal: Verde!

Patricia Porto

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

Lilith e os Pássaros.

Imagem: .Edna Romero (b. 1988, Mexico), "Libellule".
"Asssim dizia Lilith:
Por que devo deitar-me embaixo de ti?
Por que devo abrir-me sob teu corpo?
Por que ser dominada por ti?
Contudo, eu também fui feita de pó e por isso sou tua igual.”


                  Gosto das frases feitas e dos clichês do uso coloquial da linguagem. São pensamentos comuns que tem como critério de autonomia a espontaneidade e o anonimato. Vão sendo costurados ao longo de camadas e camadas de gerações até aparecerem assim – dos vários nadas – dentro da nossa voz. A nossa voz que carrega tantas marcas coletivas geradas ao longo das permanências e das mudanças da língua. Pois uma língua viva é feita de mudanças e resistências. Não há palavra feita de voz que já não tenha sido dita um dia. Por isso admiro os adágios e os lugares comuns da linguagem, porque colocam à prova a nossa pretensão de exclusividade de pensamento. Por vezes formulamos ideias e formas de dizer algo, um algo que nos incomoda, fere, prejudica e não conseguimos comunicar, somos prolixos e inexatos. Daí os  verbetes, as expressões feitas, aquelas velhas frases populares que aparecem e transpassam da nossa voz a tal carga de intenções, imagens e  estereótipos... E essas expressões podem até mesmo romper a barreira do que consideramos mais sofisticado,  sintetizando toda uma formulação de pensamentos sem freios.
                Costumo sair às ruas sempre com os ouvidos atentos para não perder o volume de frases soltas, libertas como os frouxos da linguagem. E as coleciono quando posso. Registro não como fóssil da língua, mas como uma das narrativas da língua. E foi assim, numa garimpagem de passado e presente comum, que outro dia registrei várias frases surgidas numa conversa informal entre duas mulheres que se queixavam da vida: “pois é, porque a pessoa só dá valor quando perde...” ; “em terra de sapo de cócoras com ele”; “dizem que a panela velha é que faz comida boa”; “mas gado gosta é de pasto novo”; “o galo devia jantar onde canta”; “o galo enche o peito, mas é a galinha que põe os ovos...”; “uma pessoa sem sonhos é como um pássaro de asas quebradas...”, “ele bem quer voar, mas não tem asas...”, “em pequena hora Deus melhora.”
             Ouvindo as frases daquelas mulheres lembrei-me de um poema que li ainda no meu tempo de menina a aprender das pedras. Era um belo poema de Cora Coralina sobre as faces da vida.

(...)
O passado foi duro
mas deixou o seu legado
Saber viver é a grande sabedoria
Que eu possa dignificar
Minha condição de mulher,
Aceitar suas limitações
E me fazer pedra de segurança
dos valores que vão desmoronando.
Nasci em tempos rudes
Aceitei contradições
lutas e pedras
como lições de vida
e delas me sirvo.
Aprendi a viver.

             A poesia de Cora Coralina viveu em tempos rudes. Não me lembro de ser uma mulher comum sem o rude exercício de aprender as lições da vida - ali! - cotidianamente - como uma casca feita e posta. E assim como disse uma daquelas mulheres da conversa testemunhada, também tive meus dias de horas pequenas. Dias efêmeros dentro de outros longos e limitadores dias de pouca estima. Aprendi a viver? Inevitável aprender a viver e fazer da vida algo transformador quando se tem a pedra como lição e companhia. Com o passar dos anos e da convivência aprende-se muito sobre as pedras. Aprende-se sobre o afeto que nos foi negado, sobre as falhas do trajeto, sobre as desigualdades dos caminhos mais do que das origens. Aprende-se sobre a condição de ser, a situação de ser, de ser quando se está realmente sendo. E ser mulher, a mulher do dia, a mulher, diria Cora Coralina: “a minha irmãzinha”, requer a sabedoria das pedras. Preparar a vida do amanhã, aninhar no braço sonhos destruídos, abraçar causas desperdiçadas, amar os retalhos, sem aviso prévio ou solidão que seja bonita, requer um desdobramento do corpo e da alma.
                Eu também sei o que é sentir-se como um ser de asas de sonho adiado. E não daquele tipo que é feliz porque ruim com a gaiola, pior sem ela... Mas daquele tipo que não chia nem canta. Isso talvez seja das violências a que mais nos atinja, a violência silenciosa das grades suspensas com ajuda de nossas próprias mãos, a do desperdício do raro, a do silêncio instalado entre o jantar e as coisas sujas que se amontoam na pia. Ali no universo dos pequenos detalhes e das sutis delicadezas a alma de desdobrada pode tornar-se um vulto, uma sombra mera do que se é. Desvalorizada, desqualificada na sua existência, a mulher pode ser tragada nesta armadilha do cotidiano. Pode ser confundida com uma das mobílias da casa, deixada ao escanteio do que um dia pensou ser belo. Presa na torre que a confunde entre a espera e o desejo de mudança, a mulher que entende das pedras, precisa ter a audácia de roubar a chave do seu fiel carcereiro para enfrentar o dilúvio de sua liberdade. Porque tanta liberdade pode matar. Devagar e sempre.
              Livre como as palavras comuns, a mulher liberta de ser um novo modelo, uma grande expectativa ou o plano perfeito criado pelas mentes de seus carcereiros, corre o risco de se tornar a flor sedenta de sol, a flor teimosa que nasce vertiginosamente entre as pedras, até porque belíssimas flores também nascem de solos difíceis. Zelar pelos novos fios que nascem da vida, tecer mitologicamente a sua própria natureza recém-descoberta, fará dessa mulher a vasta existência entre tudo o que lhe foi negado de história e tudo que virá a ser o futuro do si mesma. A mulher que nasce dela mesma, entre a peleja e a beleza de sua esperança clichê, corre um risco imenso de despertar numa plena incompletude feliz.

Patricia Porto

quarta-feira, 19 de janeiro de 2011

Tão simples.


Renda de Bilro, Imagem de Margareth.



Hoje fiz poesia,

poesia de versos quebrados,

quebranto no peito,

alegria bruta no mundo,

um mundo sentido a seco.

E o tudo fez tão pouco de mim.

Sou tão pouco de mim no absurdo desterro

que de meu torto verso

Poesia fez troça, traça e trançado,

trapaças em tranças,

trocou o meu nome,

sujou minha quadra de renda,

rasgou meu pedido no pano

- Vazio, cheio, cheio, vazio...

Pouco senso.

Muito tento.

Nada tenho.

Sou poeta decerto de palavras curtidas,

gasturas no fundo da louça,

de uma obscura delicadeza como

as simples palavras que te digo agora:

pai, mãe, filho, chuva, sol, vida...

Feito a criada das horas,

uma criança faminta

como e oferto do fácil, do digerível – com as mãos:

O Doce de avó, o doce da língua.

Vou cortando por dentro sempre antecipada o pão de todo dia.

Espalhando promessas em vasos partidos, multiplicados.

Engolindo serenos e luas,

consumida de sonhos

vou vagando no tempo,

Temporando um verso aqui,

outro ali...

A janela aberta abençoa de horizontes

a terra e o tecido

por onde sempre borboleta a poesia.



Patricia Porto

Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

Livro: Diário de Viagem para Espantalhos e Andarilhos

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Patricia Porto

Livro: Sobre Pétalas e Preces

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Livro: Narrativas Memorialísticas: Por uma Arte docente na Escolarização da Literatura.

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Editora CRV; link: http://www.editoracrv.com.br/?f=produto_detalhes&pid=3111

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