sexta-feira, 30 de abril de 2010

A Mãe

Imagem: Sebastião Salgado


Mãe,
Mainha,
Minha mãe,
a que acendeu um anjo
na primeira profecia
divinatória.


O ventre da mãe.
A mãe de calos na mão,
A mãe do povo,
A mãe do filho,
A mãe operária,

Os olhos da mãe:
dois holofotes de luz.
Onde estiver eu estarei.


Os pés da mãe,
Os pés na terra,
Os pés de Gaya,
Os pés tão cansados da mãe.


Ela busca a água no poço
e o poço é sempre fundo,
ela mergulha em promessas
seus seios, suas vísceras.
E desce ao Hades
e faz pactos sinistros
com as forças da natureza.


O amor tão extremado
que acolhe e estraga
é da própria natureza.


A mãe, a água, a lagoa,
o mar infinito,
o pó da terra,
o ar e o vento e a tempestade,
o fogo do primeiro alimento
do primeiro homem a vagar sobre a terra.


Diante da caça e do predador,
diante da ameaça de perda ou morte:
Mãe, olhai por mim,
não me deixe só.

E a mãe faminta da vida dos seus
alimenta de esperança e espera
tudo o que lhes for de sorte e amor.




..............................................
Patrícia Porto

quinta-feira, 22 de abril de 2010

Quando a felicidade é gratuita.



Imagem: Haruo Ohara


          Ontem um amigo me enviou uma mensagem dizendo: “adoro seus textos, mas não acho legal enviá-los como spam”. Fiquei confusa e pedi ajuda ao meu filho de onze anos: “o que é um e-mail spam?” Essas crianças! Como diz a minha mãe: “já nascem agora de olho aberto, corpo durinho e começam a falar em seis meses.” Outro dia na porta da escola do meu filho, os pais se admiravam com a precocidade dos rebentos: “o meu começou a falar com oito meses”, “ah, o meu com dez”... “E ler e escrever com dois.” “Com três...”, “com quatro...” Era um festival abominável de crianças prodígios, de gênios, de super dotados... Todos faziam esportes como atletas: “corre cinco quilômetros em tantos minutos”... “Nada como um peixe...” “Faz esgrima...” Esgrima?! Nessa hora, confesso que fiquei novamente confusa: Como assim esgrima? Esgrima não é um objeto cortante para ser manipulado por uma criança de dez, onze anos? A mãe me olhou como se eu fosse um ET acabando de estender o dedinho. “A esgrima é um esporte completamente seguro!” Pedi desculpa pela minha ignorância. Então uma delas, com um olhar de vilã de conto de fadas, me perguntou: “E o seu, o que ele faz?” E quase que por instinto, todas se aproximaram me acuando junto às grades do portão. “É! O seu! O que ele faz?”
            Então veio um redemoinho de imagens na minha cabeça. Tentei rapidamente ver nos meus arquivos cerebrais, falhos por sinal, que resposta dar àquela pergunta. Pensei comigo: meu filho adora inventar histórias. Talvez por ser filho de uma contadora de histórias que também adora inventar estórias. Nós fazemos competição de monstros: monstro da lixeira, do elevador, do ônibus lotado, da piscina... Ele começou a falar com quase um ano, mas ele sorria, gargalhava todos os dias. Começou a ler aos sete, e antes de mim, pois eu só comecei a ler - com dificuldade - aos oito. Ele adora futebol, o Botafogo e conhece como ninguém a história dos times, dos jogadores, dos campeonatos; mas a bola, essa já não gosta muito dele, “um caso de amor não correspondido” como foi para Nelson Rodrigues e o nosso querido Armando Nogueira. Ele é um menino meio gordinho, meio baixinho, tem olhos escuros e cabelo entre o liso e o cacheado. E eu sou realmente suspeita pra dizer o quanto ele é “inteiro” e bonito. Ah, mas eu lembro que aos quatro anos, ele me perguntou: “Como é que eu faço pra ficar da cor do João? Se eu dormir todo dia do lado de fora da casa, a noite me escurece?” E lembro que aos sete ele sozinho arrumou os brinquedos e disse pra avó: “esses aqui eu vou doar.” E minha mãe não concordou: “mas são brinquedos novos!”. E ele perguntou: “mas então os meninos só podem ganhar os meus brinquedos velhos?” E ainda na mesma ocasião, ele disse: “vou ficar apenas com esses aqui que eu gosto mais.” A avó de novo o repreendeu: “mas esses estão quebrados, sem pernas, sem braços... Joga fora.” E ele completou: “vó, se o seu filho não tivesse uma perna ou um braço você jogava ele fora?” Bem, esse é o Pedro que conheço e que também já revelou a todos que quer ser "feliz" quando crescer.
            O sinal bateu. As crianças saíram agitadas e eu fui salva pelo gongo. Afinal nunca há uma só resposta para uma pergunta assim como existiam e existem muitas outras perguntas dentro da minha resposta.
          E voltando ao meu amigo do spam e a minha pergunta inicial, o Pedro me respondeu: “mãe, spam é um e-mail chato que a gente não gosta de receber e ainda dá trabalho para deletar.” Espontâneo e autêntico como espontâneas e autênticas quase sempre são as respostas das crianças. Ah, esses adultos...



Patrícia Porto

sexta-feira, 16 de abril de 2010

Passageiro





Entrou na rua profunda.
 Mal notou no núcleo interno a solidão do guindaste
que os aguardava, a ele e a todos - do outro lado -
o outro lado que é o mesmo lado.
E atirou-se do perfeito ao infinito.



Patrícia Porto

quinta-feira, 15 de abril de 2010

Rosas


Rosas

São elas sim as últimas e verdadeiras,
as que encobrirão os nossos rostos,
os nossos corpos.
Entre elas nossa mortalha,
nosso manto,
um sudário de lembranças...
Quando não nos restar palavras enfim
nem duras nem doces...
Quando não nos restar olhares -
outras formas de dizer “te amo”,
quando nossas mãos estiverem postas,
mortas,
atravessadas em nossos peitos,
elas dirão por nós
linguagens inexpressíveis.
Elas exalarão odores que somente
a vida pôde com frescor exalar.
Quando não nos restar os braços para os abraços
elas serão levadas aos túmulos
e nos abraçarão aos nossos amados.
Quando toda terra estiver soterrando nossas esperanças
elas acolherão as nossas tristezas.
Quando o último de nossos melhores amigos
não puder presenciar a nossa ida e ausência,
elas nascerão pelos campos,
semeadas ao sabor de um tempo sem previsão.
Elas delicadamente testemunharão que um dia
eu, você, todos nós
estivemos aqui.



Patrícia Porto

Porque do fim do poço se pode ver
no fim de tudo
no fim do túnel
o invento da luz.

quinta-feira, 1 de abril de 2010

Troçando...

Bravo Pessoa! Também tenho conhecido pouca gente que leva porrada. Todos os meus conhecidos bem sucedidos são campeões em tudo: em educação, moradia, saúde, alimentação... Todos bem nutritos, endorfinados, com suas casas e jardins, cheios de orgulho e de bons motivos para um shopping de diversões e felicidades institucionais, cheios de bons conselhos míopes aos reles que não tiveram a sorte de berço e que por relapso de bom-caratismo, não aprenderam a roubar, sonegar e corromper como destino. Ah, como eu queria ser burra, Raul. Assim eu não sofria tanto.
........................................................................................................................

O favorito: Poema em Linha Reta. Fernando Pessoa.


POEMA EM LINHA RETA  (Fernando Pessoa)



Nunca conheci quem tivesse levado porrada.
Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo.

E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil,
Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita,
Indesculpavelmente sujo,
Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho,
Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo,
Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas,
Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante,
Que tenho sofrido enxovalhos e calado,
Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda;
Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel,
Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes,
Eu, que tenho feito vergonhas financeiras, pedido emprestado sem pagar,
Eu, que, quando a hora do soco surgiu, me tenho agachado
Para fora da possibilidade do soco;
Eu, que tenho sofrido a angústia das pequenas coisas ridículas,
Eu verifico que não tenho par nisto tudo neste mundo.


Toda a gente que eu conheço e que fala comigo
Nunca teve um ato ridículo, nunca sofreu enxovalho,
Nunca foi senão príncipe - todos eles príncipes - na vida...


Quem me dera ouvir de alguém a voz humana
Que confessasse não um pecado, mas uma infâmia;
Que contasse, não uma violência, mas uma cobardia!


Não, são todos o Ideal, se os oiço e me falam.
Quem há neste largo mundo que me confesse que uma vez foi vil?
Ó príncipes, meus irmãos,

Arre, estou farto de semideuses!
Onde é que há gente no mundo?
Então sou só eu que é vil e errôneo nesta terra?


Poderão as mulheres não os terem amado,
Podem ter sido traídos - mas ridículos nunca!
E eu, que tenho sido ridículo sem ter sido traído,


Como posso eu falar com os meus superiores sem titubear?
Eu, que venho sido vil, literalmente vil,
Vil no sentido mesquinho e infame da vileza.




Álvaro de Campos