domingo, 10 de janeiro de 2010

Olhos do Céu.



Imagem de Sebastião Salgado.
"Outras Américas" - Primeira Comunhão em Juazeiro do Norte, 1981.




Olhos do Céu.

Alegria: um revoar de passarinhos que juntos, em sincronia, margeiam árvores que fazem sombra para um revoar de criancinhas.
Vida: uma invenção.
Passarinhos: substantivo e plural, um coletivo de asas.
Crianças: plural de passarinho.

Patrícia Porto



AlgUmas Palavras sobre o poema:


              Em 1981 eu tinha onze anos e também fiz comunhão.

             Aqueles que me conhecem sabem o quanto amo a arte da fotografia e que também sou uma perseguidora de imagens ou talvez uma pessoa perseguida pelas imagens. Por muitas vezes foram as imagens de fora, na expressão do mundo e do cotidiano, que me levaram à poesia e por outras vezes foram outras, as imagens de dentro exorcizadas, que me levaram a um percurso contrário, indo buscar as mais diversas parcerias entre imagens e palavras. Por isso mesmo não consigo esquecer a primeira vez que vi as fotografias, as imagens de Sebastião Salgado. Tanta força e delicadeza através de lentes, possibilidades e intensidades de olhar o outro na sua legítima natureza... Tanta plasticidade em preto e branco, tanta luz e sombra, tantas aberturas. Um passeio, um zoom na alma humana, nas suas raízes, nas suas dores, nos seus fazeres. Tanta cultura e tanta fartura de olhar. Fiquei extasiada e tive o ingênuo e instantâneo frenesi de escrever um poema para uma imagem dele, uma imagem de uma criança de olhos imensos e tristes. Tão tristes que eu chorei. Não sei ainda explicar o que senti e sinto, mas se lembro da imagem inicio um redemoinho de emoções que encharca os meus olhos, acho que é porque eu sou gente e gente vê de dentro por dentro do dentro o mundo. E isso não é piegas, piegas é enjaular-se num pretenso saber que enrijece o corpo como doença degenerativa e cala a alma e suas linguagens. Então, eu que sou gente como tanta gente, posso ver e olhar a criança que eu fui e as crianças que fizeram a minha história de educadora, como se habitassem no mesmo túnel do tempo os  olhos e a cegueira, como se fossem a íris e a pupila uma mandala a afastar e aproximar quem fomos e somos.
             Ao olhar a imagem daquela criança, justamente naquela hora de dizer, a escrita tornou-se uma ação ingênua e inútil. Uma excelente oportunidade de frustração. Pois nada escrito seria suficiente, nenhum registro em palavras faria jus àquela forma tão desestabilizadora de olhar o homem na sua existência. Insisto - "existência". Confesso que, naquela inquietude, queria mergulhar naquele olhar de Sebastião, o que logo me fez desistir de escrever com. Faltava a mim maturidade e sabedoria, esse terceiro andar e olho da consciência para além do conhecer e informar. Lembro então de Eduardo Galeano no Livro dos Abraços e do texto que falava de um menino que não conhecia o mar. Diz a história:

          "Diego não conhecia o mar. (...) Quando o menino e o pai enfim alcançaram aquelas alturas de areia, depois de muito caminhar, o mar estava na frente de seus olhos. E foi tanta a imensidão do mar, e tanto seu fulgor, que o menino ficou mudo de beleza.
           E quando finalmente conseguiu falar, tremendo, gaguejando, pediu ao pai: — Me ajuda a olhar!"

          Eu, assim como Diego, fiquei miúda e muda de beleza. Mas, ensimesmada na minha adultice, não pedi a ninguém: "— Me ajuda a olhar! Me ajuda a olhar!" Somente hoje, anos depois, eu aprendi a pedir ajuda. “"— Me ensina! Me educa! Me ajuda a olhar!" E hoje, entrando num transe imagético, reencontro parte desse pedido e parte da minha infância. Entre lembranças e esquecimentos necessários, uma reminiscência bateu em mim e, como diziam os antigos, pegou-me “de chofre”. Lembrei das cenas e imagens da minha primeira comunhão e de uma foto que era para mim assustadora e que foi perdida para o tempo, por excessos de mudanças e desastres. Acredito que ela tenha sido engolida por aquele velho baú-buraco-negro do espaço das memórias onde vagam perdidas as fotos depois das separações e também as meias que ficam sem par e os guarda-chuvas. Devo confessar que aquela fotografia me assustava um tanto, eu vestida de anjo sem nem ter morrido ainda. Tadinha. Vovó me acalmava dizendo coisas como: “as crianças são os olhos de Deus. Por isso as crianças são anjos e por isso os anjos moram com Deus.” Hoje eu lembro e acho tudo isso lindo e incrivelmente poético. Mas na época, quando eu tinha mais medo e distância da morte, aquela história de ir morar com Deus não me agradava em nada. Lembro de dizer naquela fluidez de fala de criança: "Mas vó, eu ainda prefiro morar com você...” E foi cosendo esses retalhos de memórias que eu perseguia uma imagem que comungasse com a minha reunião de sentidos. E então a encontrei. E reencontrei os olhos de Sebastião Salgado que é para mim, e definitivamente, a melhor tradução imagética para os versos de um outro olhador de almas, o poeta Bartolomeu Campos Queirós:

Quando olhamos
nós acordamos alegrias, tristezas,
saudades, amores, lembranças,
que dormem em nossos corações



Os olhos têm raízes pelo corpo inteiro.



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Sutra para o Coração

Spend some time alone every day.
Dalai Lama






Sutra para o Coração

A coragem contra o veto
faz amor e hora contra a injustiça e o pavor.
Um sutra contra o ódio que mata.
Perpétua rima contra os que calam.
Prece contra o descaso, a opressão.
A força contra a falta de afeto e pão
no que há de pão e afeto na coragem de agir.
Em silêncio dança o coração.


Patrícia Porto