domingo, 20 de dezembro de 2009

A escrita e a inveja.



A escrita e a inveja.


(Homenagem a Sérgio Porto e tia Zulmira)


Ele ligou tarde da noite.
_ Alô... Olha, cara, essas coisas que você anda escrevendo no jornal, sabe... Sou teu amigo e por isso vou te prevenir. Não pega bem. O meio que a gente vive é um ovo, todo mundo se conhece e você fica aí escrevendo essas provocações. Fico até sem jeito de falar. Mas tem gente importante que já comentou comigo que não gostou.
_ Pera aí, João! Até tu Brutus! Sou jornalista e tenho meu direito de expressão, esqueceu?
_ Mas é que você está mexendo com gente grande, peixe grande. Isso aí não vai dar certo. Depois lá na frente você se prejudica.
_ Olha aqui, meu amigo. Cada um na sua e a vida continua. Você cuida do seu jardim que eu cuido do meu.

A mulher acorda.
_ Que conversa é essa, Zuzu?
_ O João Maurício! Ligou pra falar do meu artigo no jornal. Cretino, filho da mãe! Esqueceu tudo o que eu fiz por ele. Agora porque se acha numa posiçãosinha melhor quer cantar de galo no terreiro alheio.
_ Mas meu bem, talvez ele tenha um pouco de razão... Você é radical às vezes, sabia? Nas opiniões - eu digo. Leva tudo muito a sério. Não aceita que o mundo seja do jeito que é. Tem mania de querer salvar o mundo escrevendo...
_ Caramba, Cristina! Até tu Brutus! Covardia não faz meu feitio. Não sou pessoa de meia palavra! Comigo é assim e pá-ponto: sem papas na língua! Tem que escrever, eu escrevo!


A mulher conversa com a sogra:
_ Dona Dora, seu filho não está nada bem. Pirou, coitado! Ele agora deu de denunciar, de enfrentar corruptos através da escrita, escrevendo pra jornal!
_ Mas não é tudo “meta fora”, minha filha? Pelo menos foi isso que ele disse aqui em casa pra mim mais o Antenor. Que esse negócio de “meta fora” não pega pra ninguém, é linguagem de figura.
_ Não vai adiantar eu explicar agora, dona Dora. Mas é que mesmo no sentido figurado, isso que ele escreve não é coisa boa pra bom entendido no assunto, percebe?
_ Ah , minha filha, agora você complicou tudo comigo. Mas se esse menino anda fazendo algo de errado, ele tem que se corrigir! Esse menino sempre foi assim, Deus do céu, já contei pra você aquela vez que ele...

A mulher conversa com o analista:
_ Não aguento mais o meu marido. Agora ele acha que vai salvar o mundo escrevendo. Além de ganhar mal com o que faz, os poucos que leem aquele raio de coluna querem é tirar a pele dele para fritar pra aperitivo. Ele é mesmo um sem noção como diz a minha irmã. Eu deveria ter ouvido a minha mãe quando ela tanto me avisou. Mas isso também é culpa dela, ela fica dizendo por aí que eu tenho o dedo podre pra escolher homem. E agora também, além dessa mania de ser herói fora de época, coisa mais infantil e besta, também nem comparece como antes... E também...
_ Acabou o seu tempo, continuamos na próxima semana.

A mulher conversa com a manicure:
_ Não aguento mais o meu marido...

A mulher conversa com a empregada:
_ Não aguento mais o seu patrão...

A mulher conversa com a mãe:
_ Não aguento mais esse idiota...

A mulher conversa com uma vizinha no elevador:
_ É, tá quente, mas saiba que o pior é aguentar certas pessoas. Não aguento mais certos homens que...

A mulher conversa com o amante:
_ Ah, João Maurício, não aguento mais...
_ Meu docinho, eu juro que estou fazendo o que posso. Mas ele é tão teimoso...


Patrícia Porto

sábado, 19 de dezembro de 2009

Oráculos, mandingas e 2012: Cop neles!




                   Oráculos, mandingas e 2012: Cop neles!


                   Até uma criança de três ou quatro anos de idade sabe descrever o que acontecerá com o planeta se não cuidarmos dele. Imagino então que alguns representantes políticos, principalmente os dos países ricos, deveriam voltar para o útero de suas digníssimas mães ou para o ventre da mãe natureza, engolidos feito um Jonas para as profundezas dos oceanos com direito a tsunamis ininterruptos. Mas do jeito que anda a matança de baleias e o descaso com os que vestem a camisa, não poderemos garantir que eles não sejam, de fato e justiça, engolidos e devorados por tubarões, tamanha a desgraça feita na cadeia alimentar. Por falar em cadeia alimentar, acredito mesmo que antes de um encontro desses, de caráter global e plural, deveriam pensar a priori numa espécie de mini-curso sobre aquelas noções básicas aprendidas na escola: clima, poluição, efeito estufa, desequilíbrio ambiental etc. Mas parece mesmo que a única cadeia alimentar que os poderosos conhecem é a da roda financeira, aquela já tão conhecida por nós aqui na Terra Brasilis. Aquela que dá o poder a quem está em cima, no topo, de comer, devorar quem está embaixo. E penso que nós, brasileiros, sul-americanos, latino-americanos, conhecemos tanto sobre o tema “canibalismos explícitos” que, somos deveras e sobra, especializados no assunto MIB ou Mif ou IMF, homens de preto e pasta – ou sem pasta... Fica aqui então colocada a sugestão de que antes da próxima Cop e antes que o mundo acabe, digo - o ano acabe, nós, brasileiros, que somos tão bons de bola e copa, poderíamos ser convocados para a criação de um mini-curso intensivo sobre “pimenta nos olhos do outro é refresco”, nós e outros povos poderíamos ser de grande ajuda nesse curso que seria ministrado para a comitiva do chefe maior da cadeia alimentar terrestre.
                 Mudando de clima e assunto, e o Nobelis - para quem vai? E o Oscarelis - para quem vai? Quando se é uma criança suburbana no Brasil, a festa do Oscar parece mais “o céu não tem limites”, tempos depois se passa subversivamente entender que aquela academia de ginástica fica entre o barro e o tijolo para poder vender mais barro e tijolo. Bem, só que se permitirem ao suburbano subversivo a tão sonhada entrada na universidade pop, ele também vai começar a entender que todo o resto funciona mais ou menos parecido ao barro e tijolo do Oscar – confuso, né? Isso para ficarmos aqui nas entrelinhas sem o devido direito de expressão. Afinal, filhos que somos do Brasil e da dita-dura, nós sabemos que aqui vale mais dinheiro na meia e na cueca suja que palavras subversivas que podem ser mal interpretadas e, pasmem, censuradas. Mas antes tinha o tal Drops – de menta e anis, nós sabíamos quem eram os caras maus, os do outro lado da força. Agora não. Aqui você pode até ser processado por não querer ser devorado sem maionese ou por mandar uma mensagem indevida para um chefe superior da cadeia alimentar que, pasmem de novo ou tenham espasmos, pode até mesmo devorar os seus sonhos e suas perspectivas futuras. Por isso, “sobre a questão do clima” ou sobre não-mudanças climáticas não vejo professores melhores que nós. A Amazônia é, sem dúvida, o nosso melhor MBA. Sobre Chico Mendes seria a nossa primeira aula. E a segunda seria sobre a irmã Dorothy, sentenciada à morte em cadeia nacional. Sobre Cristovam Buarque seria a nossa terceira aula, sobre aqueles 2,5% daquela eleição perdida e, óbvio, para completar o pacote não poderíamos deixar de fora nossa maior representação “viva” de luta pelo fim do desmatamento, sobre Marina Silva seria a nossa última e extensa aula. No quinto dia do mini-curso faríamos uma culminância ecumênica, cacofonia e paz para relaxar um pouquinho: com reza e água benta, pajelança (só nossa,  afinal do outro lado eles foram os primeiros extintos pelo uso da força da cadeia alimentar) e também muita arruda pra não receber encosto e um despacho completo a fim de expurgar, exorcizar os maus espíritos que ficam secando e vampirizando a Cop. Nesse dia ensinaríamos também a eles o que é o valor da fé e da esperança se “puxam o seu tapete” e “debocham da sua cara” quando tudo acaba em pizza e panetone, essa combinação esdrúxula.
             E sobre o papel do Senado, como experts no assunto, o povo de lá aprenderia muito conosco. Alguns dos nossos senadores são a prova convicta que crime compensa sim, que verde é a alface e que se plantando tudo dá, que pensar em clima é coisa de “porra loca” e maconheiro e que é melhor uma arma na mão que dois pássaros voando. Melhor mesmo é que os pássaros, os elefantes e os ursos, que não servem para nada além de enfeitar o mundo, estejam mesmo abatidos, como abatidas estão as nossas faces diante desse vergonhoso descaso de dimensão internacional. E para terminar, já que estaríamos perto do Natal deveríamos, ao fim do curso, entregar aos formandos, uma cesta básica com panetone, é claro, e um exemplar de Cachorros de Palha, prata da casa deles, perfeito como livro de cabeceira para daqui a 2010 ou 2012, como querem os oráculos e as profecias. 2009 terminaria assim: com palavras aos ventos e Katrinas, palavras de gente negativa que só pensa no pior, em catástrofes inevitáveis, essa gente maluca que não tem o que fazer além de defender o mundo de sua iminente destruição.



Patrícia Porto
        

sexta-feira, 18 de dezembro de 2009

Isso passa.



            Ética? Perdoe o leitor, é que às vezes, por tolice, confundo, vislumbrando determinados contextos institucionais, a palavra ética com algum tipo de “ismo”. E dei pra confundir também a palavra amizade com compadrio, troca de favores e sofás. E a palavra família confundo com nepotismo e churrasco. E a palavra confiança com corporativismo ou fisiologismo. São resquícios talvez da minha ignorância prévia ou tardia. Mas é que tenho curiosidades estranhas por saber o porquê de eu ainda conseguir ficar perplexa quando me dou conta que brasileiro não vota mais? Brasileiro faz fezinha. E dá pra fazer outra coisa, meu irmão? "Votar" definitivamente não é a paixão nacional! E quando é sugerido "o pense antes de votar" aparece um coxinha, misto de almofadinha com fascista, que te xinga de radical, comuna, esquizoide. José Murilo de Carvalho fala bem sobre o exercício do pensamento como “instrumento” de muita utilidade, mas tantas vezes usado pra cair no vão da História. Outra questão. Cadê o pensamento?! Será que estamos ficando assim tão pobres em produção intelectual que não dá pra ver emergir algo de realmente pensado? Cabeça de político? Bunda de bebê?
              Por que não assumir o lugar do risco de pensar? Da ousadia de falar o que pensa? Da tentativa criativa de mostrar um ser que fica indignado, calcula sim, e pensa por si mesmo? Deixa o pensamento solto! Esse "ser-eu", singular e fraturado que planeja, projeta e que se desafia sem o papelão ou papelote de ficar atrás da porta, da máscara social, da persona... Deixa fluir o pensamento!
                Na mitologia africana há um orixá que simboliza a mãe-guia das forças das tempestades, a guia que age segundo uma grande força que deixa à mostra as fraturas do terreno, da terra, que desfolha, desalinha tudo para trazer um novo tempo... Qualquer semelhança com o Caos? Pois é. O que estamos tentamos ocultar para não cuidar, olhar e compreender?             
           Dizem que os poetas, além de excêntricos, são exímios fingidores, e que o ego de quem escreve é um monstro devorador. Concordo sem recorrer à heteronimia. Mas pelo menos o poeta se expõe, expõe a cara pálida. E é claro que sei que em ambientes hostis precisamos acionar velhas defesas e que para isso vamos desenvolvendo táticas, estratégias, cartografias de sobrevivência. E também tem o velho e "bem" gasto conformismo. E "conformismo" é uma palavra que às vezes confundo com fingimento, mas que está aí e pertence ao léxico dos que teimam em dizer: "deixa disso". Porque tem o conformista e tem “gente que finge conformismo” para ritualizar a moeda de troca. "O próximo, por favor!" Tem um tipo de oportunista-conformista que finge ser coleguinha de todo mundo e é um tremendo hipócrita por convicção. Posso crer, inclusive, que esse tipo pode muito - tranquilamente - passar uma biografia inteira como um cínico-medíocre-mediano-conformista, se é que é possível ser tão traste assim. Sabe aquele jeitinho de ser... No caso do Brasil, o jeitinho é mais pra fazer. E a regra da etiqueta é guardar entre os panos e colocar panos quentes onde der.
           É claro que eu leio os jornais, é claro que tenho acesso às páginas da Internet e sei o que se passa na cidade do Rio de Janeiro e no Brasil. De Cabral a Cabral nós sabemos, pra usar um trocadilho bobinho, que vamos caminhando às avessas. Excesso de roupas do Rei. Excesso de Reis. Mania de Colônia. Da que fede. Mas as informações nos chegam a todo o momento, quase que pelos poros, entram em nosso órgãos vitais até respirarmos bastante lixo midiático automático e sensacionalista... Não dá pra demonizar os que nos deixam burros, reclamava um outro Porto; mas dá pra chamar de calhordas os políticos covardes que se espalham pelo país nesse sistema sócio-econômico cínico-medíocre-mediano-conformista “dos que levam vantagem em tudo”, nas instituições, nas redes de informação e sacanagem.
         Tudo bem que tudo vai mal. Mas aos cínicos de plantão podemos dizer que é possível guardar uma medida de crença, fantasia, utopia para outros tempos, a mesma crença que nos faz suportar a existência, o engasgo, e que nos faz também suportar um bocado de mazelas, seja na política, no congresso, nessa estrutura toda com metástase. E espero e devo crer que boa parcela da população brasileira quer mudanças, e tendo bastante esperança mesmo, que muita gente não compactua com esses “ismos” de ocasião. A gente acredita no Brasil e acredita como criança, apostando as fichas. Existem "fichas" ainda? Tudo bem. E para não dizer que não falei das metralhadoras, há uns tempos atrás, numa escola pública onde trabalhei, nós, professores e alunos fomos obrigados a fechar as portas por ordem do tráfico. Tente acertar. Alternativa A: notícia gasta sem qualquer efeito no receptor. Alternativa B: notícia velha que só serve para embrulhar peixe. Alternativa C: notícia renitente que não faz cócegas nos assentos de qualquer Parlamento.
        É... Sobre essa situação lembro que sofri um bocado, sensação de ficar no ponto zero ou morto, na desvalia, se é que me entendem. E para anestesiar minha parcela, no jogo do joão teimoso ou sem braço, lembro que fui de bolinha, placebo desses que no invólucro vem escrito que um dia “isso passa”.


Patrícia Porto

domingo, 18 de outubro de 2009

Minha primeira playboy



Sabe aquele dia em que as coisas parecem inusitadas e que de repente uma avalanche de pensamentos inesperados se sucedem? Pois foi o que aconteceu comigo dia desses. Entrei num salão de beleza, algo que não faço mais de três ou quatro vezes ao ano e naquela indisposição de ficar horas intermináveis esperando o efeito de um produto químico devastador na minha cabeça, tive uma revista colocada em minhas mãos por uma das atendentes, uma revista que normalmente recusaria por conceito e não pré, mas que por inércia não retirei do colo. Na página deixada aberta havia uma entrevista com a escritora e apresentadora da GNT, Fernanda Young. Não consegui não ler, até porque do que eu já havia lido, visto e sabido da Young muito me agradava e “irritava” também. Sabia que a Young era de Niterói. Devo fazer um parêntese aqui para algo que dizem a respeito da cidade, pois sobre esse lugar tão aprazível falam, até mesmo os próprios niteroienses, que quase todos se conhecem ou ainda que alguém que conhece um outro alguém no final inevitavelmente vai conhecer ou esbarrar em você. Pensei se tratar de lenda urbana até me mudar há três anos para Niterói e comprovar por experiência própria que isso realmente era um fato. E para mim, aos poucos, Niterói foi tomando a imagem da Mãe - com toda sua bondade e controle. Lembro que depois do segundo mês morando em Niterói comecei a sentir uma certa claustrofobia, ao ar livre, ao perceber que saindo a mesma hora todos os dias conseguiria, mesmo sem desejar, encontrar com os mesmos estranhos de sempre. Lá pelo terceiro ou quarto mês algo se tornou comum. Eu me sentia na obrigação de cumprimentar aquele estranho não mais tão estranho assim e por ai vai. Mas eu sabia que Young era de Niterói porque havia conhecido duas ou três pessoas que conheciam a Fernanda e pasmem: que haviam convivido de muito perto com ela. E a literatura não tinha nada com isso!
No folhear das páginas da revista, interessei-me pela parte em que Fernanda dizia se identificar com a cidade de São Paulo, com aquele clima louco de frio, garoa e céu cinza... Fui invadida então por um sentimento único de nostalgia, eu que por vezes pensei em me mudar e que de certa forma quase morei em São Paulo. Eu que não conseguia me identificar com minha cidade de origem e até mesmo com Niterói e com tudo de tão agradável que ali havia e há. Falo do agradável mesmo, como suas borboletas amarelas e suas praias fantásticas. Talvez eu assim como Fernanda, ela que cresceu em Niterói, tivéssemos aquela tal aptidão para o caos. Devo confessar que fiquei um tanto feliz por Fernanda me isentar, ainda que pouco, da culpa que eu tanto sentia por não me adaptar à cidade. Ficava evidente pra mim, de tão estranha natureza, que o problema estava comigo e na minha veia anti-social, aquela dos que gostam da vadiagem reclusa do mundo interno e do anonimato da cidade. Que benefícios eu enxergava no anonimato daquela cidade caótica que tinha sido a São Paulo que eu vivi! Nasci no nordeste que desde sempre foi para mim o início, o verbo, o Pai sentado à cabeceira da mesa sempre pronto pra "ralhar". Cresci bom tempo numa área pobre da periferia do Rio. Alô alô Realengo, aquele abraço! E quando um irmão mais velho foi viver em São Paulo, nas idas e visitas a ele, me encantei pelo absurdo e pela gente e pelas avenidas da Sampa tão bem descrita e cantata por Caetano. A São Paulo que eu me identifiquei tinha fábricas e operários, sanduíches de mortadela, a massa do Bexiga, as feiras e os pastéis com calda de cana, os vermelhos da Liberdade, o Trianon e o ônibus elétrico que me levava pra Santana. São Paulo era meio pátria de todos, porto de todos, migrantes e imigrantes. E eu ia para as ruas e aconchegava meu olhar com toda aquela gente um pouco pálida e com um certo tom inesperado de pressa. Nas ruas da Sampa eu me sentia parte e todo. Foi amor a toda vista. Minha primeira noite de amor, é claro, foi em São Paulo. Até porque aquela cidade não era a cinta do pai nem os olhos astutos da mãe. Era o Homem desnudo, humano e impreciso. E não havia nada de mais transgressor e delicado que tirá-lo da trindade para deitar-se com ele. Era como uma poesia doce e ácida. Para mim - sem a fechada lealdade do clã, sem a alegria da turma do bairro, era o amplo e cinza horizonte sem margens. Poética. Garoética.
Tenho um amigo de poesia que me citou uma vez que não se pode escolher o lugar onde se nasce, mas talvez se possa escolher o lugar onde se possa morrer. Se eu puder escolher... Devo agradecer à Young que naquela tarde sem expectativas me revelou um negativo guardado de filme, uma parte que falava tímida dentro de mim. Soube pela entrevista que ela fará um nu para a playboy. A playboy que há tempos não desnuda um feminino que esteja para além de um corpo bonito - desculpem, de um corpão bonito. Desisti da química no cabelo e saí pelas ruas. Uma brisa quente tocou o meu rosto. Borboletas amarelas cruzavam. Uma cidade tem tantos espelhos... Quem sabe eu não me encontre num deles agora.

Patrícia Porto


sábado, 11 de abril de 2009

Um trem para os sonhos.


Ainda ouço minha mãe gritando: _Vai perder o trem!
E o trem levava para a escola técnica,
no tempo que eu queria ser homem.
Maldita sina: nascer mulher! Eu praguejava.

O trem saía de Alcântara
para um lugar nenhum dentro de mim.
O trem de Alcântara,
a explosão de Alcântara,
Eu queria ser engenheira.
Engenheira? (Tem feminino?)
E um dia Alcântara explodiu,
ficou pequena para os meus olhos,
eu queria conhecer Londres,
a terra de Shakespeare,
mas o trem de Alcântara não
parava nas estações dos sonhos.
Ele seguia para um destino que não era o meu.

Acorda, vai perder o trem!
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