terça-feira, 23 de setembro de 2008

Carta

Meu amado

A nossa potência está na esperança e não no medo. E há tanto para acreditar no potencial e na transformação do ser... Por isso eu me perdôo, por isso também peço perdão. Como diz a linda oração de São Francisco, é dando que se recebe, é perdoando que se é perdoado. De nada vale levar presságios de má sorte pelo caminho, jogando sujeira pelo chão que se vai pisar. Sei que às vezes esse “mundo cane” nos leva para o descentramento e somos, inevitavelmente, tragados por sentimentos ruins. Já tive os meus... Mas aprendi bem cedo ainda a me desfazer deles, pois carecia sobreviver e ser minimamente feliz a fim de suportar a existência. Tão bela foi e será!

Quando volto para essa casa transitória – como tudo nessa vida, como o meu próprio corpo, essa morada transitória, percebo de repente o quanto ainda podemos mudar. Então me lembro da flor e do pro-fundo. O amor é belo quando é mais raiz que flor. E se “esse amor floresceu antes de brotar”... Ele transcende de vida. E a vida só temos essa, não há estrada que seja outra. Isso sim inexorável. Não há outra vida além dessa que vivemos e nelas, as nossas, já tudo é metade. Tudo envelhece e ter maturidade não fez de nós sabedoria. Saber que a despedida é inevitável é o que deveria nos animar, quem sabe a vida assim ficasse mais doce, afago na ausência da morte se dela ainda nem damos presença ou notícia.

Viver é perigoso, eu sei, e diz o sertanejo das veredas de Rosa. Viver é grande e viver intensamente envolve riscos, porque é desconhecido. Ser humano é uma aventura arriscosa. A humanidade é um risco amoroso. E intensidade não significa ter todas as experiências ou todas as dores do mundo num frenesi de sensações. Sei disso agora, porque fiquei velha antes do tempo e menina antes das horas. Estar vivo já é muito intenso. Por isso preciso hoje de um amor pra pulsar e pousar o coração. Chega de montanhas russas, rodas gigantes, trem de fantasmas... Tive todas, todos. O que desejo? Menos volume, alguns silêncios, beijos, “sono e pão” ao sabor de Neruda. É, eu tenho uma confiança inabalável no amor e eu nem sabia disso até você chegar. Por ele e só por ele precisamos ser livres para a realização desses nossos sonhos.


"... Eu sempre sonho que uma coisa gera, nunca nada está morto.O que não parece vivo, aduba. O que parece estático, espera"

(Adélia Prado)

Meu afeto,
P.