domingo, 11 de novembro de 2007

A casa de asas


Se a janela estivesse aberta
um anjo entraria
varrendo os cantos da vida
soprando de leve as vestes brancas
atrás do pó de esquecimentos

Entre tantos entretantos
A janela fechada esteve
Antes do fim

Cadeados nas frestas
no chão, no teto, nas paredes
no coração

O homem esqueceu que a liberdade
é um tempo depois ou antes do beijo
e do afago na testa
que a liberdade é antes do agir a vontade
que a liberdade está entre a flor e a prece:
é pétala

Não, não se apresse tanto a fechar
Portas e janelas
Os pássaros têm tempos maiores
a descortinar

No entanto
Entre tantos
e cantos mudos
o anjo voou
Sem conhecer por dentro
sua alma

quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Amargor (Dedicado às mulheres que sofreram por tanto amar)


Se fosse Kahlo pintaria a dor e as causas
em cores berrantes, pintaria um grito, algumas raivas,
a vontade de dizer sim e não a vossa vontade.
Não seja feita a vossa vontade!
Que seja feita a nossa vontade!
Mas Kahlo. Kalhei.
Então escrevi uns poemas, escrevi uns gritos,
uma minha vontade qualquer de perdão,
a desistência infinda de perdão, uma loucura, a amar-gura, um exorcismo...
Escrevi um aborto,
rasgando o útero,
tirando vossa última passagem
por minha memória genuína
com dor e candura,
Amargor.
Sou Frida
so-Frida...

segunda-feira, 15 de outubro de 2007

A vida é flor.




Meu pai me disse:
_Vai, pega o prumo da vida!
Minha mãe me disse:
_ Vai, a vida é dura!
Meu amor me disse:
_ Vai, cria suas condições!
Ninguém me disse pra ser gauche na vida.
Ninguém me disse: _ leve, vai leve, Patrícia,
que a vida é flor.
Vai, que a vida é flor.
E como fez falta...

Tem jeito?


Pra quem sente dor
tem jeito, mainha?

(Um balanço de cabeça)

Jeito? Tem não.
Tem é fim.

quinta-feira, 20 de setembro de 2007

"A história da véia"

Eu me casei com uma véia
Pra livrar da fiarada
A véia disimbestada pariu dez
De uma ninhada
Passei mão num cacete
Dei uma polada e matei
Depois da véia morta
Ainda pariu dezesseis

Essa véia num era grande
Era uma véia meon
Dava vinte e cinco parmos
Da pá pra junta da mão

O dentinho dessa véia
Derradeiro do queixá
Dezesseis junta de boi
Num arrancava do lugar

A canela dessa véia
Três coisas se inventou
A canela deu uma barca,
Uma prancha e um vapor

A véia deu uma mijada
Na mata da Ribeira
Derrubou sessenta paus
E vinte e cinco parmeiras
Home, ainda disseram
Que não foi mijada inteira

A véia tava mijando às seis hora da manhã
Quando o menino gritou :_ Vovó quero passar!
“Espera meu netinho, que inda quero mijar"

Mijou o dia inteiro.
Quando feiz às seis da tarde
O menino tornou a gritar: -Vovó, quero passar!
“Passa meu netinho, que inda quero mijar"

O menino foi passando
Até dá água pra nadá.
Morreu no mijo da véia,
Coitadinho, ficou lá

domingo, 9 de setembro de 2007

A grande sátira (ou Divino Deboche)


Estou de fato me esforçando
para não acreditar
que a vida é um blefe
que a vida é senão uma farsa
mal encenada
uma piada de um baita mal gosto
a nos deixar
sempre sem graça
ao final

Patricia Porto

quinta-feira, 6 de setembro de 2007

SOLIDÃO II


Dentro do freezer, congelada
Nas prateleiras das lojas
Nas bancas de jornais
Nos noticiários mundiais
Na globalizada rede virtual
Seca
Vil
Sacana
Ligo a TV
O rádio, o computador
Ligo pra ela
e Solidão
responde:
Tô congestionada.

Patrícia Porto

sábado, 11 de agosto de 2007

Amigos.






AMIGOS

Os amigos são como cofres
que nos permitem segredar nossos delírios,
que nos permitem guardar nossos desejos
e agradar todos ouvidos
só de mentiras e doces acomodações:
“Como você está bem! Emagreceu! Está mais jovem!
Está com cara de quem viu passarinho verde!
Deve estar amando.”
Os amigos vivem de si para com eles mesmos
e vivem para que possamos subtrair deles
a última nota lírica da nossa própria existência:
“_ me dá cá a tua mão, meu amigo, minha amiga...
Não chora que eu choro também.”
“Vai passar... Tudo bem. Estou aqui.”
“Como gosto de rir com você!”
Os amigos são assombrações que nos intimidam
quando cometemos erros (que culpa!): “fumando de novo? comendo outra vez?”
São responsáveis pelo acesso a uma inconsciência muito íntima: “tive um sonho revelador, eu sei que são duas horas da madrugada, mas preciso te contar...”
Os amigos são como as coisas que eu não digo,
mas permanecem grudadas na mente: para sempre - o sempre - quem saberá dizer?
Poderemos ficar meses ou anos sem nos ver e ainda assim
inexorável é saber que há sempre o tempo da redescoberta.
Pois para os amigos somos sempre repletos de infância,
de lúdicos sinais.

São pérolas,
os amigos são pétalas, pedacinhos de pão
a nos guiar no caminho de volta - ou pra longe de casa:
depois do bar, do choro, da festa, da agonia.
Lá estão eles: a nos matar a fome, a solidão, o medo dos imprevistos,
a nos alimentar a vida só de amor, abraço e bondade.

sábado, 28 de julho de 2007

SOLIDÃO


A garganta é um corte

E se a goela está seca

O gargalo é a ceia

E se é pra Beber

Se é de Comer

Ou de cuspir

Corpo, corpo, corpo

nu Corpo de mim


Pra Ligar

Desligar

Engordar

Apertar todos os botões

Dessa guerra tão fria

E explodir

O casco

O couro

O fundo

O medo

de exílio

quinta-feira, 19 de julho de 2007

pai,

eu queria te falar dos segredos que guardei
a sete chaves com alguns infinitos e finitos,
te falar de algumas durezas do meu espírito,
da comunhão com os meus amigos
e do amor e da traição que um deles me causou.

queria desvelar aos teus sentidos
o amanhecer do norte
o anoitecer do sul
e o meu tolo deslumbramento com o mundo humano...

as sensações de sentir
com o pensamento,
distante às vezes.

queria te falar
antes que as dores durem
por mais tempo que as alegrias
antes que as mortes cheguem
e anunciem o tempo da minha própria morte

queria eu viver na tua presença
como o último terceiro segredo lúcido
a não ser revelado,
morrer secreto
a fim de não ferir o encanto da fé
que vivi feito sangue e carne e gente

Patrícia Porto

sábado, 7 de julho de 2007

Solidão de amiga

vai guardando
espinhos
na doramiga

São resurgências, dirão.
Ela se foi de tarde.
Tarde se foi, dirão.

Esfriou
A casa

Esfriou
O sol

Esfriou
O sonho

Amornou
A flor

Para aguar e dar

Para aguardar-te
no eu do amor
ou no eu da morte

Ainda é dia.
Morre não, rosa.

Patrícia Porto

sábado, 16 de junho de 2007

O encontro com o barqueiro


_ Vem, moça, corre a envelhecer
que te direi quem és.
Assim disse o barqueiro. E mais:
O que trazes aí neste cesto?
Nenhuma moeda?
Só palhas de solidão?
Foi isto então que acumulastes
do rio?
Pobre moça, intempestiva.
Por dentro, adulação de amanhãs
e por fora
o largo preço da vida.
Molhaste tuas coxas no
quente e na fonte
e ainda assim quiseste gritar e chorar,
tirando o sujo do corpo
a descobrir que era pouco
a tua paga.
Quis olhar a existência
e o que era estreito se fechou.
Moça das beiradas,
nem percebeu que o sujo estava na água
e que o pecado é uma invenção
que nunca se quis partilha.
Contentou-se apenas em saber se era dia
ou se era noite a tua vida,
Se era começo, se era fim.
“Bendito Serafim,
Bendito Serafim,
Salve o mal que há em mim!”
E cegou-se sem pregos
e deitou-se nos rochedos
com o frio da traição,
com os cortes das ruas
sem ágoras, sem preces,
sem anunciação.
E só depois de tanto alarde o quis saber:
Quantas mulheres viveram dentro de mim? – diga agora mensageiro.
Quantas desistiram?
Quantas voltaram?
Quantas beberam e se deitaram com Baco?
Ouço suas vozes e suas intemperanças nas saturnais...
E sei de repente de uma coisa entre tantas que esqueci – por atropelo:
Todas essas mulheres viveram violentamente seus preceitos!
Todas fizeram juntas a razão da minha fogueira!
E não são sombras minhas...
Não são minhas essas árvores.
Ao final de tudo, disseram-me que estarão pálidas,
e que todas elas, aninhadas, quietas,
preguiçosas, sonâmbulas, retornarão
às cadeiras de balanço dos outonos...
Moças também, minhas irmãs, correntes de um rio,
de um Rito do tempo
ao cair das folhas...

_ Leva o cesto, seu barqueiro,
leva o tempo
que eu lavo o resto.

_ Pobre moça, lavadeira,
pega o teu cesto,
consola-te de margens
que nem o teu trabalho
nem tua modéstia
e nem a tua venda
me pagam a tua queima.

Patrícia Porto

terça-feira, 12 de junho de 2007

Carta de tanto amor

Meu amor,
Eu mudei tanto que nem percebi tamanha a fúria dos acontecimentos. Mudei de casa, de rua, de cabelo, de trabalho, de trapaças contra o tempo. Fico cada vez mais antecipada, pensei que maturidade fosse aquele outro nível de consciência. Nada disso. E minha vontade de “ter menos” cresce cada vez mais. Quero ter menos dinheiro e mais simplicidade pra olhar a vida, quero comprar menos coisas sem utilidade, quero fazer mais amor e menos guerra. Também mudo por incômodos e às vezes por ansiedade. Sou da turma que veste a camisa por causas nobres e despe por causas não menos nobres. Tudo isso tem sido os meus dias frente minhas novas mudanças. Minha nova velha casa tem uma sala amarela, uma varanda sem grades, um muro baixo, uma árvore, uns pombos, passarinhos que cantam e cagam na minha janela, não necessariamente nessa ordem. Se estou feliz? Sim, mas inconformada também - com os silêncios – meus e seus – e inconformada com o excesso de vozes que desconheço a cada dia. Sinto falta e desejo da sua voz, que seja escrita, se não falada. Não escrevo minhas demasias talvez por uma boa dose de constrangimento. Aquela dose em que ao nos serenarmos, nos orvalhamos, suaves, mas sedentos de mais. Acho que nosso silêncio é a chuva na madrugada. Não a testemunhamos, mas ao romper os dias, somos noticiados que a terra foi encharcada de água e vida. Água morta, sanha de renascimento. Seja essa, pois a nossa necessidade: não nos abraçarmos mais (s)em palavras.

P.

sábado, 2 de junho de 2007

Das vantagens de ser o Estrangeiro,


             Depois que a ligação caiu, demorei a dormir. Fiquei confusa. Mas eu sou confusa. Hoje o sol apareceu - entre nuvens ainda. Vou dar uma caminhada na praia, ver gente, ler o jornal... Sair um pouquinho desse confinamento e buscar lugares, ilhas de equilíbrio.
            Ontem fui a grupo de terapia para pessoas que sofreram abusos e vou percebendo que agora ouço muito mais que falo. Não tenho algo que me perturbe tanto quanto no passado, que me incomode tanto a ponto de me expor mais que o devido, nem mesmo o cão do passado, muito menos o cão do presente. Mas estar entre eles também me faz desvelar um bem maior. Não deixaria de ir só por egoísmo, pois ouvir o outro, os sons do outro, as palavras adormecidas entre durezas e necessidade de sobreviver... Isso tem me ensinado a buscar algo que talvez já morasse em mim: uma solidariedade silenciosa, respeitosa, um silêncio respeitoso. Sinto que posso ajudar ouvindo e que isso faz realmente diferença... E essa descoberta dá a minha vida uma significativa possibilidade de compreensão do outro, de escuta afetuosa. Vou ficando comedida, eu tantas vezes sem medida. Sei bem quanto nos custa dar um passo a cada dia, um de cada vez. Sei que ainda me confundo, tropeço, caio e levando. Não tem outro jeito, eu preciso levantar, levantar da queda, do escuro, do medo da morte etc. Mas cometo contradições. E como bem disse o Jurandir Freire, ás vezes pode ser muito tarde para perdoar, eu vou tentando perdoar quem me puxa para o abraço do afogado, e tento. Assim percebo que vamos reaprendendo com as nossas falências, significando esses vazios, diminuindo o volume do barulho interno.
           Então a gente que vive dentro da gente vai vivendo melhor, descobrindo novos tempos da fruta Vida. Tem um frase que eu gosto muito do Cyro dos Anjos que diz: "na verdade, as coisas estão é no tempo, e o tempo está é dentro de nós". A terra roxa que nos foi subtraída, deixando assim o solo seco sem água, vai criando uma vontade de plantio. É longo o tempo do plantio, é Cronos e Kairós. Plantar, trabalhar a terra, sujar as mãos e não se achar sujo por isso, mastigar o capim do tempo, cantar a música do trabalho, esperar que surja a vida e ser nele, o exercício de viver, o próprio movimento.
             Pensei em fazer uma viagem. Todos me dizem para fazer viagens, embora eu já faça muitas. A mente pode nos levar a tantos lugares, assim como pode nos tirar de lugares de imobilismo. Mas viajar é olhar, viajar é o olhar do estrangeiro, é tirar férias do cotidiano e suspender-se como um trapezista, olhando do alto em seu balanço magistral. A melhor vantagem de ser estrangeiro é olhar e ver, olhar e não ver. Uma liberdade de arbítrio que te ensina e que dilui em pequena porções as versões originais. Logo sua identidade singular se amplia e se estranha, e se você ficar se verá para sempre como o Estrangeiro de si mesmo, por mais que se fixe, seu lugar é mover-se. O de "onde você veio" ficará num transe, colado ao "onde você está".  Quando mais ficar mais será Estrangeiro, se ficar muito pouco, apenas turista.
             Numa de minhas viagens para fora me deparei com o pensamento sobre uma preservação de  identidade coletiva que corre contra a aculturação galopante desse mundo cada vez mais globalizado - "tão perto e tão longe", conectados e ao mesmo tão distantes do hoje e do que foi ontem. Tento entendê-los por um lado, mas não sei se também "reter" o quase inevitável: o novo do mundo- não pode vir a ser "o não querer viver a/na diversidade”. Afinal, viver com o(s) diferente(s) é adaptar-se a viver constantes estranhamentos, transformações. Acho que o velho mundo colonizador não se preparou para isso e "naturalmente" (sem movimento) preserva se preservando, talvez com aquele medo de ser invadido por velhos (também) - fantasmas. Acho que os imigrantes históricos, assim como os migrantes são pela natureza Estrangeiros. Estão em trânsito permanente, por isso se agrupam como quisessem preservar o perdido, o elo perdido. E vivem em saga.
               Nas minhas viagens subterrâneas tenho aprendido desses sentidos com o outro, esse outro que diz quem eu estou sendo. Tenho mais compreensão que compaixão pela menina sofrida da minha infância, menos perdão e mais afeição. No grupo de terapia também somos todos Estrangeiros, cada qual com suas próprias viagens a narrar. E a narrativa ali renasce todos os tempos da Terra, as notícias chegam de lugares, os mais longínquos. As narrativas são veículos de cura e temperança. A voz que me acalanta é a voz que caiu comigo no mesmo precipício, mas diferente de Orfeu, por vezes voltamos com a nossa criança viva, respirando. E esse respiro é voz, é a narrativa desse Estrangeiro que sempre acaba de chegar, voltar e olhar.    
               Na porta de entrada da Terra Estrangeira colei um cartaz: Tenha uma boa estada nesta morada e aproveite bem o que for sentido... Vamos lá fora ver o mar?

quinta-feira, 31 de maio de 2007

AVOE


Fiquei velha antes do tempo
Fiquei velha depois das horas
a ponto de hoje restar-me
apenas esses restos de noite ou de dia
restos de palavras enclausuradas
como irmãs rezando terços

E tenho nas mãos algemas etéreas
e olhos de gaveta para guardar o mundo
Por isso hoje só me restam poucos
versos engatilhados
e dúvidas se serei
na algibeira da porta: a tal ventania da morte

Meus fantasmas ali esperam-me
com seus tolos afagos

Volto-me faminta a revolver a terra
onde enterrei os fatos e as mentiras
e tenho poucas mãos para o Ato

Preciso então ir mais fundo
e me fartar desse solo triste
até a exaustão
Preciso chorar todas as lágrimas de dentro,
emborcar o corpo,
dobrar e desdobrar o dorso
para libertar de vez as asas
que guardei nas coxas,
desaprendidas do voo

ressaca


Estou triste com o que percebo ao meu redor. Como sou ingênua! Acredito tanto nas pessoas, acredito nas verdades que me dizem, acredito nas mentiras que me dizem. Acredito no afeto, na esperança, na justiça... E acho que não posso mudar isso em mim, também não posso mudar o outro, não posso mudar o mundo, as injustiças do homem, as injustiças do mundo. Nesse sentido sou sim muito ingênua, amplamente leal à minha fé no próximo. Ou talvez seja quixotesca demais, lutando em vão, gastando toda energia. Vou dormir, esquecer, tentar esquecer, tentar conviver melhor com as falhas humanas – as grandes e as pequenas. As minhas, sobretudo.

quarta-feira, 30 de maio de 2007

Carta de amigo


Para R...,

Vi as fotos de Bonito. Adorei assim como adoro receber suas cartas. É como me banhar num rio calmo - “pro fundo” como os sofrimentos do homem – diria o Rosa, rios volumosos como esses que aparecem nas imagens. Fico toda quente quando olho e chego a pensar que parte de mim também é meio rio ou é um rio ao meio. Essas histórias que você anuncia, as leituras que você fez... Fico me banhando de palavras que encantam pela pessoa, pelo amigo que me oferece rosas e moinhos nesses tempos de individualismos e apegos tão materiais. De tantos absurdos do não sentir. Mas sei que somos “isto e aquilo”. Já reparou como nossa História foi sempre violenta, mas que mesmo durantes as guerras, o sol tinhosamente brilha e há crepúsculos e gente fazendo amor?
Quando leio suas cartas, fico sempre cheia de graça. Uma brincadeira com o litúrgico, já que você diz que abuso. Tive formação cristã, estudei em colégio de freiras e quis ser freira por um tempo significativo. Parte da minha compreensão de mundo veio de lá também e nunca vou tentar menosprezar o que aprendi, até porque negar guarda em si o afirmar, você sabe disso. Mas divino, meu caro, é realmente ter vivido o mundo e a convivência com o outro. E eu fico cheia, lua, viagem de rio inavegável – pois é mergulho de dentro-fora. E me banho desbravando os rios como as carrancas no São Francisco.
Quanto ao amor? Sim, tenho medo de gostar para além, mas não tem jeito – me esparramo pelo chão. Como era vidro e se quebrou, por hoje ando cansada de amores líquidos. Acabei de ler o Bauman, recomendado por você. Sou uma boa moça. Então penso em recuos, dançando no ar como borboletas amarelas (as mais comuns) ou pequenos bichinhos voadores. O inseto na flor. “Ela me quer. Ela não me quer. Ela só quer o meu mel.” É isso: sou um bicho voador e desde de que me entendo por gente é que venho aprendendo que a liberdade é um tanto ameaçadora. Liberdade pra quê? Pergunto via Irmãos Karamasov - que nós lemos. Para que serve um punhado de liberdade? Está no discurso do grande inquisidor. Que absurdo esse Dostoievski! Quando leio sinto desejos de morrer de espasmos. Eu o amei absurdamente desde a primeira vez que li “Crime e Castigo”. Amor platônico e dialógico. Sou masoquista? Talvez, já que sempre me fere, arranhando os sentidos e eu gosto, eu gosto.
Mas saiba que eu, esse ser que sofre e escreve, que mais sofre que escreve, só entende a liberdade no amor. Os homens que amei se assustaram muito comigo, sempre incrédulos. Poucas avenidas, muitas esquinas. E não me preparei devidamente para amores frívolos, fúteis ou autoritários. Amores passionais, fragmentados ou globalizados. Tudo muito contemporâneo pra mim, se ainda estou com cheiro de pólvora do século passado nas mãos. E aí me pergunto: como compreender alguém que se descortina em mundos internos com camadas de palavras, de lugares indefinidos, de vermelhos próprios de um existir amoroso. Tenho um amor doido e doído pelo mundo e amo meio que desmedida, sangrando. Tanto amor.
Nós mulheres sangramos. Respondendo a sua pergunta, sim, não foi possível, mas poderia e gostaria também de ter amado aquela pessoa que me amou, talvez mais de perto – para compreender esse “ser” para além da mulher que sou e me tornei. Embora sensíveis, como você bem diz, talvez generalizando, as mulheres que conheci e conheço me são ainda incógnitas e acredito que certamente há rigidez também no que se entende como mundo feminino. Mas meu coração sempre esteve aberto. Enquanto isso, vou gostando sempre e mais dos velhos e das crianças, extremos vitais de homens e mulheres. Sabem dizer não quando todos querem ouvir sim, são limítrofes e Kairós. Estão próximos demais das parcas e de seus fios a tecer ou cortar. Ressonância de Heidegger, você dirá. E eu lhe responderei que sim, é o tempo do retorno pródigo. Pois estamos sempre voltando para o poço, disse Raduan. Talvez o voltar seja então mais importante que o lugar.
Talento para escrita? Escrita feminina? Não sei, nunca me coloquei no lugar dessa crítica sobre mim mesma. Deixo isso para quem o quiser fazer. Não me importo com rótulos, não me importo com enquadramentos. Escrevo para sobreviver ao que não posso modificar com ações, sendo escrever também ação. Escrevo para não enlouquecer o outro em mim, para ter outras paragens e perspectivas, burilando a palavra talvez no meu corpo de linguagem. Para realizar as viagens que não fiz. Gostaria de escrever muito mais. A escrita ficou com os intervalos.
Sim, meus amigos gostam, se emocionam, querem ler mais. E perguntam: quando vai publicar seus poemas? Essa gente, eu digo sem dúvida, é de uma beleza incrível. Fico sempre encantada por eles, são cheios de juventude os amigos. Sobre publicar, ainda não sei, acho tão complicado, não sei como lidaria com a indiferença, não sei lidar com a indiferença. Então não sou muito ativa nesse sentido. E sempre tenho dúvidas sobre a maturidade do que escrevo e assim vai. Mas quando pessoas como você me falam desse possível, me entusiasmo. Quero pensar sobre. Mas daí a pouco, posso esquecer.
"Ninguém pode escolher onde nascer, mas pode escolher onde morrer”. Tenho andado com essa frase na cabeça. Sabe, quando você pressente que algo grande vai acontecer na sua vida, algo tão intenso, que por impossibilidade de sentidos mais apurados, torna-se impossível antever com exatidão? Tenho isso às vezes. Posso revelar agora, R., pois sinto confiança em mim. Acho que um dia vou voltar pra outro lugar, tenho alimentado esse desejo com pequenos pedacinhos de pão. Acho o Rio de Janeiro lindo, mas os cariocas me são fugazes demais, o que não é ruim, de forma alguma. Eles são ternos, afetivos e festivos na sua volatilidade relacional. E os inocentes do Leblon não sabem mais de mim. Eu prefiro ainda os que sabem ficar, continuar, fixar moradia, sabe, aqueles que moram dentro da gente e por isso criam saudades até no que não podemos viver deles. E ainda penso conhecer alguns interiores, se houver tempo e se o desejo se esticar de fato. O sal da terra como naquela canção. Pra casa? Talvez por alguns dias. Meu pai mora lá. Dei pra sentir medo de não vê-lo mais vivo ou o contrário. Isso me deu porque percebi horrorizada que não lembro mais do rosto dele. Não tenho sequer uma foto. No fundo, fui e sou sempre uma retirante aqui. Sinto-me em constante êxodo.
E se acontecer, estando no Mar, quando a minha maré encher, espumando branca, eu cheia de graça, de frutos e ventos, vou me lembrar que um dia conheci você, meu amigo, nas margens de um Rio denso e bonito – como o Bonito da foto. Que lembrança boa de se levar na alma para os sempres e confins, não?
Obrigada por suas palavras. Deixar de responder por vingança? De certo poderia. Mas já lhe amo o suficiente para entender vazios.

Beijos, meu amor, meu amor de amigo,
Patrícia.
Nos demais - eu sei, qualquer um o sabe - o coração tem domicílio no peito.
Comigo a anatomia ficou louca. Sou todo coração.
Maiakovski

segunda-feira, 28 de maio de 2007

Partilhas?


“(...) O olhar de Gregor dirigiu-se então para janela e o tempo turvo - ouviam-se gostas de chuva batendo no zinco do para-peito - deixou-o inteiramente melancólico” (p.8)

“(...) Certa vez, de manhã cedo - uma chuva violenta batia nas vidraças...”. (p.68)

Kafka



Partiu com sua farsa trágica
Partiu sem dizer quantas voltas daria ao mundo
e não voltou.
Partiu com as minhas lágrimas, as embutidas,
e indiferente ficou ao ritual que menos fere.
Eu que já amo o mundo de forma tão doída.
Pra quê?
Pássaros podem até sentir,
mas têm coração?
Ou eles só sabem da pretensão de chegar?
Observo sua história,
mas pássaros não têm história. Têm?
Não, são como anjos.
O mundo em preto e branco.
Sigo lúcida estradas de volta
improvisando sentidos para não lamentar,
farejando memórias tumultuadas, deixadas
acolá e aqui,
feito indícios de um mal que me lembro pouco.
Mau tempo.
Mau uso da natureza. A humana.
Oh, passarinho sem coração.

Ora,


Amo em ti
tudo que não é ode
e tudo o que me dev ora
e que não se pode dever orar.

Odeio o que
em ti recl amo
h eras
h oras

o que não sendo sim
é sem (pre) ce
e não

e........... s........ o........... p................ r.......................... o



(Da dura poesia concreta de tuas esquinas, da deselegância discreta de tuas meninas...)


quinta-feira, 24 de maio de 2007

Sobre preces...



Fui humana e fraca,
também fui mesquinha
e violenta no tempo da dor.
Mas me interessei longamente por entregas
e a elas me lancei sem medo, ameaças ou covardia.
Meu sonho é fosco.
E a minha alma é pouca.
rasa como água salobra,
rala como leite fino.
Passei meus dias a viver do verbo
e só a ele revelei o amor
na sua graça e grandiosidade.
Para onde vamos? – perguntou-me.
Não sei, meu bem, mas Deus há de saber.
Eu só sei do quando,
minha vida é fado
nunca foi do tango.

terça-feira, 22 de maio de 2007

Os Guardados e a Santíssima


PRIMEIRO GUARDADO

Grito? Não, nunca.
Falo baixo por acomodação e domicílio.
Viajo raso, bem rente ao chão,
bem rente pra não causar impactos ou estribilhos
na realidade moldada pressas meninas.
Mas sofro de silêncios extremos e ruidosos,
dores de vazios, dores de guardados.
Nunca pude ser de natureza extravagante.
Então, como também não recebi a dose exata de beleza
que me poupasse da ilusão do amor masculino,
além da dose doce de tristezas e nuvens,
compus poemas para vidas passadas.
Compus delicadezas.
Dizem que sou calma nervosa,
que guardo segredos
e segredo juramentos.
Vou ampliando, amplificando assim os silêncios.
Sonho? Sim. A transverso.

SEGUNDO GUARDADO

Para onde foram as flores
e os dias de paz que deixei aqui?
Passo em frente à janela daquela senhorinha
e vejo:
a casa esvazia-se,
afazia-se,
tranca baús,
perde as chaves. Mas para onde ela foi?
Sei que as memórias dormem.
E que são mulheres, metáforas – com odores de velhice,
quase sempre transcritas em línguas mortas
de alfazema.
E todas as velhas, sei, somos nós.

TERCEIRO GUARDADO

Segue o cortejo,
mulheres de todo mundo
enfim saem de casa
e levam para as ruas
fotos e flores
de amores velhos e novos,
cantam canções,
berram por justiça e guardados
em coro de vozes inaudíveis.

Diante da histeria humana
pego o meu xale português
e entro - sem despedidas ou desejos
no vasto espelho de Alice
para me fechar em copas.

Patrícia Porto

segunda-feira, 21 de maio de 2007

HERANÇA (à Orides Fontela)


Da avó materna:
um santo,
um terço,
um marcador de pastéis,
um prato de porcelana.

Do pai:
ausências.

Da mãe:
um pano,
fotografias,
a caixa de costura da avó
materna,

uma cantiga:

Ciranda, cirandinha
Vamos todas cirandar
Vamos dar a meia volta
Volta e meia vamos dar

O anel que tu me deste
Era vidro e se quebrou
O amor que tu me tinhas
Era pouco (tão pouco, homem)
Se acabou...



HERANÇAOrides Fontela

Da avó materna:
uma toalha (de batismo).

Do pai:
um martelo
um alicate
uma torquês
duas flautas.

Da mãe:
um pilão
um caldeirão
um lenço.

De Rosácea (1986)

terça-feira, 15 de maio de 2007


Sou como a viagem que ainda não fiz: uma promessa
Estou esperando que as nuvens que sobrevoam nossa cidade se espantem
E se desfaçam
Preciso de tempo para pensar
Em tudo
Os anos vão se espremendo
Aumentando minha idade
E eu sofrendo por todos
Sempre quis salvar um pouco do mundo
E muito de mim
Vou vendo
vivendo
o que perdi
Não sei se contribuí devidamente
E hoje fecharei as cortinas a fim de não ver o sol

quarta-feira, 9 de maio de 2007

Canção para Vinicius ("Nunca te vi, sempre te amei" em redemoinhos insones)


Anjos... (que me perdoe o amor... fundamental)


Homem e pássaros

Ele vinha todas as noites e se deitava em minha cama. Era um homem forte, rude até, mas estava perdido naquela cidade do sul. E olhava pra mim quase que sempre desaprovando caminhos. Vai pra onde, mulher?

Passaram-se tantos anos até que ele se acostumasse à minha presença nas ausências que fazia de mim, até minha roupa de solidão encurtou. Minha quase viagem ele já até gostava. Assim me queria de longe, o Zé, bem quisesse ou não. Quis tentar ajudar, mas aquele homem foi aprendendo a falar uma tão língua difícil que eu só não conseguia decidir. Não era língua de gente ou sábio. Parecia mais assobio. E passou a se debater muito durante a noite, sentia um pouco de falta de ar – Então subia até o telhado para olhar as outras casas de cima, às vezes entrando em algumas sem ser mal percebido. Mas pela manhã voltava a dormir, inexplicavelmente, meu Zé.
Um dia decidi: pra que ter má sorte? Abri a porta para que ele saísse, meu homem de tão pouca fé. Mas ele apenas acocorou-se no sofá numa posição de bicho. Pra que isso, Zé? Que te deu homem?

Então vi – de repente – duas asas abertas sobre seus ombros, duas asas enormes. Aproximei minhas mãos do dorso dele, tocando penugens com tato, dor de certeza. Fechei a porta. Abri as janelas todas pro vento do norte. Vá se embora, Zé! Demore não.

Deitei na cama com ele – talvez pela última vez. E só então pude também revelar:

Olha, Zé, eu também tenho asas.

sábado, 17 de fevereiro de 2007

toda maçã será comida





A mulher que sou é um bicho tolo,
ama sem vícios,
sem recompensas,
sem garantias
ou avisos prévios.
A mulher, que eu sou - é um bicho tonto,
é um bicho doido.
Perdoai.


Patrícia Porto

segunda-feira, 12 de fevereiro de 2007

Esperando na janela.


(para todos os amores)

Ele disse que vinha.
Arrumei a desordem da vida,
coloquei flores na varanda,
varri velhos fantasmas,
forrei os retratos antigos.

Com um pouco de sorte
ele irá perceber
meu simbolismo,
minha presença
a temperança –
o perfume de colônia
que guardei em vidrinhos.

Com um pouco de sorte
ele vai me sentir
com todos os sentidos
e liberdades.

Para esperá-lo
vou tomar um chá de maçã com canela
- delicadamente,
gole a gole.

Não tenho rima para apressar...
Vou colocar açúcar na janela,
a janela dentro de mim...

Com um pouco sorte
ele pousa,
ele pausa (...)
aqui.


Patrícia Porto